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ESPELHO? “Capibaribe, meu rio / espelho do meu sonhar”. Assim começa o belo poema em que Austro-Costa (1899-1953) cantou o principal rio recifense. Poema no qual as cadenciadas redondilhas nos lembram que homem e rio podem ser irmãos e confraternizar o mesmo destino. Como se sabe, não é raro no mundo que rios e cidades se abracem um ao outro. Que criem paisagens únicas. Que troquem seus mistérios. Que se olhem e se reflitam com o prazer dos que sonham acordados. Por isso, num exagero de poesia e tocado pela profundidade do imaginário, Guimarães Rosa pôde escrever que “perto de muita água, tudo é feliz”. Também tocados pelas águas, Gilberto Freyre e Mauro Mota molharam sua pena no Capibaribe para escrever páginas imortais sobre o nosso rio. Freyre inclusive nos levando a mergulhos quase idílicos nas praias do Poço da Panela e do Monteiro, mas também abrindo nossos olhos para a morte do Capibaribe e para as ruínas das suas águas. Ressuscitará um dia o Capibaribe? Como, se a cada dia nos parece mais morto? Nos últimos tempos, como uma pá de cal, impuseram ao nosso rio a sua mais completa invisibilização. A cidade não lhe deu apenas as costas, deu-lhe uma espécie de dissimulado corredor polonês. Refiro-me à vegetação de mangue que nos dias de hoje faz do Capibaribe um prisioneiro. Não se vê mais o rio. Em nome do verde e da ecologia, elimina-se o rio, mandam-no pastar a exuberância tropical do mangue. A hipertrofia da vegetação de mangue bem demonstra o isolamento do Capibaribe. E tal solidão não faz bem a ele, rio, nem ao Recife. Diga-se que é um mangue inventado, um verde forasteiro e invasor. De mau gosto. Cruel. Que cega o rio. Nunca houve em outras eras — me asseguram os que conhecem bem a história do Recife — esse verde tristemente hegemônico e ditatorial. Esse incêndio que vence as águas e cuja fumaça torna opaco, opacíssimo, aquele espelho que Austro-Costa e tantos outros souberam amar e admirar.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h05
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CHAQUE VISAGE Paulo Gustavo Tradução: Didier Lamaison* Chaque visage est le sceau d’un monde étrange Une carte insoluble où la Terre nous appartient! Chaque rire, chaque plaisir Ont laissé des oriflammes encore frémisantes Chaque larme A use le parchemim originel, y brodant des lunes navrées et des blêmes horizons. Chaque visage est une horloge aux chiffres magiques Aux fleurs en attente de leur parfum ou de leur rien. Chaque visage est notre possible visage — Et ce qui s’y cache est un appel Come vague apelle autre vague Dans la mer à l’écoute attentive de ses propres pas! *Escritor e tradutor francês. Traduziu Carlos Drummond de Andrade para as Éditions Gallimard, em 1990.
Escrito por Paulo Gustavo às 19h19
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A VISÃO NA REVISÃO Tudo o que se publica passou por uma revisão. Se boa ou má, se profissional ou não, isso é outra história. Sem revisão, não se pode imaginar com fidelidade a milenar história da escrita humana e, muito menos, a história dos livros e da imprensa. Somos, cada um de nós, os nossos primeiros revisores, e, segundo os linguistas, a revisão não é outra coisa senão o estágio final de uma redação. Mesmo com uma visão flexível dos usos da linguagem, não é possível fugir deste trabalho inerente à atividade editorial: revisar. Até mesmo os que criticam, aliás compreensivelmente, a obsessão dos “patrulheiros da linguagem”, como o cientista cognitivo Steven Pinker, terminam por ceder à evidência da inevitabilidade da revisão, como claramente se lê em sua obra O Instinto da Linguagem. Independentemente da língua em que se pratique, a revisão, à parte seus aspectos técnicos e linguísticos particulares, está neurologicamente subordinada à visão. Eis aí o seu maior esforço: vencer a automação mental, pois o cérebro é programado biologicamente para cobrir lacunas, deduzindo o que não está na realidade e assim simulando, com o “piloto automático”, o mundo exterior. Por isso não custa lembrar com o neurocientista David Eagleman que “O ato de ‘ver’ parece tão natural que é difícil estimar a maquinaria muito sofisticada por trás do processo. Pode surpreender que cerca de um terço do cérebro humano seja dedicado à visão. [...] A visão é uma construção do cérebro.” Não por acaso o escritor francês Marcel Proust intuiu que a visão é “um conglomerado de raciocínios”... A propósito, convém lembrar que no ato de ler nossos olhos “dançam” sobre o texto, o que contraria a crença popular de que uma leitura é puramente linear, sequencial. Essa inevitável “dança” sobre o texto não deixa de ser outro óbice à desautomação exigida por uma revisão profissional. Malgrado os avanços tecnológicos, tem-se, no caso da revisão profissional, de se desenvolver estratégias de trabalho que tentem superar os rigores da automação, mas isso sem fantasias de onipotência sobre um texto. A “desatenção” e o automatismo — assim como o esquecimento para a memória — fazem parte de um inevitável e inconsciente processo. Como ensinam os neurocientistas, a maior parte da nossa atividade cerebral subjaz à consciência e, por isso, não saímos por aí pensando detida e conscientemente em como subir degraus ou passar marchas em nossos carros, o que seria simplesmente enlouquecedor. A circuitaria neural subjacente à consciência o faz por nós. Saber disso e não ter ilusões de onipotência pode contribuir para uma melhor compreensão de um serviço essencial ao mundo editorial e ao cotidiano de inúmeros profissionais. Paulo Gustavo
