BUROCRACIA E CRIATIVIDADE: DUELO OU DUETO?

 

Normas, carimbos, tramitações, protocolos e seus irmãos, gêmeos ou não, constituem, como todos sabem, a numerosa e infernal família burocrática. Não só o serviço público, mas organizações privadas e não governamentais se deixam, com frequência, fascinar pelo emaranhado de papéis, documentos, rotinas e atitudes que, criados para disciplinar, terminam sendo provedores do caos e da perda de um tempo valioso. Que remédio ou antídoto para minimizar esse mal aparentemente indispensável?

 

De olho no século 21 e no advento da Era Pós-industrial, o sociólogo e consultor italiano Domenico De Masi responde com uma só palavra: criatividade. Como profeta é quem vê o óbvio (nas palavras de Nelson Rodrigues), De Masi prevê que ética e estética caminharão juntas no próximo século, fazendo desmoronar o bolorento edifício da burocracia (pelo menos, tal como ele nos é conhecido).

 

Segundo o sociólogo, as novas tecnologias vêm permitindo que o homem desfrute (ou que possa desfrutar) de ócio, de tempo livre, justamente o tempo em que as boas ideias acontecem. Porque as ideias criativas não têm lugar nem hora para ocorrer. Eis uma das faces do duelo que a criatividade trava com a burocracia bem-comportada. É preciso que, desde já, eduquemo-nos para o tempo livre e que, consequentemente, o ócio criador seja estimulado. Eis um paradoxo a ser equacionado pelas organizações: perder tempo para ganhar tempo, uma vez que, através da criatividade, geram-se ideias, projetos inovadores, conhecimento.

 

Como que para provar sua tese, De Masi e sua equipe lançaram o livro A Emoção e a Regra: os Grupos Criativos na Europa de 1850 a 1950, no qual analisam o sucesso de equipes e organizações famosas, a exemplo do Instituto Pasteur, da Escola de Biologia de Cambridge, da Bauhaus, do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt. Em todos, como sintetiza o título da obra, a criatividade e a disciplina, ao contrário de travarem um duelo mortal, aliaram-se institucional e espontaneamente. Além de interdisciplinaridade, houve complementaridade, sem falar no papel-chave de um líder fundador na condução da equipe.

 

No Recife, houve uma experiência semelhante, com a criação, há exatos cinquenta anos, do Instituto Joaquim Nabuco. A figura de líder criativo de Gilberto Freyre, reunindo em si mesmo "a fantasia e a realização", como diria De Masi, formou um grupo inovador e realizador de pesquisas pioneiras. Foi um triunfo da aventura sobre a rotina.

 

Mas é preciso que todos estejam de olho no processo degenerativo a que conduz o excesso de burocracia. É preciso o sal da criatividade para se mover num mundo que muda velozmente. A cada dia, lembra o sociólogo e consultor italiano, a sociedade já vem premiando os criativos: os cientistas, os artistas, os escritores. São estes que (mais felizes, como escreveu Bertrand Russell) fazem avançar o processo. Porque, segundo De Masi, "o burocrata vê os limites, ao passo que o criativo vê as oportunidades". No século 21, na Era Pós-industrial, ou os burocratas compõem um dueto ou o duelo lhes será fatal.






 Escrito por Paulo Gustavo às 18h41 [   ] [ envie esta mensagem ]




A MULHER VAI AO SUPERMERCADO, COMPRA UM SACO DE BATATAS. EM CASA, DESCOBRE O FURTO. ENFIM, PARODIANDO MACHADO DE ASSIS, AO LADRÃO, AS BATATAS! NADA DIFERENTE DO RESTO DO PAÍS: OS LADRÕES GANHAM TODAS!



 Escrito por Paulo Gustavo às 14h39 [   ] [ envie esta mensagem ]




ENFIM, ALGUMA ATITUDE SOBRE A DERROTA RÉGIA

Brinquedos causam polêmica em festa
Publicado em 04.11.2009 no portal JC (www.jc.com.br)

 

Organizadores do evento, que homenageia Roberto Burle Marx, permitiram colocação de brinquedos de grande porte nas calçadas da praça, no bairro de Casa Forte. O local foi projetado pelo paisagista

A 31ª edição da Festa da Vitória-régia, na Praça de Casa Forte, Zona Norte do Recife, presta homenagem ao centenário de nascimento de Roberto Burle Marx (1909-1994). Mas, em vez de conservar o jardim projetado pelo famoso paisagista, os organizadores do evento permitiram a colocação de brinquedos de grande porte nas calçadas da praça. “A montagem do parque de diversões provoca estragos no piso de pedra portuguesa do passeio”, alerta a arquiteta da Universidade Federal de Pernambuco Ana Rita Sá Carneiro.

