VERDUNC E O PRAZER DA HISTÓRIA

 

                                                                                                     Paulo Gustavo*

 

           

            No século XIX, como nos assegura Hyden White, em sua conhecida obra Meta-História, a imaginação foi também um recurso para a abordagem histórica. O caso de Michelet é, nesse sentido, exemplar, como se pode depreender de sua concepção de história como ressurreição e do historiador como um guardião dos mortos, alguém que, segundo comenta White, “deve assumir uma posição pró ou contra as forças em ação nos diferentes atos do drama histórico.” Mas, já na  antigüidade, como se sabe, Aristóteles, com o bom senso dos lógicos,  tratara em sua Poética das relações entre ficção(poesia) e história, afirmando que o poeta escreve o que poderia ter acontecido e o historiador o que realmente aconteceu, sem suspeitar talvez do papel mais profundo que a imaginação desempenha junto à própria realidade.

            O que se convencionou chamar de romance histórico, a exemplo dos de Hugo, Alencar, Walter Scott e Herculano, é fruto do movimento romântico e parece se circunscrever ao já citado século XIX. Parece mas, de fato, alcança o século XX, adquirindo novas características e resultando em obras que, recorrendo à história, só enriquecem ainda mais a própria história de um gênero. O romantismo — entendem alguns autores — ainda não morreu e continua se desdobrando em criações artísticas que trazem a sua marca inconfundível.

            Premiado pelo Conselho Municipal de Cultura do Recife, em 1996, em concurso de caráter nacional, Verdunc, de autoria do pernambucano Jodeval Duarte, traz o rótulo (até certo ponto inevitável) de romance histórico. E de fato não deixa de sê-lo, mas não obviamente como no século XIX, muito embora sua narração esteja vazada num modo realista que o aproxima de uma forma de escrever tradicional. Com efeito, em Verdunc, a ausência de qualquer experimentalismo termina sendo, por uma elegante ironia, um dos encantos do livro, sobretudo se considerarmos que se tornaram insuportáveis pseudo-criadores que nada mais são que sub-Joyces, sub-Prousts, sub-Kafkas e assim por diante. Mas, a linguagem da obra é a de uma escritura atual, devendo-se destacar sua precisão e sobriedade, como que expurgada, ao modo de Graciliano Ramos, de toda tentação discursiva. Dessa forma, o contraponto de uma linguagem ágil e contemporânea com uma perspectiva histórica garante um belo efeito literário.

            Explorando o tema da traição a partir de um episódio da invasão holandesa em Pernambuco (Verdunc é o nome de um espião holandês que favorece portugueses e nativos), o romance se consolida menos pelo  tema — de resto, tão literário quanto histórico — do que pela forma de tratá-lo. Assim, em nenhum momento, qualquer didatismo, juízo de valor ou facilidade sentimental se sobrepõem à agilidade da narração e à própria forma romanesca. O prazer apolíneo da pura narratividade seduz o leitor, criando uma cumplicidade sem a qual a literatura nunca sobreviverá.

           

            Aos mais exigentes, cumpre dizer que Verdunc, por sua extensão e sua trama compacta, seria antes uma novela do que um verdadeiro romance. Como quer que seja, é ficção que faz jus ao prêmio de ser lida pelos melhores leitores. Com uma reduzida fabulação e uma narração em terceira pessoa, pode-se afirmar que a impessoalidade do foco narrativo se concentra no essencial, primando por um estilo que privilegia o visual e que deve,  talvez,  à influência do cinema grande parte de seu encanto.

            Se, em Pernambuco, a ensaística historiográfica, já nos dera, a propósito das invasões holandesas, o clássico Tempo dos Flamengos, de José Antônio Gonsalves de Mello, a ficção agora nos brinda com um livro singelo e cativante. Verdunc, com sua paisagem humana e natural de nossas origens como nação, descrevendo, com cenas verossímeis, o inferno tropical de um tempo que ressuscita (como tanto queria Michelet), nos lembra o pensamento bergsoniano segundo o qual o bom escritor nos deve fazer esquecer que utiliza as palavras: o que, se por um lado, é polêmico; por outro, faz justiça ao prazer primariamente humano de ouvir uma boa e bem contada história.

 

 

                                                            *Paulo Gustavo

                                                            Escritor, integrou a comissão julgadora que, por                                                                         unanimidade,  premiou a obra comentada neste artigo.