Escrito por Paulo Gustavo às 17h28
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ADVOGANDO PELO DIABO! “Viver é muito perigoso.” Guimarães Rosa A história sociocultural do Brasil talvez explique porque muita gente só costume pensar num Plano A. Risca-se, com isso, o risco, a probabilidade (aliás real, como aponta a Teoria da Aleatoriedade) da ocorrência de um evento diferente do previsto e que, simplificadamente, pode-se chamar de “erro”. Temos, os brasileiros e, dentre nós, até mesmo os considerados mais profissionais, uma espécie de crença de que tudo dará automaticamente certo. Qualquer tentativa em sentido contrário (“Mas e se não der certo? E se...”) é logo vista com o viés da antipatia. Mesmo em reuniões ditas profissionais, os “advogados do diabo” (e poderíamos dizer “dos riscos”!), excetuados naturalmente os costumeiros espíritos de porco, não são bem-vindos, como se fossem agourentas aves de azar. Ocorre que é o azar, o acaso, que está vital e matematicamente em jogo, como recentemente vem nos lembrar, com brilhantismo, o livro O andar do bêbado, de autoria do físico americano Leonard Mlodinow. “Quem tem um não tem nenhum” — diz um dito popular com sábia intuição, numa espécie de contrapartida à crença mágica de se acertar o alvo com uma única bala, a exemplo do que se pretendeu, em passado recente, com certo plano econômico. Nesse sentido, quem tem um Plano A ainda não tem plano algum. Quem não leva em consideração o risco e sua probabilidade ainda patina na falta de profissionalismo. É como não ter “cartas na manga”, abrindo um flanco para o perigo de ser desapontado. Ora, dessa forma, se aprenderá na prática a falta que faz um bom planejamento. Um planejamento que inclua a gestão do risco, que tenha mecanismos que possibilitem um certo controle sobre o futuro, o que na prática é o horizonte imaginativo para se deparar com alternativas de resultado que não são exatamente as esperadas. É de se observar que se mesmo com planejamento as coisas falham ou enveredam por caminhos inesperados, o que dizer quando de saída não nos preocupamos em planejar? Ficamos nas mãos poderosas do acaso e do aleatório. Nem por isso o planejamento é uma poção mágica que afaste todos os riscos ou que, como a poção de Asterix, nos dê um poder paranormal em face das surpresas da realidade. A propósito, vale lembrar que o escritor francês Marcel Proust escreveu que “a realidade é a mais hábil das inimigas” porque “nos atinge por onde menos esperamos”. Nesse ponto, os antigos também foram sábios: a Fortuna, para o bem ou para o mal, preside o destino. Não sem motivo, nos parece, só aos poucos a matemática foi compreendendo melhor o acaso e suas ocultas leis. Mas a presença do acaso não diminui nossa responsabilidade, antes parece aumentá-la se de fato queremos ter competência em gestão, negócios e na nossa vida pessoal e profissional. Sim, a sorte (outro nome do acaso?) de fato existe, mas não podemos adivinhá-la, apenas podemos tê-la ou não tê-la: sendo arisca, contar com ela de uma forma mágica é a rigor uma temeridade, uma inconsequência. Abstraindo a sorte — esse imprevisível e impalpável lance dos deuses a nosso favor —, só nos resta planejar bem e gerenciar os riscos. Para a sorte, só podemos usar o verbo no passado: “Tive sorte!”; “Foi sorte!”. Nunca se poderá dizer: “Terei sorte”! Então, só nos resta, sempre que possível, ampliar nossas alternativas em função de possíveis cenários e, assim, temos que ter um Plano B, um C, um D, conforme o grau de perigo e de acaso que se possa vislumbrar. Para tanto, há que haver prudência — no plano ético — e, claro, imaginação e alguma matemática. Provavelmente, as chances de êxito aumentarão bastante. Paulo Gustavo
Escrito por Paulo Gustavo às 14h36