Ela participou de reunião ontem à tarde, para discutir a instalação dos brinquedos, com representantes da Prefeitura do Recife e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), com organizadores da festa e representantes da empresa responsável pelo parque infantil. Durante o encontro, o Iphan elaborou um termo de ajustamento de conduta (TAC), com regras que devem ser respeitadas, para diminuir os impactos no local.

“A maior homenagem ao paisagista seria a preservação dos jardins que ele criou”, destaca a coordenadora do Laboratório da Paisagem da UFPE, Ana Rita, estudiosa da obra de Burle Marx e uma das autoras do pedido de tombamento de seis das praças projetadas pelo paisagista no Recife. O processo está sendo analisado no Iphan. A festa começa sexta-feira e se estende até o próximo domingo.

O superintendente local do Iphan, Frederico Almeida, informa que o objetivo do TAC é disciplinar a festa. Ficou acertado com os organizadores que não será permitida a colocação de gambiarras ou elementos decorativos nas árvores. E, além disso, a poda da vegetação atingida pelos brinquedos de grande porte só poderá ser feita pela Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb).

De acordo com o TAC, o público não poderá circular no interior dos jardins. Para isso, as áreas serão protegidas com gradil ou tela. “Os brinquedos ficarão restritos ao primeiro jardim da praça, no trecho mais próximo da Avenida 17 de Agosto, sem causar danos à pavimentação de pedra portuguesa da calçada”, diz Frederico Almeida.

Os organizadores da festa estão cientes do TAC e aceitaram as normas. “Uma cláusula futura prevê a relocação do parque de diversões para outras ruas próximas da praça, como a Estrada das Ubaias, a partir de 2010”, diz ele. O Laboratório da Paisagem e a prefeitura deverão vistoriar o jardim, ao término do evento. Ana Rita lembra que o assunto tinha sido discutido em audiência no Ministério Público de Pernambuco, em julho deste ano.



 Escrito por Paulo Gustavo às 09h39 [   ] [ envie esta mensagem ]




A DERROTA RÉGIA MAIS UMA VEZ!

 

A despeito do bom senso, o pároco de Casa Forte insiste em fazer todos os anos, no início de novembro, a Festa da Vitória-Régia na Praça de Casa Forte, que, como se sabe, é uma das obras paisagísticas de Burle Marx no Recife. A filantropia paroquial custa caro à praça que não tem escala para o evento.

 

Venho igualmente, todos os anos, denunciando neste blog a aberração desta festa amarga para a natureza. E mais: repito que é um milagre que ainda não tenha havido uma tragédia, dada a exigüidade do espaço — aliás grande, mas não para uma festa em que se comprime uma multidão — e a falta de segurança para a instalação do parque de diversões. Parque de terceira categoria, no qual o encanto das crianças e dos provincianos de plantão encontram uma despreocupada diversão. Enfim, com a cumplicidade dos poderes públicos e de muitos paroquianos, instala-se um simulacro de festa. A praça sofre anualmente uma humilhação sem par em nome da melhor filantropia. Tortura-se um ambiente aprazível em nome de um capricho e sem qualquer necessidade imperiosa. Põem-se em risco as crianças e os desavisados. Flagelam-se as copas das árvores e os gramados. A barbárie avança em nome da caridade! Ora, há muito já foi sugerido outro local para a festa no próprio âmbito do bairro. Desse modo, o pároco cutuca o diabo com vara curta, desconhecendo que a Praça de Casa Forte vale uma missa!