                                                          

 

                                                           



 Escrito por Paulo Gustavo às 18h20 [   ] [ envie esta mensagem ]




MINHA FÉ

Após trinta anos de sua primeira edição, em 1984, pela Editora Massangana, ressurge, pela mesma editora da Fundação Joaquim Nabuco, numa segunda e bela edição, uma quase obscura obra de Joaquim Nabuco. “Obscura” em termos de publicidade, porque nada vindo do gênio de Nabuco pode ser tido na conta de obscuro. Digamos que “Minha Fé”, originalmente escrita em francês, é obra que, por seu cunho reflexivo, longe daquele “estéril turbilhão da rua” de que fala Bilac, nos mostra uma face menos conhecida do escritor e estadista brasileiro. Não mais o reformador social, como o viu Gilberto Freyre. Não mais o historiador, o diplomata ou o popular abolicionista. É outro e igualmente grande o Nabuco que se desvela nas páginas desse livro magistral.

Em “Minha Fé”, é um Nabuco autobiográfico e introspectivo o que dialoga com sua própria vida e com as fontes do Sagrado e da Fé cristã. Com um estilo tão límpido quanto poético, interroga e passa em revista o patrimônio moral da humanidade salvo em grande parte pelo Cristianismo. E vai além, descendo a profundezas teologais, ao perceber como a religião por si mesma é uma permanência incontornável no destino humano: “Cada vez que a ciência julgou decompor um mito ou interpretar um símbolo, encontrou sob ele algo de imortal. Não foi o homem quem inventou a religião: a religião, como a linguagem, precede na estrutura o pensamento que a utiliza”. Eis por que, como assinala Ângelo Monteiro em lúcido prefácio à obra, “A compreensão de Deus em Joaquim Nabuco constitui a chave de toda a compreensão possível da realidade”.

Afastado, na juventude, da Fé católica, influenciado que foi pelo ceticismo das ideias oitocentistas, Nabuco envereda na maturidade pelo caminho da conversão. Encanta-o, nesse reencontro, as seduções estéticas da liturgia católica, mas, como pensador, não se isenta de se bater com a ciência e de arrostar o nascente evolucionismo. Não fica, porém, preso a uma angustiada busca de Absoluto. A serenidade de sua crença entrega-o de corpo e alma ao mistério. Nem por isso vê incompatibilidade entre a Fé e a Ciência: se existe, é apenas como um chocar-se de ondas na superfície de um mesmo mar profundo; os conflitos, dirá ele, são necessários à purificação e à afirmação de ambas.

“Minha Fé” é obra que desafia sínteses. É um clássico no seu gênero. Sua densidade metafísica não obscurece em qualquer momento a beleza e a claridade com que Nabuco forjou toda a sua obra. Obra lançada ao futuro para que nós, como pernambucanos e brasileiros, tenhamos a permanente satisfação de apontar sua grandeza e honrar o seu legado.

Paulo Gustavo é escritor e servidor da Fundação Joaquim Nabuco



 Escrito por Paulo Gustavo às 11h08 [   ] [ envie esta mensagem ]




ÁLBUM DE FIGURINHAS

Que criança nunca se fascinou com os álbuns de figurinhas? Os temas podiam variar – futebol, filmes, lutadores –, o que não variava era o encanto, a curiosidade, a deliciosa esperança de completar o álbum e a não menor felicidade de trocar figurinhas para compensar a impertinência de um azarado destino. Um álbum de figurinhas, claro está, era um projeto, uma obra em progresso para o bem da memória, pois decerto havia uma memória a ser preservada, uma recordação futura a ser gratamente sacada do passado, como uma floração salva da chamada fúria dos elementos, ou da sanha destruidora do tempo.

Meninos, vibrávamos, como se acompanhássemos um pitoresco folhetim, com as figurinhas que vinham em ondas como o mar. Os álbuns nos ensinavam a lidar com a psicologia prática da vida: com anseios e ansiedades, frustrações e invejas, satisfações e autocontrole. Foram eles, de alguma forma, os mestres extracurriculares da nossa infância quase que somente gutemberguiana, com pouca TV e nenhum computador. E nada mais comum que um álbum incompleto para sempre, testemunha silenciosa de nossos êxitos e fracassos, coisa imperfeita, mas embebida de nosso afeto e de tudo o que podíamos ter feito de melhor.

Esse prólogo acima é pra registrar um símbolo ou um sinal de que as coisas não vão muito bem no país do futebol. Em recente protesto contra a Copa do Mundo (ou a favor de outras prioridades para o Brasil!), manifestantes na capital paulista queimaram os álbuns de figurinhas do grande evento. Por um lado, melhor assim: antes queimar álbuns do que queimar pessoas e transeuntes. Por outro lado, que gesto forte e amargo, que trago difícil de descer pela goela abaixo, embora necessário e eficaz para a desconstrução de uma supérflua fantasia. Figurinhas em cinzas: o recado não poderia ser melhor para todos os figurões.

Não sei como as crianças (que felizmente não deixaram de amar os álbuns) terão compreendido a cena desse protesto. Mas é fácil imaginar que para os adultos a desfiguração é algo forte, que bem mostra as contradições brasileiras. Não são evidentemente os amados ídolos do futebol que estão em chamas. Longe disso. O fogo desses álbuns em combustão não apenas queima ou destrói simbolicamente os nossos equívocos nacionais, mas vem aquecer outros sonhos que o País insiste em ignorar. Não é mais tempo de trocar figurinhas, talvez seja tempo de trocar de figurões, como diria um amante de trocadilhos.