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SIMPLES, ÚTEIS E BELOS Não acho que os livros impressos precisem de fato de tanta defesa. São defensáveis por si mesmos. Também não acho que os livros digitais precisem de defesa (no momento, essa defesa aparece sob a forma de propaganda, afinal estão sendo feitos investimentos que necessitam dar retorno financeiro). O cenário que temos hoje é bem típico de uma era de transição. Por isso, não é demais lembrar a história da tecnologia e ter em mente que os nossos hoje onipresentes automóveis também tiveram a sua fase de “carruagem sem cavalo”, isto é, situavam-se num quadro de referências que remetiam ao passado mais imediato. Nesse sentido, não serão os livros digitais uma outra coisa que não exatamente livros? Parece-me que sim. Por outro lado, se dependem da tecnologia eletrônica e dela são fruto, só há que saudá-los com entusiasmo pelos recursos que oferecem: praticidade, hyperlinks, indexações mais precisas, etc. Por sua vez, os livros impressos se, por um lado, são “desconectados” ou não dependentes (pelo menos diretamente) da tecnologia eletrônica, por outro continuam a nos oferecer, a seu modo, um espetáculo irretocável, pois, como disse o semiólogo Umberto Eco, “um livro é dessas invenções que não podem ser reinventadas, assim como a roda e a bicicleta”. Enfim, não vejo uma luta entre o impresso e o digital. Vejo que ambos conviverão e se provocarão mutuamente. Características ou tipos atuais de uns e de outros se perderão no caminho, mas o que for simples, útil e belo permanecerá em ambos.
Escrito por Paulo Gustavo às 08h11
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NABUCO E A ANGÚSTIA DO CASAMENTO Casamento é para profissionais, não para amadores. No entanto, salta-se com frequência o aprendizado da vida a dois. Não há estágio para o casamento, que, assim, como diz o povo, transforma-se numa “loteria”. Uma questão de pura sorte. Algo que os tempos modernos transformaram numa relação íntima e que o romantismo selou com a palavra paixão, cuja vulgaridade é uma espécie de contrapeso às racionalidades fabris e febris dos nossos tempos. O amor, como bem observou Hannah Arendt, não condiz com a esfera pública, não obstante a exaltação poética que encontra na literatura e, cá entre nós, brasileiros de hoje, nas novelas de televisão e na música popular. Mas o foro íntimo e a subjetividade eviscerada estão midiaticamente na moda, embora rebaixados a platitudes e lugares-comuns. Como quer que seja, o casamento é um tema mais que artístico e talvez, por sua própria e complexa natureza, “eternamente” crítico. O que Joaquim Nabuco teria a nos dizer sobre o casamento? É na “intimidade” dos seus Diários que vamos encontrar algumas reflexões menos morais que psicológicas do grande pernambucano. E mesmo aí, entre as quatro paredes das páginas, Nabuco, com seu espírito apolíneo, busca uma universalização e uma abrangência ao afirmar que “No casamento, há uma parte de nós mesmos que é enterrada viva em um estado de insensibilidade para agitar-se depois no fundo da terra: é essa parte o sentimento de individualidade, realmente o ‘eu’ livre como o vento”. Na bela metáfora nabuquiana, o eu é o ar que se agita, é o vento que a terra do casamento não consegue sufocar. Fica a lição: a sobrevivência, embora angustiada, da própria individualidade. Seria um truísmo se o casamento não fosse um dever público e se um “nós” social não estivesse em sua própria raiz, “no fundo da terra”... É observando essa “insensibilidade” que o psicólogo Nabuco se volta para o moralista: “Não há dever mais árduo, que exija uma abnegação mais constante, do que o casamento”. O que logo é completado pelo poeta que Nabuco trazia em si: “Ninguém, porém, o aceitaria se ele não nos desse a taça com mel à beira”. Imagem, aliás, ambígua e que antes lembra o conteúdo amargo que o continente tão doce quanto sedutor. Mas eis que o poeta cede a voz ao homem afeito a pensar em termos políticos e sociais: “O casamento deve ser o último ato da educação e vir com a maioridade”. Nesse ponto, como se sabe, Nabuco nos fala com a convicção nascida de sua própria experiência de noivo quarentão, podendo repetir com seu amigo Machado de Assis os versos famosos: “Que se eu tenho nos olhos malferidos/ Pensamentos de vida formulados,/ São pensamentos idos e vividos”. E, numa reflexão que raia pelo bom humor, arremata em certo instante dos Diários: “É um erro dizer-se como tantas vezes se ouve: ‘Eu não caso com o pai, não caso com a mãe, caso com ela’. Casa-se até com os avós”. Paulo Gustavo
Escrito por Paulo Gustavo às 08h20
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Tatuagem na água Jaci Bezerra No Recife me perco e me inauguro pisando acácias e águas machucadas, no bolso o sol ferido, um sol maduro escorre úmido, e acende a madrugada. Uma árvore brota no meu peito impuro acalentando a infância que, abismada, brinca dentro de mim e dói no escuro sempre por um menino acompanhada. Nunca a essa cidade fui perjuro nem nunca a reneguei, talvez por isso ela me planta e aninha entre os seus muros e eu a carrego em mim, arrebatado, apodrecendo nos mangues dos seus vícios e amando como se nunca houvesse amado.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h16