 Escrito por Paulo Gustavo às 11h49 [   ] [ envie esta mensagem ]




Não precisa sermos urbanistas para observar, em várias grandes cidades do Brasil, que a rua separou-se radicalmente da casa. Os altos muros — para não falar de verdadeiras muralhas — criaram ruas que são corredores de concreto. Entre os muros, corre o nosso medo e o desrespeito dos poderes públicos. Mas o medo, como escreveu o poeta pernambucano Alberto Cunha Melo, “aumenta o perigo e diminui os homens”. Não temos mais o rosto das casas em franco diálogo com a via pública. Temos apenas muros cegos e a dureza da pedra em longo monólogo paranóico. Assim, desaparecem as casas e, de certa forma, desaparecem as ruas. Perdemos o que João do Rio, em belo título, chamou de “a alma encantadora das ruas”. Infelizmente, as ruas, agora desencantadas, são apenas túneis, tristes túneis sem qualquer encanto. Quando começaremos a demolir esses muros soturnos e sinistros?  



 Escrito por Paulo Gustavo às 10h39 [   ] [ envie esta mensagem ]




DIA DE FINADOS E O LUTO QUE VIROU UMA LUTA

 

A moda — e isso já faz um bom tempo — é, em face da morte de um ente (supostamente) querido, não deixar ninguém sofrer. Não chore, distraia-se, caia na gandaia, namore, vá ao cinema, experimente esse novo iogurte, o tempo não para, olha a depressão, tome uma cerveja. O “cristão” se vê cercado de conselhos febris. Em vão luta para ter o seu luto e mergulhar na rocha desolada da tristeza. Os velhos lenços desapareceram. A missa de sétimo dia é um bailinho. Com os olhos mais áridos que o sertão nordestino, os figurantes optam por óculos escuros. É isso, o velório vira uma praia de óculos escuros — a tristeza é falsa como a coroa de flores. Cada óculos que é uma beleza. Assim, em cima do nariz cabe toda a dor pelo finado. O velório é uma eternidade à parte: demora muito, quem sabe poderia ser pela Web. Vamos alegrar a família, a vida continua. Veja só aquela criatura ali: chorou muito, então é suspeita. Suspeitíssima: era amante ou deve ser anormal, talvez apenas antiga, arcaica. “Arcaica” arrasa qualquer um.



 Escrito por Paulo Gustavo às 13h07 [   ] [ envie esta mensagem ]




DA SÉRIE DIÁLOGOS MUITO RÁPIDOS

— O Niemeyer disse que a “vida é um sopro”!

— A dele é um soprão!

 

— E “Lula, o filho do Brasil”?

— E nós, somos filhos de quem?

 

— Ele tem o rei na barriga.

— Não só o rei, um tabuleiro de xadrez!

 

— Aquele Prof. Dr. não tem ética nenhuma.

— Mas é todo “honoris causa”.

 

— Quem ele pensa que é?

— Ele não pensa!

 

— Notou que os intelectuais não usam mais o termo “penetrante”?

— Estão com complexo de castração!

 

— Por que os psicanalistas têm um olhar recuado?

— É a visão freudiana das coisas.

 

— A filha dele é uma uva.

— A mulher, um abacaxi!

 

— Ele sofreu muito no regime militar...

— Torturado pela dor de corno!



 Escrito por Paulo Gustavo às 12h45 [   ] [ envie esta mensagem ]




NO DIA DE FINADOS

 

No dia de Finados perguntarei aos túmulos o que podem me ensinar.

Talvez a concisão dos epitáfios,

A trôpega ortografia das datas,

Os vastos nomes em ruínas.

Perguntarei por teu rosto claro sob o véu do mármore.

No dia de Finados sorrirei como os mortos sabem sorrir

Por trás de nossos vultos ensolarados.

Perguntarei às sombras pela luz apagada,

Pois é simples saber que estamos em todos os túmulos,

Ainda tímidos nas entranhas da terra,

Pouco convencidos do grande mérito da morte,

Da fabulosa arquitetura que transformamos em mistério.

 



 Escrito por Paulo Gustavo às 10h29 [   ] [ envie esta mensagem ]