Paulo Gustavo

 

 



 Escrito por Paulo Gustavo às 08h58 [   ] [ envie esta mensagem ]




DOIS ARTIGOS!

O brasileiro ama o capítulo dos direitos e tem um irado horror ao capítulo dos deveres. É capítulo, este último, que ele acha enfadonho e que, lá encontrando penas e sanções, salta bruscamente, sem ao menos temer a mais terrível das quedas: o cair em si mesmo. Daí, como quem se safa do maior dos perigos, torcer o nariz (já que não pode torcer a lei) a tudo o que venha a colocá-lo nos devidos limites. No nosso imaginário, a lei continua sendo uma abstração e, ai de nós, um inevitável incômodo.

Do trânsito aos condomínios, das práticas corriqueiras do dia a dia ao mundo do trabalho, nas instituições públicas ou privadas, o nosso comportamento ainda não tem aquela racionalização que Max Weber percebeu na sociedade moderna ocidental. Talvez porque o brasileiro não seja mesmo ocidental, seja outra coisa que os sociólogos e antropólogos ainda vão melhor categorizar. Que nos valham os doutos nesta hora difícil, quando o pão e o queijo entram em litígio no seio do sanduíche.

Por falar em litígio, consta que o Brasil é um dos campeões mundiais nessa inflamada área. Toda a nossa cordialidade (não mais que um frágil esmalte de origem latina) parece às vezes virar pelo avesso. Briga-se por tudo, inclusive pelo que Freud chamou de “o narcisismo das pequenas diferenças”. Briga-se porque só é lido e decorado o saboroso capítulo dos direitos, sempre lembrado em prol do “egoísmo individual”, essa “ferrugem das sociedades” como já apontara Tocqueville.

Diferentemente do que pretendia o poeta Mallarmé, para quem tudo terminaria em livro, no Brasil tudo termina em processo. Nossos juízes vivem sobrecarregados, e há bagatelas que sobem a tribunais em franco desafio a qualquer razoabilidade. Como se tal não bastasse, há, nos dias atuais, como já notou um observador atento, um fervor legiferante e um furor microrregulatório, como se a proliferação de normas fosse garantir a paz e o êxito universais. Multiplicar as leis é, muitas vezes, “jogar para a plateia” e “passar a manteiga no focinho do gato”. Vale, a propósito, recordar o dito espirituoso do velho historiador  Capistrano de Abreu. Segundo ele, a Constituição deveria ter apenas dois artigos: “Art. 1º: Todo brasileiro é obrigado a ter vergonha na cara; Art. 2º: Revogam-se as disposições em contrário”.

 

 



 Escrito por Paulo Gustavo às 15h03 [   ] [ envie esta mensagem ]




AUSTRO-COSTA NO POÇO DA PANELA

 

 

Travessa dos Arcos (era assim que se chamava a atual Rua Paulo Inojosa) n° 38, Poço da Panela. Foi ali, numa modesta e acolhedora casa, na rua ainda descalça, que morou Austro-Costa, o poeta romântico e satírico que nas primeiras décadas do século 20 havia se tornado um ícone da vida boêmia e elegante do Recife. Basta consultar os jornais e as revistas de então para se entender o espírito inquieto do homem singular que se revezava em lírico, excêntrico, epigramista, repórter e cronista social. Entre o amor romântico e a crítica bem-humorada dos costumes, seus versos conquistavam leitores e suspiros femininos. Era o poeta de Mulheres e Rosas — título do seu primeiro livro — e como poucos foi amado e admirado pela sociedade do seu tempo.

 

Na Travessa dos Arcos, quando o Poço ainda era um distante arrabalde (era esta a palavra da época!), Austro passou apenas os cinco anos de casamento com Helena Lins. Ali, longe do centro da cidade, onde vivera em pensões da Rua Nova, estava perto de alguns amigos queridos: José Carlos Cavalcanti Borges, Jorge Abrantes, Mauro Mota, Andrade Bezerra, Luiz do Nascimento. Ali festejava a vida e cuidava de outras paixões: bichos — papagaio, cachorros e gatos — e  árvores.

 

Pioneiro do Modernismo em Pernambuco, quando adotou os versos livres e os temas do cotidiano, Austro-Costa nunca, a rigor, deixou de ser um exímio sonetista e um cultor de formas fixas. Alguns dos seus sonetos conquistaram não só o público, mas a crítica literária e os companheiros de arte, a exemplo de Último Porto e Salomé Toda de Verde. Outra de suas obras-primas é o poema Capibaribe, Meu Rio, no qual compara sua vida à do próprio rio, chamando-o de “meu irmão de sonho e amor”, e que tem momentos como este, de elevada beleza lírica: “Capibaribe, meu rio/Que vida levamos nós!/Tu corres: eu rodopio/E há quarenta anos a fio/Sempre juntos e tão sós! [...] Que destino inglório e insano!/Capibaribe, Que horror!/Tu corrias para o oceano,/Eu corria para o Amor!”