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A SEPARAÇÃO “A vida do homem constitui para ele um problema permanente” e é “rigorosamente falando, um drama”. Essas observações de Ortega y Gasset me ocorrem a propósito do filme iraniano A Separação, recentemente agraciado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Somos todos, sem o desejar ou muitas vezes ter consciência, acossados pelos perigos cuja casualidade nos persegue e cujos abismos nos desamparam a cada instante. O paroxismo do drama, como nos mostra a obra iraniana, não está além ou algures numa suposta aventura, mas aqui, onde a vida e o destino são cotidianamente palpáveis, objetivamente experimentados, feitos com os fios de nossas escolhas e com os fios do próprio acaso. Eis o tapete que nos veio da antiga Pérsia e que, sem perder a cor local, sugere a universalidade de formas e sentimentos. A mim me parece que, ao contrário do que indica o título do filme, não há no roteiro “separações”, mas aproximações, ainda que tais aproximações existam à custa de tensões e de conflitos. E isso por conta de o roteiro não recorrer aos maniqueísmos habituais, quando é fácil apontar culpas e culpados, quando o bem e o mal compõem um duelo medieval e cândido. Não há separação, há uma tapeçaria a ser compreendida como um jogo de perplexidade. Por isso, em face da tensão psicológica, é secundária e discreta a tensão social que opõe a família do protagonista à família dos antagonistas. Uma tensão psicológica que se aproximaria mais de um Kafka do que de um Bergman, não teria a névoa existencialista deste, mas o sonho absurdo daquele. Seria fácil enunciar o enredo de uma obra como A Separação (o que intencionalmente evito) e que de fato é simples e até convencional, sem deixar de ser essencialmente artístico. Mas seu enredo nos ofusca porque multiplica, no quadro mais amplo da separação de um casal, o enfrentamento de várias faces do drama da existência: a doença, a incompreensão, a luta pela sobrevivência, os medos... Assim, o que fecha (e abre ou amplia) o círculo do drama é a reduplicação de conflitos que atravessa a narrativa e a exasperação de quem se encontra numa teia kafkiana a um só tempo delgada e opressora. Enfim, A Separação nos une ao Irã pela universalidade e — passe o lugar-comum — pela magia da arte cinematográfica. Com poucos recursos técnicos, pode se fazer um belo filme; com poucas e corriqueiras palavras, pode se fazer um poema imortal. Como dizem os colunistas, vale a pena conferir!
Escrito por Paulo Gustavo às 08h06
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MASSANGANA, SELO FORTE A Editora Massangana é, sem favor algum, uma das mais bem-sucedidas criações da Fundação Joaquim Nabuco. Ao longo dos seus 32 anos, seus livros refletem o interesse e o objetivo institucional de fazer valer o mérito de estudos relevantes sobre o Norte e o Nordeste brasileiros. Sendo regional, nada tem de bairrista nem de provinciana. Isso porque suas antenas estão ligadas no valor acadêmico e científico, sem deixar de rastrear o que é vigorosamente ensaístico ou paraacadêmico. Não seria, por isso, inexato chamá-la de uma editora transuniversitária. Em três décadas, a Massangana tornou-se um selo forte no mercado e uma irmã respeitada por suas congêneres. Em todos esses anos, o que tem preponderado é a sua capacidade de reter, filtrar e difundir o que culturalmente é bom e útil para a sociedade a que serve, em particular as regiões Norte e Nordeste. Como editora pública e, portanto, paga com os impostos do contribuinte, sua responsabilidade é ainda maior, tendo por obrigação se pautar pela ética, pelo bom senso e pela cidadania. Sendo pública, há de investir no mérito, mesmo quando esse mérito não signifique retorno comercial, pois só o Estado deve e pode suprir certas lacunas do mercado visando ao bem comum. Sendo paga pelo povo, há de ser transparente em sua política editorial. Há de ser racional e eficiente em sua gestão. “Um editor é um confessor”, escreveu Proust em carta a Gaston Gallimard. Eu acrescentaria: um editor (pelo menos, um editor público) não deve ter ego. No mais, com um Conselho Editorial atuante e representativo, toda editora se fortalece como equipe. Sendo “confessor”, um editor tem de saber discretamente ouvir e interagir, tornando-se o transparente amigo e o consultor com quem se pode contar. É com essa crença e esta breve declaração de princípios que estou convencido de que a Massangana tem não apenas história e experiência, mas também futuro e capacidade para se reinventar. Estou certo de que a gestão Fernando Freire na Fundaj tratará a editora com a prioridade que ela merece, fazendo com que siga servindo a estudantes e estudiosos, a pesquisadores e ao público em geral, ampliando uma biblioteca indispensável ao conhecimento do Norte e do Nordeste e do Brasil. Enfim, a Massangana tem história, tem selo, tem um nome que é um outro nome de Joaquim Nabuco.