O LIRISMO DA VELHICE

Numa de seus contos, Guimarães Rosa sugere que morrer talvez seja voltar para a poesia. Penso que é antes da morte, durante a velhice ou do seu começo, que o sujeito se volta para a poesia. Poesia, bem entendido, como lirismo e sem julgamento de valor literário. É o que tenho observado. Passadas as pressões da juventude e da idade madura, vencidos ou perdidos os desafios da existência, o sujeito envereda, ainda que trôpego, com ou sem uísque, pelo lirismo. Mais relaxado, temeroso do tempo que se afunila, saudoso do tempo que passou, envereda, repito, pelas trilhas do saudosismo e da percepção lírica do mundo. Não por acaso o mesmo Guimarães Rosa nos advertiu que ser poeta já é estar metido numa espécie de velhice. A velhice, com seu tempo teoricamente mais livre e mais desimpedido, agravada pelas desilusões ou pelas conquistas, faz com que certos homens passem a poetizar a existência. Então, recorda-se o tempo, revive-se o tempo e percebe-se mais densamente o próprio tempo. Menos arrogantes que os da juventude, os “poetas” da velhice nadam em águas mais tranqüilas e cada braçada é uma vitória vital. Não se importam de aqui e ali engolirem a água turva da adversidade. O lirismo é assim terapêutico e balsâmico e é nele que lêem o texto que escreveram ou deixaram de escrever. Nada de literatura, toda a literatura. Por que não?



 Escrito por Paulo Gustavo às 09h33 [   ] [ envie esta mensagem ]




CRUZES!

“Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão.”

 

Lula, o presidente

 

Lula, em mais um dos seus arroubos metafóricos incontroláveis, sugere a reescrita dos Evangelhos. Num país cristão como o Brasil, o presidente pisa na bola (aliás, já um tanto esfolada!). Diz o que os políticos pensam, poderiam dizer, mas não dizem. Com isso, não defendo o presidente, apenas acuso o modo de se fazer política no Brasil. O presidente pisa na bola menos pelo sentido da metáfora do que por ter invocado personagens relativos à religião de milhões de brasileiros. Não se brinca impunemente com essas coisas. Lula pode ser crucificado — e com justiça!



 Escrito por Paulo Gustavo às 20h05 [   ] [ envie esta mensagem ]




SOU EU! (Conto)

Durante muito tempo, nossa turma de engenharia procurou Enemerso. Ele se formara e sumira no mundo. Todos os anos em que comemorávamos o aniversário da turma, Enemerso emergia como assunto inevitável. Entre goles de uísque e de cerveja, de repente alguém perguntava: “E Enemerso?” A pergunta, como incômoda espuma de chope, se derramava sobre nossas cabeças. Um ar de inquietação perpassava nas fisionomias e, logo em seguida, quase em uníssono, dizíamos: “Nunca mais ninguém o viu”. Por alguns instantes, recordávamos a lânguida e tímida figura de nosso convívio universitário. Recordavam-se os traços marcantes de Enemerso. Uns se recordavam que ele fora um bom aluno: teria sido até muito bom em mecânica ou teria sido muito bom em elétrica. Outros lembravam seus gestos contidos como se vivesse a calcular equações mesmo na prosaica vida cotidiana. No ano seguinte, porque nossos encontros eram anuais, com todos os ex-colegas reunidos, o ritual se repetia: “E Enemerso?”. Ainda hoje, passados tantos anos, ainda ouço o eco daquele nome como um selo verbal da inquietação humana.

 

Teria Enemerso morrido? Moraria noutro país? Teria sido capturado pelos órgãos de repressão da ditadura militar? O nome de Enemerso era um grande vazio onde nós, engenheiros formados há tantos anos, jogávamos as fichas vazias de uma memória quase em branco. “Com um nome desse — dizia um dos mais gaiatos ex-colegas —, o camarada tem tudo pra desaparecer, imerso, enemerso ou submerso!”. Bem, preciso dizer que naquele tempo não havia o Google. Não podíamos sequer dar um Google em Enemerso! E não podíamos lutar contra a realidade factual (logo nós, engenheiros!, imaginem!): Enemerso era um caso sem esperança.

 

Qual não foi nossa surpresa quando, numa daquelas comemorações, em conhecido restaurante da cidade, com a pergunta elegíaca e provocadora se repetindo — “E Enemerso?” —, levantou-se, na mesa vizinha, um velhinho magro, de olhos vivos como qualquer velhinho lúcido, nos dizendo como se soterrasse todos os anos de curiosa ausência: “Enemerso? Enemerso sou eu! Me desculpem, mas não há outro!”.

 



 Escrito por Paulo Gustavo às 19h41 [   ] [ envie esta mensagem ]




À PORTA DO ELEVADOR

— O elevador está parado neste andar?

— Parece que não.

— É porque estou seguindo a plaquinha “Verifique se o mesmo está parado...”.

— Entendi.

— Não entendeu, não!

— ?