 

 

Austro-Costa morreu, num desastre de ônibus no centro do Recife, em 1953, aos 54 anos. Morreu “por delicadeza”, como alguém já disse, pois havia cedido seu lugar a uma mulher. Deixava uma vaga na Academia Pernambucana de Letras e muita saudade entre os que com ele conviveram, pois, como escreveu Mauro Mota, quando Austro chegava “era como se chegassem muitos homens felizes”. 



 Escrito por Paulo Gustavo às 19h39 [   ] [ envie esta mensagem ]




CHAQUE VISAGE

                                   Paulo Gustavo

                                   Tradução: Didier Lamaison*

 

Chaque visage est le sceau d’un monde étrange

Une carte insoluble

                               où la Terre nous appartient!

Chaque rire, chaque plaisir

Ont laissé des oriflammes encore frémisantes

Chaque larme

A use le parchemim originel, y brodant des lunes navrées et des blêmes                                                                                                                                             horizons.

 

 

Chaque visage est une horloge

                                                           aux chiffres magiques

Aux fleurs en attente de leur parfum ou de leur rien.

 

 

Chaque visage est notre possible visage

— Et ce qui s’y cache est un appel

Come vague apelle autre vague

Dans la mer à l’écoute attentive de ses propres pas!

 

 

*Escritor e tradutor francês. Traduziu Carlos Drummond de Andrade para as Éditions Gallimard, em 1990.

 

 



 Escrito por Paulo Gustavo às 19h35 [   ] [ envie esta mensagem ]




NABUCO E A ANGÚSTIA DO CASAMENTO

 Casamento é para profissionais, não para amadores. No entanto, salta-se com frequência o aprendizado da vida a dois. Não há estágio para o casamento, que, assim, como diz o povo, transforma-se numa “loteria”. Uma questão de pura sorte. Algo que os tempos modernos transformaram numa relação íntima e que o romantismo selou com a palavra paixão, cuja vulgaridade é uma espécie de contrapeso às racionalidades fabris e febris dos nossos tempos. O amor, como bem observou Hannah Arendt, não condiz com a esfera pública, não obstante a exaltação poética que encontra na literatura e, cá entre nós, brasileiros de hoje, nas novelas de televisão e na música popular. Mas o foro íntimo e a subjetividade eviscerada estão midiaticamente na moda, embora rebaixados a platitudes e lugares-comuns. Como quer que seja, o casamento é um tema mais que artístico e talvez, por sua própria e complexa natureza, “eternamente” crítico.

 

O que Joaquim Nabuco teria a nos dizer sobre o casamento? É na “intimidade” dos seus Diários que vamos encontrar algumas reflexões menos morais que psicológicas do grande pernambucano. E mesmo aí, entre as quatro paredes das páginas, Nabuco, com seu espírito apolíneo, busca uma universalização e uma abrangência ao afirmar que “No casamento, há uma parte de nós mesmos que é enterrada viva em um estado de insensibilidade para agitar-se depois no fundo da terra: é essa parte o sentimento de individualidade, realmente o ‘eu’ livre como o vento”. Na bela metáfora nabuquiana, o eu é o ar que se agita, é o vento que a terra do casamento não consegue sufocar. Fica a lição: a sobrevivência, embora angustiada, da própria individualidade. Seria um truísmo se o casamento não fosse um dever público e se um “nós” social não estivesse em sua própria raiz, “no fundo da terra”...

 

É observando essa “insensibilidade” que o psicólogo Nabuco se volta para o moralista: “Não há dever mais árduo, que exija uma abnegação mais constante, do que o casamento”. O que logo é completado pelo poeta que Nabuco trazia em si: “Ninguém, porém, o aceitaria se ele não nos desse a taça com mel à beira”. Imagem, aliás, ambígua e que antes lembra o conteúdo amargo que o continente tão doce quanto sedutor. Mas eis que o poeta cede a voz ao homem afeito a pensar em termos políticos e sociais: “O casamento deve ser o último ato da educação e vir com a maioridade”. Nesse ponto, como se sabe, Nabuco nos fala com a convicção nascida de sua própria experiência de noivo quarentão, podendo repetir com seu amigo Machado de Assis os versos famosos: “Que se eu tenho nos olhos malferidos/ Pensamentos de vida formulados,/ São pensamentos idos e vividos”. E, numa reflexão que raia pelo bom humor, arremata em certo instante dos Diários: “É um erro dizer-se como tantas vezes se ouve: ‘Eu não caso com o pai, não caso com a mãe, caso com ela’. Casa-se até com os avós”.