Escrito por Paulo Gustavo às 08h05
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Eugene Field (1850-1895) [Tradução de Heber Costa]
 “Toma, querida”, diz um soldado, “E teu corajoso adeus me concede; Talvez juntos não nos queira o fado, Mas o amor nunca à morte cede. Que me seja leal tua verdade aqui, ‘inda que a sina não dê certezas, ‘Alma aos céus, meu coração a ti’, Querida, não me esqueças!” A donzela aceitou a flor mimosa E a embalou com seus prantos: Ah! Partiu ele em hora desairosa E não voltou ‘pós anos tantos. Foi-se pr’uma morte d’herói Sob chumbo em correntezas; Mas no peito dela ‘inda sói ‘quela flor, não-me-esqueças. E quando não tornou ele co’a paz Vinda dos muitos anos de sangue, Contra o viúvo seio, ela premiu assaz O pequeno botão ora exangue. Oh, há amor, sossego e agonia, Entre tantas bondades e vilezas, Mas que convivem na harmonia D’uma tenra não-me-esqueças. Um túmulo anônimo e sem ornamento, Eu hoje anseio muito visitar — Se era azul ou cinza seu fardamento, Que nos importa isso perguntar? “Ele amou uma mulher”, basta dizer; E ali, nas sagradas redondezas, Per’imortal amor da dama, estender Longas filas de não-me-esqueças.
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Escrito por Paulo Gustavo às 17h06
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ASSOMBRAÇÕES COM AÇÚCAR Ninguém lerá sem delícia o mais novo livro de Fátima Quintas. Refiro-me a Assombrações e Coisas do Além — a convivência entre vivos e mortos na Civilização do Açúcar, recentemente lançado pela Fundação Gilberto Freyre com o apoio do Sebrae. Com seus dons poéticos e seu saber antropológico — ambos traindo uma inegável empatia pelo tema escolhido —, Fátima retoma e modula não apenas o Gilberto Freyre de Assombrações do Recife Velho, mas, por assim dizer, todo o substrato conceitual presente na visão freyriana do patriarcado rural brasileiro. Não obstante essa pulsação teórica, sem embargo da sua erudição de cientista social, Fátima soube, como epígono (sic) que é de Freyre, fazer um amplo recorte temático, no qual desdobra, explicita, comenta e interpreta um subtema que, por sua arte literária, ganha visibilidade e graça próprias. Ninguém lerá sem delícia — repito — essa contribuição ao estudo do imaginário nordestino e nacional, mesmo, diga-se de passagem, em tempos tão aparentemente infensos a místicas e transcendências, cujo obsessivo racionalismo fere no nascedouro o próprio conceito de sobrenatural. Onde estão — parodiando o poeta — os fantasmas de antanho? Como a neve (ou o açúcar), dissolveram-se. Já não ousam abrir as portas do visível e vir habitar, ou pelo menos passear, entre nós. É como se vivos e mortos, cada um do seu lado, já não soubessem se imaginar: uns e outros atrelados à radicalidade do ser e do não-ser ou ao visgo da esterilidade, não já da dúvida, mas das certezas que impedem a poesia de um convívio. Para Fátima, proustiana pela própria natureza, é quase involuntária a memória de que se faz estudiosa. É no discurso do mundo dito invisível que vai se tornar visível um tempo que insiste em negar os relógios. Uma assombração — seja lembrança ou fato — é a madeleine que vai recuperar os tempos patriarcais que nos precederam, é a porta privilegiada não apenas para o sobrenatural, mas para todo o complexo agrário-patriarcal que, para o bem ou para o mal, moldou a nossa cultura, criando símbolos que perduram na memória coletiva. Dessa forma é que o sobrenatural é elemento estruturante da personalidade brasileira e negá-lo, como diz Fátima, seria como “desacreditar da nossa existência sociocultural”. Sociologias à parte, o que interessa igualmente à autora é o que ela denomina de “beleza mitológica das lembranças da oralidade”. É esse gosto doce e estético da civilização do açúcar que é evocado no livro como mais uma “pérola” — para retomar a conhecida imagem freyriana, sobre o Nordeste patriarcal, da “ostra” doente que gera riqueza e símbolos culturais. É essa “pérola” — tão fascinante quanto provocativa — que Fátima, sem esquecer as próprias assombrações, traz aos nossos olhos com poesia e sabedoria de escolha.