— Se ele estivesse parado, estaria funcionando?

— Claro.

— Nada claro, parado pode ser que esteja parado e quebrado.

— Mas pode ser que esteja funcionando. Esse elevador quebra pouco.

— Então, posso entrar sem medo se ele estiver aí parado?

— Pode abrir a porta.

— Mas sem entrar não me adianta nada.

— Claro.

— Nada claro. O senhor não sabe aonde vou nem de onde vim.

— ?

— O fato é que preciso tomar o elevador, mas nem a placa nem o senhor me oferecem qualquer segurança.

— Se o elevador chegar, o senhor pode entrar, é simples.

— Nada simples.

— ?

— Se ele chegar é porque não está parado, concorda? Logo, não posso tomar o elevador. Também não posso entrar num elevador parado.

— ?

— Não é fácil andar de elevador, sobretudo se essas placas confundem a gente.

— É uma lei.

— Uma lei que para os elevadores. Me diga outra coisa, por favor: “o mesmo” e o elevador são o mesmo mesmo?

— Claro.

— Nada claro! Há crianças que pensam que “o mesmo” é outro. É outra lógica!

— Lógico!

— Nada lógico! O fato de haver outra lógica não é nada lógico, pois a lógica deve ser uma só. Essa placa aí confunde a lógica.

— O elevador chegou.

— Para mim, é como se estivesse quebrado.

— Pode abrir a porta! Ele está funcionando. Esqueça essa placa.

— O que o senhor quer: me jogar no poço? Percebi ao chegar que o senhor tem cara de elevador. Por isso, fica aí parado e tem uma conversa que não leva a lugar nenhum.

— ? O senhor vai perder o elevador!

— Perder coisa nenhuma! Não entro nesta merda. Por que o senhor não entra?

— Antes de o senhor chegar, eu ia descer pela escada.

— E a escada está parada neste andar?

— Não, vive quebrada.



 Escrito por Paulo Gustavo às 11h48 [   ] [ envie esta mensagem ]




ERA UM NOME TÃO BONITO!

— Meu nome? É complicado.

— Preciso do seu nome todo.

— Estou avisando que é difícil.

— Mas tem de falar para eu preencher o formulário;

— Só tem consoante.

— Como assim só tem consoante?

— Foi minha mãe que...

— Engoliu as vogais?

— Foi. Ela não gostava de vogais. Dizia que as letras mais bonitas eram as consoantes.

— E seu pai?

— Meu pai teve que engolir.

— E o escrivão?

— O escrivão escreveu letra por letra.

— Então, o senhor deve ter um nome e o chamam por outro! Sem vogal é que não dá!

— É por aí.

— Então, vamos lá. Pode me dizer agora o nome?

— Não. O senhor não entendeu. Meu nome é impronunciável. Só posso dizer como me chamam.

— Não serve.

— Me dê um documento qualquer que tenha o seu nome para eu copiar.

— Mas estou justamente querendo tirar um documento. O original eu perdi.

— Afinal, como é que chamam o senhor?

— WC.

— WC, meu amigo, é toalete, banheiro...

— Mas são as iniciais do meu nome. Pelo menos, sou um WC limpo.

— Ainda bem. Então, WC, vou dar um jeitinho. Com um nome desse, você pelo menos é um sujeito útil. Não lhe faltará trabalho. Nem dinheiro nem bons amigos. Um WC é bem-vindo em qualquer lugar.

— E que jeito o senhor vai dar?

— Vou oficializar o WC.

— É, do jeito que está estou informal.

— Pois vamos formalizar. Nada que três carimbos não resolvam. Esqueça o impronunciável.

— Isso é que me dói. Era um nome tão bonito.



 Escrito por Paulo Gustavo às 11h01 [   ] [ envie esta mensagem ]




CASA-GRANDE DA TEORIA

E SENZALA DA PRÁTICA

 

Os males e problemas brasileiros, ao que parece, já estão bem diagnosticados pelos próprios brasileiros. Formulamos planos, projetos e análises com relativa abundância e muito pouco eficácia. Deles, as prateleiras e as gavetas estão cheias. Formam uma espécie de “casa-grande” do nosso habitual discurso, seja em mesas de bar, seja nas bancas universitárias, seja nas empresas e instituições. São importantes, são válidos, mas não bastam para o enfrentamento das adversidades e dos problemas.