 

 



 Escrito por Paulo Gustavo às 20h00 [   ] [ envie esta mensagem ]




NABUCO E A ANGÚSTIA DO CASAMENTO

 Casamento é para profissionais, não para amadores. No entanto, salta-se com frequência o aprendizado da vida a dois. Não há estágio para o casamento, que, assim, como diz o povo, transforma-se numa “loteria”. Uma questão de pura sorte. Algo que os tempos modernos transformaram numa relação íntima e que o romantismo selou com a palavra paixão, cuja vulgaridade é uma espécie de contrapeso às racionalidades fabris e febris dos nossos tempos. O amor, como bem observou Hannah Arendt, não condiz com a esfera pública, não obstante a exaltação poética que encontra na literatura e, cá entre nós, brasileiros de hoje, nas novelas de televisão e na música popular. Mas o foro íntimo e a subjetividade eviscerada estão midiaticamente na moda, embora rebaixados a platitudes e lugares-comuns. Como quer que seja, o casamento é um tema mais que artístico e talvez, por sua própria e complexa natureza, “eternamente” crítico.

 

O que Joaquim Nabuco teria a nos dizer sobre o casamento? É na “intimidade” dos seus Diários que vamos encontrar algumas reflexões menos morais que psicológicas do grande pernambucano. E mesmo aí, entre as quatro paredes das páginas, Nabuco, com seu espírito apolíneo, busca uma universalização e uma abrangência ao afirmar que “No casamento, há uma parte de nós mesmos que é enterrada viva em um estado de insensibilidade para agitar-se depois no fundo da terra: é essa parte o sentimento de individualidade, realmente o ‘eu’ livre como o vento”. Na bela metáfora nabuquiana, o eu é o ar que se agita, é o vento que a terra do casamento não consegue sufocar. Fica a lição: a sobrevivência, embora angustiada, da própria individualidade. Seria um truísmo se o casamento não fosse um dever público e se um “nós” social não estivesse em sua própria raiz, “no fundo da terra”...

 

É observando essa “insensibilidade” que o psicólogo Nabuco se volta para o moralista: “Não há dever mais árduo, que exija uma abnegação mais constante, do que o casamento”. O que logo é completado pelo poeta que Nabuco trazia em si: “Ninguém, porém, o aceitaria se ele não nos desse a taça com mel à beira”. Imagem, aliás, ambígua e que antes lembra o conteúdo amargo que o continente tão doce quanto sedutor. Mas eis que o poeta cede a voz ao homem afeito a pensar em termos políticos e sociais: “O casamento deve ser o último ato da educação e vir com a maioridade”. Nesse ponto, como se sabe, Nabuco nos fala com a convicção nascida de sua própria experiência de noivo quarentão, podendo repetir com seu amigo Machado de Assis os versos famosos: “Que se eu tenho nos olhos malferidos/ Pensamentos de vida formulados,/ São pensamentos idos e vividos”. E, numa reflexão que raia pelo bom humor, arremata em certo instante dos Diários: “É um erro dizer-se como tantas vezes se ouve: ‘Eu não caso com o pai, não caso com a mãe, caso com ela’. Casa-se até com os avós”.

 

 



 Escrito por Paulo Gustavo às 20h00 [   ] [ envie esta mensagem ]




EUFORIA DIGITAL

O universo digital — repete-se à farta — é maravilhoso e marca o início de uma nova era nas comunicações. Verdade. Mas é um universo extremamente dependente, justamente por apoiar-se em máquinas e energia sem as quais não vive. Seu poder e encanto nos levam a esquecer que máquinas dão pane e que a memória que desejamos eterna vive hoje ameaçada pela confiança eufórica e neólatra em tecnologias que ainda não passaram pelo teste do tempo.

Especialistas atentos vêm alertando para isto: a perda da memória. Imagens e textos viriam sofrendo, de par com o registro digital, apagamentos irreparáveis. A guerra ao papel já estaria fazendo grandes estragos. Um exemplo doméstico: à nossa infinidade de fotos vem se contrapondo a falta de impressão e de organização. Longe disso, nossas fotos, como velas indefesas, mal suportam o sopro de um apagão em nossas máquinas, correm o risco de ficarem perdidas para sempre.

O mesmo acontece com o mundo dos livros, jornais e demais impressos. Sem falar nas criações gráfico-textuais que nascem e morrem ou morrerão digitais, para as quais também não há qualquer garantia de memória. E memória é tudo. Sem ela, não há, para dizer o mínimo, vida civilizada, mesmo quando devemos esquecer para lembrar e quando se sabe que toda história é um escolhido filtro. Basta olharmos para alguém com o mal de Alzheimer para percebermos o papel essencial e determinante da memória e a necessidade organizacional das nossas “ilusões” humanas.