Escrito por Paulo Gustavo às 17h58
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ARTIGOS - OPINIÃO JC O famigerado CVA Marcus Acciolymarcusaccioly@terra.com.br Finalmente a polícia (quem poderia ser senão a força?) às vésperas do Carnaval, desmascarou este é o termo e desbaratou o famigerado Centro de Vigilância Ambiental do Recife (CVA), que transformou o ex-Matadouro (de Bois) dos Peixinhos, em Matadouro de Cães (que alguém ousou chamar de Nascedouro). A competente titular da Delegacia de Meio ambiente (guardem este nome), Nely Queiroz, responsável pelo inquérito, apurou as denúncias de maus-tratos e sacrifícios de animais naquele degradado ambiente e indiciou três elementos digo três maus elementos. Quem são eles, leitor? Diretores do CVA: o contumaz e empedernido assassino de cães Amaro Fábio de Albuquerque Souza e seu sanguinário comparsa: Otoniel Freire de Barros Neto. Os tais foram indiciados por crimes contra a administração ambiental e ainda vão responder, com o veterinário e responsável técnico do CVA José Antônio da Silva Santos pelo crime de maus-tratos contra animais. Imagine o leitor em que faculdade estudou esse monstruoso veterinário que deveria ter, de imediato, carteira e diploma cassados pelo Conselho de Medicina Veterinária para matar cães saudáveis e indefesos, envergonhando a nobre profissão. A investida policial foi chamada, adequadamente, de Sexta-Feira 13, pois tudo não passou da exibição e reprise de um verdadeiro filme de terror. Aliás, a foto publicada no jornal, exibindo cães mortos e empilhados, mereceria, como epíteto macabro, a frase de Joseph Conrad: "O horror! O horror!" As estatísticas são alarmantes: no ano de 2010 foram sacrificados 4.334 animais e, no ano 2011, 2.494. Mesmo assim, os números do CVA ainda são mentirosos, pois se o portal anunciava, entre os meses de julho e dezembro de 2010, 691 casos, as fichas do Centro registraram 962 casos: uma diferença de 271 mortes. O caso do CVA é, realmente, um caso de polícia. Hitler, se se dedicasse aos cães, não faria por menos. Diante desses três serial killers, a abominável Kamilla, que torturou e assassinou a cadelinha yorkshire, chamada Lana, em Goiás, não passa de uma marginal dente de leite. O tal Amaro ainda foi levado à delegacia e autuado em flagrante, mas pagou fiança (ou pagaram por ele) e foi liberado, claro, para brincar o Carnaval. A esperança ou esperânsia (espera + ânsia) é que o Ministério Público de Pernambuco também foi solicitado para apurar as irregularidades criminosas do CVA e a OAB-PE vai dizer da legalidade do órgão, que não tem regulamento. Não é possível que a prefeitura cruze os braços, diante de tal morticínio, ou tente justificar que, no Recife, a morte indiscriminada de animais tem respaldo jurídico e legal. Como o filósofo grego Hegesias que pregava o suicídio, mas ele próprio não praticava, por não ter quem pregasse em seu lugar, morre nos Estados Unidos, aos 83 anos, o médico Jack Kevorkian, conhecido no mundo como Doutor Morte mestre dos "suicídios piedosos". Kevorkian, que se tornou filme com Al Pacino, dirigido Barry Levinson, reabre o questionamento da eutanásia que (do grego euthanasía "morte sem sofrimento") só é cogitada (e nunca deveria ser) no caso de doentes com afecção incurável e dores intoleráveis. Não obstante, o CVA do Recife, embora usando cães como "cobaias", pode ofertar ao mundo seu know-how: a sua competência e experiência e exercício na arte de matar. Leitor, é o homem do Terceiro Mundo ou do Terceiro Milênio que se tornou tão incivilizado! Como ainda podemos ter homens bárbaros e brutos como esses três carrascos de cachorros? Por favor, olhe demoradamente para os olhos de um cão, de qualquer cão (os mortos da foto têm os olhos fechados) e leia aquela frase dita por Kafka escrita ao reverso: "Eis que um dia, no fundo dos olhos do cão, a nossa própria velhice nos olha lacrimejante". Há outra esperânsia, a de quando os três verdugos chegarem e baterem à porta do inferno, sejam recebidos pelo Cão Cérbero que, com as suas três bocas, em vez de abocanhar à Dante Alighieri os três maiores tridores da história Judas, Brutus e Cássio possa segurar nos dentes os três maiores matadores de cães da história: Amaro, Otoniel e José Antônio. Ai de ti, Recife! Ai, dos teus animais, das tuas árvores! Marcus Accioly é poeta
Escrito por Paulo Gustavo às 19h05