 

Dentre tantas heranças malditas da formação brasileira, aí incluída a cicatriz da escravatura — aliás tão bem estudada por Nabuco, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque, para ficar apenas nesses três autores —, nos restou também o pouco apetite para pôr em prática, com obstinação, o que sonhamos fazer ou deveríamos fazer. Às teorias não correspondem à ação. As primeiras seguem na frente, maciças como casas-grandes, ao passo que a segunda segue a inércia de  Macunaíma. Mas não é só preguiça, antes parece ser uma fuga do trabalho no que este tem de esforço e de embate com a realidade. Ninguém se anima, na hora decisiva, a “carregar o piano”, contentamo-nos em ouvir suas melodias, em criticar ou apreciar seus acordes. “Carregar o piano” é sempre com ou para outrem, ficando o sacrifício da ação propriamente dita para terceiros. Mas o sacrifício, como escreveu Michelet, é o pilar do mundo, sem ele desaba a realidade. Chega-se, assim, no caso nacional, à curiosa constatação de que a realidade, ora, a realidade pouco parece interessar!...

 

A “casa-grande” — a teoria — manda, a “senzala” obedece e faz ou, paradoxalmente, não faz e não conversa com as abstrações intelectuais. A “senzala” desaparece, a “casa-grande” brilha e manda. Receio que nesse ponto, Gilberto Freyre, mais que ter traçado a nossa história social, tenha, sem o querer, diagnosticado um estado permanente do brasileiro, um modo mental em que, de certa forma, a “casa-grande” da teoria não se mistura à “senzala” da prática, não se olham, dão-se as costas. Não por acaso terá surgido a conhecida expressão segundo a qual “na prática, a teoria é outra” como a mostrar o hiato dessa mentalidade. Expressão a que poderia ser somadas mais estas: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”; “Faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço”, com as quais nos deparamos aqui e ali, mas sobretudo, internamente, na nossa inércia mental, tão infensa à união de prática e teoria e tão avessa a “carregar pianos” como se a ação fosse algo pouco inteligente e pouco digno de nós mesmos.

 

Mudar essa mentalidade conservadora — tão “ancien régime” — é um dos desafios postos ao brasileiro neste início de século. Seus outros nomes — é bom lembrar — são “atraso”, “ineficiência”, “ausência de empreendedorismo”, “autoritarismo”, “desigualdade social”, “injustiça”. Nomes que freqüentam a vida pública e a privada, dividindo e apagando discursos tão bonitos quanto estéreis, desconstruindo sonhos e idealismos de fachada.

 



 Escrito por Paulo Gustavo às 09h38 [   ] [ envie esta mensagem ]




QUEM QUER SER PROFESSOR?

A mídia noticia — embora de modo discreto, o que é significativo — a preocupante situação dos professores no Brasil. Aliás, nada que um cidadão relativamente bem informado já não saiba. O ponto de partida da notícia é o recente lançamento do documento da Unesco intitulado Professores do Brasil: Impasses e Desafios.

 

Falta, como se sabe, uma radical valorização da figura do professor. E, pior, começam a faltar professores. Não por acaso, há, na TV, uma propaganda oficial do Governo Federal/MEC estimulando o ingresso na carreira. Ora, esse estímulo solto no ar não será nada se não vier acompanhado de dinheiro, ou seja, bom salário. Professor também come. Professor precisa, para ser um bom profissional, estar atualizado. Professor precisa de internet. Professor precisa lazer. Etc. É preciso que os professores tenham condições pessoais e profissionais para trabalhar. E tudo isso é o contrário do que se vê no dia a dia.

 

Será uma utopia? Perguntem a Cristóvam Buarque e ele dirá que não, que é uma revolução na educação brasileira é perfeitamente factível. Buarque aponta a federalização da educação básica como uma das saídas para o impasse. A federalização garantiria um padrão único para as escolas em todo o país, da mesma forma que há um padrão único de um agência bancária do Banco do Brasil em todo o território nacional. Faltam, portanto, opções concretas, induzidas pelo Governo, para que o professorado do país tenha o status que merece e desempenhe o seu indispensável papel. Por ora, só propagandas oficiais, queixas e denúncias por todos consabidas. É preciso passarmos às ações ou o futuro estará comprometido.

 



 Escrito por Paulo Gustavo às 09h52 [   ] [ envie esta mensagem ]


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