 

Especialistas ilustres (a exemplo de um Robert Darnton), gente que nada tem de saudosista, testemunham, inquietos e temerosos, uma euforia digital que vem prejudicando a documentação. Gente que se contrapõe àqueles que falam apenas de “conteúdo”, conteudistas que se esquecem de que estão simplificando em demasia as criações da cultura humana. A estes, não ocorre que essa guerra ao papel é inimiga da História e de que toda forma já é por si própria interpretação, mensagem e relevância. Enfim, nossa euforia digital não deve nos cegar para o mundo real, pois este não é arcaico ou simplesmente ultrapassado, mas palpável e muitas vezes insubstituível como fonte de cultura e de trabalho. A longa história da própria tecnologia nos recomenda cautela. Teclemos “enter” para oportunamente voltar à realidade... e salvá-la de fato. A memória agradece.



 Escrito por Paulo Gustavo às 13h00 [   ] [ envie esta mensagem ]




PROUST: RÉQUIEM E PROFECIA

Uma nota na primeira página do jornal “Le Figaro”, em sua edição de 19 de novembro de 1922, um domingo, anunciava: “O senhor Marcel Proust morreu ontem às seis horas da tarde com a idade de 51 anos [...] É uma perda imensa para as letras”. Após falar numa saúde que justificadamente inspirava cuidados, a nota prosseguia mencionando que o autor recebera o “Prêmio Goncourt”, em 1919, pelo romance “À sombra das raparigas em flor” e que, apesar de ser admirado por muitos letrados, ainda não atingira o grande público.

Hoje, considerado por muitos, ao redor do mundo, como o maior romancista do século 20, Proust atingiu, sim, o grande público: é estudado e traduzido em todos os continentes, e sua obra “Em busca do tempo perdido” tornou-se um marco da literatura ocidental. Por todas as suas virtudes – e até por seus possíveis defeitos –, o monumental romance proustiano é um trabalho ímpar na história literária, tanto em termos quantitativos quanto qualitativos. Inspirado na própria vida do autor, o livro, originalmente previsto para ser uma trilogia, transbordou para outros quatro volumes. Aqui cabe assinalar que não passa de lenda dizer-se que Proust não concluiu seu livro. O que ocorreu é que a morte o surpreendeu quando revisava a segunda metade da obra. O fim, conforme planejara, já estava concluído desde o começo!

No Brasil, que ainda vivia sob a influência da prestigiosa literatura francesa, “Em busca do tempo perdido” só veio a ser parcialmente lido em 1920 e logo foi conquistando, na própria versão original, os novos escritores. A primeira tradução só viria em 1948. Daqueles anos já distantes, podem ser mencionados alguns desses primeiros admiradores: Jorge de Lima, Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Tristão de Athayde, Sérgio Buarque de Holanda. Posteriormente, em 1951, Álvaro Lins, escreveria “A técnica do romance em Marcel Proust”, o primeiro trabalho crítico de fôlego sobre o autor em terras brasileiras.

Em Pernambuco, além do já citado Freyre (cuja investigação do passado brasileiro, como se antecipou em perceber o crítico Roberto Alvim Corrêa, é uma busca proustiana), dois nomes são incontornáveis no amor e na devoção à obra do genial francês: Gláucio Veiga, que nos deixou o ensaio “Do conceito de realidade em Proust”, e Evaldo Coutinho, a quem devemos uma primorosa obra filosófica – “A Ordem Fisionômica” –, na qual, conforme já tivemos oportunidade de apontar, são visíveis os laços e enlaces que a atrelam a “Em busca do tempo perdido”.

A nota fúnebre do “Le Figaro” também dizia que, de par com o tom inovador que trouxera ao romance, Proust estava vinculado às “altas tradições” da literatura francesa. Meia-verdade. Nosso autor igualmente se vinculara ao universal e aos clássicos greco-romanos. E o tempo se encarregaria de mostrar que erguera sua obra entre dois mundos, pois “Em busca do tempo perdido” é simultaneamente um réquiem e uma profecia. Pela primeira vez condensava-se, num só livro, esta angústia tão moderna: a relatividade do tempo, com uma psicologia e uma estética tão próprias quanto avassaladoras.

 

 

Paulo Gustavo



 Escrito por Paulo Gustavo às 12h11 [   ] [ envie esta mensagem ]




NO HOSPITAL

Perguntam-me quem sou no hospital.

E penso que sou o corredor

                                Ferido de vida pelo sol.

Não sei.

Sei que sou o inimigo da Dor.

O derrotado inimigo

Que escuta as sombras ao fim do dia.

Não sou o advogado que imaginaram.

Sou talvez o primeiro juiz,

O que me condena

 

A amar a prisão do tempo...