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ARTIGOS - OPINIÃO JC O famigerado CVA Marcus Acciolymarcusaccioly@terra.com.br Finalmente a polícia (quem poderia ser senão a força?) às vésperas do Carnaval, desmascarou este é o termo e desbaratou o famigerado Centro de Vigilância Ambiental do Recife (CVA), que transformou o ex-Matadouro (de Bois) dos Peixinhos, em Matadouro de Cães (que alguém ousou chamar de Nascedouro). A competente titular da Delegacia de Meio ambiente (guardem este nome), Nely Queiroz, responsável pelo inquérito, apurou as denúncias de maus-tratos e sacrifícios de animais naquele degradado ambiente e indiciou três elementos digo três maus elementos. Quem são eles, leitor? Diretores do CVA: o contumaz e empedernido assassino de cães Amaro Fábio de Albuquerque Souza e seu sanguinário comparsa: Otoniel Freire de Barros Neto. Os tais foram indiciados por crimes contra a administração ambiental e ainda vão responder, com o veterinário e responsável técnico do CVA José Antônio da Silva Santos pelo crime de maus-tratos contra animais. Imagine o leitor em que faculdade estudou esse monstruoso veterinário que deveria ter, de imediato, carteira e diploma cassados pelo Conselho de Medicina Veterinária para matar cães saudáveis e indefesos, envergonhando a nobre profissão. A investida policial foi chamada, adequadamente, de Sexta-Feira 13, pois tudo não passou da exibição e reprise de um verdadeiro filme de terror. Aliás, a foto publicada no jornal, exibindo cães mortos e empilhados, mereceria, como epíteto macabro, a frase de Joseph Conrad: "O horror! O horror!" As estatísticas são alarmantes: no ano de 2010 foram sacrificados 4.334 animais e, no ano 2011, 2.494. Mesmo assim, os números do CVA ainda são mentirosos, pois se o portal anunciava, entre os meses de julho e dezembro de 2010, 691 casos, as fichas do Centro registraram 962 casos: uma diferença de 271 mortes. O caso do CVA é, realmente, um caso de polícia. Hitler, se se dedicasse aos cães, não faria por menos. Diante desses três serial killers, a abominável Kamilla, que torturou e assassinou a cadelinha yorkshire, chamada Lana, em Goiás, não passa de uma marginal dente de leite. O tal Amaro ainda foi levado à delegacia e autuado em flagrante, mas pagou fiança (ou pagaram por ele) e foi liberado, claro, para brincar o Carnaval. A esperança ou esperânsia (espera + ânsia) é que o Ministério Público de Pernambuco também foi solicitado para apurar as irregularidades criminosas do CVA e a OAB-PE vai dizer da legalidade do órgão, que não tem regulamento. Não é possível que a prefeitura cruze os braços, diante de tal morticínio, ou tente justificar que, no Recife, a morte indiscriminada de animais tem respaldo jurídico e legal. Como o filósofo grego Hegesias que pregava o suicídio, mas ele próprio não praticava, por não ter quem pregasse em seu lugar, morre nos Estados Unidos, aos 83 anos, o médico Jack Kevorkian, conhecido no mundo como Doutor Morte mestre dos "suicídios piedosos". Kevorkian, que se tornou filme com Al Pacino, dirigido Barry Levinson, reabre o questionamento da eutanásia que (do grego euthanasía "morte sem sofrimento") só é cogitada (e nunca deveria ser) no caso de doentes com afecção incurável e dores intoleráveis. Não obstante, o CVA do Recife, embora usando cães como "cobaias", pode ofertar ao mundo seu know-how: a sua competência e experiência e exercício na arte de matar. Leitor, é o homem do Terceiro Mundo ou do Terceiro Milênio que se tornou tão incivilizado! Como ainda podemos ter homens bárbaros e brutos como esses três carrascos de cachorros? Por favor, olhe demoradamente para os olhos de um cão, de qualquer cão (os mortos da foto têm os olhos fechados) e leia aquela frase dita por Kafka escrita ao reverso: "Eis que um dia, no fundo dos olhos do cão, a nossa própria velhice nos olha lacrimejante". Há outra esperânsia, a de quando os três verdugos chegarem e baterem à porta do inferno, sejam recebidos pelo Cão Cérbero que, com as suas três bocas, em vez de abocanhar à Dante Alighieri os três maiores tridores da história Judas, Brutus e Cássio possa segurar nos dentes os três maiores matadores de cães da história: Amaro, Otoniel e José Antônio. Ai de ti, Recife! Ai, dos teus animais, das tuas árvores! Marcus Accioly é poeta
Escrito por Paulo Gustavo às 19h05
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FELINTO Austro-Costa (poeta pernambucano, 1899-1953) O Boêmio sentiu que ia morrer Então, vendo chegar a grande hora de entregar a alma a Deus (o bom Deus dos que amaram e honraram a Boemia, dos que souberam romantizar a paisagem impassível da Vida, humanizando a alma da Noite, enchendo as ruas de canções errantes, — fascinados do Luar, do Vinho e das Mulheres —) não quis tristeza, não quis pranto.
Não ia morrer, ai, não! Ia fazer a última serenata...
Assim falou, no leito de moribundo, Aos que foram ver, assistir-lhe à agonia: seus amigos, seus irmãos de inefáveis, românticas vagabundagens, velhos e amados companheiros de vida alegre, de vida boa cheia de luares e de violões...
E eles choravam. Todos choravam no quarto triste, onde a intrusa com pés de lã já penetrava. Só não chorava o que ia morrer.
(Niágara dos olhos – mortos de vigília – da esposa alanceada! Fontes confusas e pasmadas de infantis olhos – coitadinhos! ...)
E, no silêncio cheio de lágrimas, O Boêmio falou de novo.
Não ia morrer, ai, não! Ia, apenas, fazer a última serenata...
– “Frazão! Romualdo! Manuel de Lima! Pernambuco! toca a tocar! ... Eh! lá, Calheiros! vamos cantar! ... Nada de choro! O choro que eu quero é de violão, pandeiro, flauta, banjo, saxofone e reco-reco (Apôis Fum !...) Vamos, Frazão! Aquele solo maravilhoso que você dedicou a minha filha... Calheiros, você canta uma das suas .... Eu acompanho ao violão...”.
Mas no quarto da Morte tudo era um soluço. Ninguém queria tocar, cantar.
E o Boêmio, triste, pôs-se a chorar.
Pois, seus amigos, seus companheiros tão queridos, seus irmãos de suaves, divinas loucuras não lhe satisfaziam o último desejo?!
– “Rapazes, vocês não parecem os Turunas da Mauricéia! Vamos! Eu quero morrer alegre, morrer ouvindo a alma boêmia da minha terra, a voz, o canto do meu povo na voz, na música de vocês! Quero lembrar tudo o que fui na vida louca, quero evocar tudo o que amei! Não me façam sofrer! Quem morre é um boêmio ... Meu coração só quer cantar ... Meu violão ...”
Então, no quarto triste, onde a Intrusa, impassível, fiava, fiava, violões acordaram na noite serena um luar de agonia, e uma voz trêmula e bárbara, comovida, estrangulando, num canto convulso, a alma de um soluço imenso, redimiu, para sempre, a saudade boêmia da terra maurícia.
O silêncio que veio depois, com mão suave cerrou do Boêmio, para sempre, os olhos doces.
(Não ia morrer, ai, não! Ia fazer, apenas, sua última serenata...) |
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Escrito por Paulo Gustavo às 12h34
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O RECIFE NO CALENDÁRIO Paulo Gustavo “Hoje será ontem. / Amanhã e amanhã / menos seremos”. Esse breve poema de Mauro Mota é uma espécie de calendário em branco gravado na alma. Espelha o trânsito do tempo, chega ao limiar do desfazimento dos seres e das coisas, parece sugerir uma morte que não vem de todo. É o calendário que trazemos em nós e que cada um vive de modo próprio e intransferível. As palavras simples do poeta não nos enganam. E não são amargas, antes flagram a própria correnteza que um dia nos vence. Esse calendário não vai para a parede, onde, malgrado a tecnologia digital, continuamos a expor, como a pintura de um artista, os calendários impressos que recebemos no nascer do ano. E, para tornar mais leve e suportável, a face implacável do tempo, agregamos à abstração dos dias um sinal de beleza: crianças que sorriem, paisagens que nunca visitaremos, flores exuberantes, criações artísticas, os nossos próprios sonhos. Os calendários fecundam — ou pelo menos tentam — os números ainda apenas números, a imaginação perdida nos brancos intervalos do tempo. E o que dizer de um calendário que, nos conduzindo pelas ruas do tempo, faz desfilar, como pranchas de sonho, a cidade de nossas vidas, como se pelo olhar de uma mágica luneta visitássemos o passado em sua imóvel e ambígua claridade? Diante das fotos da cidade já antiga, os mais velhos reencontram a arquitetura que se confunde com sua própria memória, e os mais jovens, curiosos, se debruçam sôfregos como se vissem a própria avó ainda moça flertando com um futuro radioso. Pois este ano o Recife ganhou um calendário assim, capaz de fazer com que a gente reescreva, às avessas, o poema de Mauro Mota: Ontem será hoje. / Ontem e ontem / seremos mais. E essa mágica que engana o tempo e ressuscita um belo Recife, quem a conseguiu, em parceria com a Fundação Joaquim Nabuco, foi Francisco de Assis, da FacForm, cujos premiados calendários artísticos tornam, há quase dez anos, mais leve a feroz rotina do tempo. Nas coleções fotográficas da Fundaj, Francisco e sua equipe acharam o belo Recife que já se foi e nos trouxeram inspiração para o Recife que um dia virá.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h55
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