 Escrito por Paulo Gustavo às 09h24 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

CONVERSA NÃO SE JOGA FORA!

 

O historiador Theodore Zeldin, um dos maiores pensadores da atualidade, já nos mostrou como a boa conversa se transformou num aspecto central de nosso trabalho, observando que “Cada vez mais, trabalhar consiste em falar”, sobretudo quando se sobe na hierarquia. Naturalmente, não se trata de qualquer conversa, sobretudo daquele tipo que enseja o comentário de que se “está jogando conversa fora”. Essa expressão popular, aliás, tem, pelo avesso, inteiro cabimento: conversa não deve mesmo ser jogada fora. Pessoalmente, acredito que toda conversa deve ser “jogada dentro”, isto é, integrar-se às idéias e contribuir para o avanço do trabalho e do desenvolvimento profissional.

 

Precipitam-se aqueles que acham que conversa é perda de tempo, como se uma boa conversa não fosse indispensável para arejar um cotidiano de rotina e de pressões. Zeldin tem toda razão: a conversa hoje no trabalho é praticamente “obrigatória” e central. Eis por que não basta apenas “ter idéias”, é preciso trocá-las, expô-las a confrontos, fazendo da conversa um campo de simulação virtual para a resolução dos problemas. Além disso, com a crescente importância do trabalho em equipe e da formação de times de alto desempenho, não há dúvida de que cada vez mais e mais precisamos saber conversar.

 

Tem razão a sabedoria popular quando diz que é “conversando que a gente se entende”. Isso é, sem dúvida, uma versão parcial e simplificada do que os antigos gregos já praticavam e percebiam em sua gloriosa civilização: é o discurso que possibilita a vida social e a amizade. Sem esse discurso, como bem analisou Hannah Arendt, é como se socialmente não existíssemos. É sobre ele que se radica tudo o mais. Como seria diferente no mundo do trabalho? Como seria diferente numa era que se ufana de ser conhecida como “do Conhecimento” e “da Comunicação”? É, portanto, conversando que a gente atende o cliente, que negociamos uma proposta ou um projeto, que fundamentamos nossas escolhas. Os melhores líderes são os que conversam e, conversando, têm disponibilidade para ouvir e acolher o que de melhor se jogou no jogo da conversa. É conversando que a gente se interessa pelas pessoas e por sua diversidade, mesmo que aqui e ali sejamos eventualmente tomados pela repetição de idéias, temas e comportamentos. Por outro lado, é de conversas muitas vezes inesperadas e casuais que podem jorrar, de forma criativa, o ouro de alguns insights e o amálgama de que precisamos para consolidar bons negócios e boas parcerias.

 

Com o predomínio global da democracia e o uso indispensável das novas Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs), os profissionais já não se contentam com um papel passivo, evitando a acomodação que pode indiferenciá-los no competitivo meio empresarial. Pelo contrário, os mais bem-sucedidos são aqueles que fazem de uma boa conversa um caminho para “fazer a diferença” e enriquecer sua própria técnica e seus relacionamentos. É pelo maravilhoso “atalho” da conversa que muitos profissionais chegam ao centro do que interessa: às idéias, às decisões, aos resultados de excelência e ao pleno exercício de suas potencialidades. Afinal, eles só jogam conversa dentro, tão atentos a si mesmos quanto a seus interlocutores.

 

 

Paulo Gustavo,

escritor e sócio da Consultexto, empresa integrante da Rede Gestão

 

 

 



 Escrito por Paulo Gustavo às 18h47 [   ] [ envie esta mensagem ]




PATRIMÔNIO EM RISCO

No Brasil é assim: os patrimônios, mesmo sabidamente patrimônios, correm um eterno risco. E o perigo não vem exatamente do fogo, da água ou de irados deuses ou demônios, vem dos homens, das pessoas, de todos os que negligenciam e não reconhecem os valores que devem permanecer imunes à fúria do tempo. Mas um cochilo aqui, outro ali, e lá se põem muitos a colaborar com Cronos em sua sanha destruidora. Em vão, brilham documentos e firmas reconhecidas nos cartórios em flor. Por isso, a alguns quixotes resta somente continuar pedindo socorro. Viver, também para esses patrimônios, é muito perigoso, como diria Guimarães Rosa. Não bastam gritos de socorro, é preciso a ação solidária que dobre os perigos e os elimine.

Quem duvida que a Fundação Gilberto Freyre é um desses belos e sagrados patrimônios de Pernambuco e do Brasil? No entanto, ao que indica matéria publicada no dia 11 de outubro por este JC, a casa-museu legada por Freyre, salvo engano, já está em risco. Eis que nela vai se apagando o vigor de que deveria estar impregnada. Escusado dizer que em qualquer lugar minimamente civilizado ela seria uma catedral a ser incensada. Não fosse quem é o “santo” de sua invocação, bastariam seus livros, suas obras de arte, seu local aprazível para ser um ponto incontornável do turismo e da cultura. Mas nessa catedral histórica é o “santo” que faz as paredes falarem e as “relíquias” intimidarem os pecadores. O “santo” da invocação está vivo nos livros que escreveu e, claro está, não se limita à modéstia pitoresca do bairro de Apipucos.

 

Freyre não corre risco. Cronos se acovarda diante de sua obra magnífica. Freyre continua escrevendo e pensando para os brasileiros de hoje e de amanhã. Para um grande escritor, nada melhor que um dia atrás do outro. O risco, o perigo e a deterioração rondam sua Casa, uma extensão de si próprio que precisa de segurança, cuidados, parcerias e investimentos. Está certo o já citado admirador de Freyre, Guimarães Rosa, ao escrever que é “o pão que faz o cada dia”. Tudo leva a crer que a Fundação Gilberto Freyre precisa urgentemente de pão para fazer seus dias serem de fato dias de vida e de respeito à memória do genial pernambucano. Uma coisa é certa: uma catedral em ruínas é uma sentença contra o futuro, um saque contra a esperança. Em ruínas, solitária, ela própria é um grito de socorro e de acusação. 



 Escrito por Paulo Gustavo às 08h48 [   ] [ envie esta mensagem ]




Todos estão vivos

                                                   A Nelson Pereira da Silva, in memoriam

Todos estão vivos,   

 Só eu estou morto.

Morto, morto, morto,

Deserto de amigos

Na sombra do longe,

Sem nada que aponte

As terras da vida.

Deserto de tudo,

De voz e de carne.

Por isso reluto

No seio da ausência.

Por isso, assertivo,

Lanço meus chamados,

E a noite dos vivos

Me cobre das ondas

De um mar apagado.

Envolto em tal frio,

Qual será a febre

Da minha lembrança?

A febre dos vivos,

O suor dos corpos,

O amor já perdido,

Todos esses portos,

Por onde, tão triste,

Doeu-me nos olhos

A visão dos homens.

Todos estão vivos,

Só eu morri ontem!

 

          Paulo Gustavo / Recife, 12/04/2013



 Escrito por Paulo Gustavo às 19h32 [   ] [ envie esta mensagem ]




AGOSTO DE NABUCO

Perambulei pelo Google, batendo à porta de vários sítios, mas só fiz me decepcionar ao ver apenas escassas referências à, digamos, outra data magna de Pernambuco: 19 de agosto, Dia da Cultura Pernambucana. Data, como se sabe, alusiva ao nascimento de Joaquim Nabuco e, portanto, para qualquer pernambucano que se preze, data que transcende quaisquer azares ou ventanias de agosto. Data magna e data magma, tão grande quanto profunda não só para o Estado quanto para o Brasil.

Agosto, amigos, é de Nabuco. Se não é, deveria ser. Perdoem-me os burocratas pedagógicos e os ausentes de espírito, mas o grande pernambucano não deve ser algemado às rotinas oficiais, quando a memória não é mais que um pálido símbolo. Nabuco é vivo, plural e inspirador. A cada nova geração de brasileiros há de continuar levando os frutos da sua inteligência e da sua sensibilidade.

Sendo quem é,  não deve ser surpresa vê-lo entre nós e imaginá-lo no amanhã depois de nós. Muitos dos seus temas passaram, o que é natural, mas ele, como um “gênio refletor” (para usar uma expressão proustiana), não passa, continua sua missão iluminadora. Sua grandeza se desgarra da História para habitar entre nós. É preciso saber explorá-lo, ir às suas minas, colher nos seus pomares e angustiar-se com sua angústia. Ele é um dos poucos brasileiros que nos dá a medida do Brasil, e isso, como se pode aquilatar na sua obra, para muito além da circunstância histórica. Nabuco é estadista e esteta, pensador e reformador social, crítico literário e historiador, sociólogo e psicólogo, cientista político e biógrafo. Sua leitura, fôssemos outro país, seria obrigatória em nossas escolas e academias.

Igualmente sábio foi outro pernambucano de gênio – Gilberto Freyre – a inspirar-se no reformador social para, quando do centenário de seu nascimento, em 1949, criar a Fundação Joaquim Nabuco e nesta a Editora Massangana, cuja moenda editorial ao longo de trinta e três anos não tem parado de produzir obras que são um valioso repositório sobre a cultura do Norte e do Nordeste brasileiros. Só ampliando-se a educação e a cultura poderemos destruir, como desejava Nabuco, a “obra da escravidão”, aí incluídos o veneno do autoritarismo e a praga do patrimonialismo. Daí fazer minhas as palavras de Fernando Henrique Cardoso em memória de Nabuco: “Que melhor tributo prestar-se hoje em dia a esse grande brasileiro senão continuar apostando no método democrático para a superação dos nossos estigmas sociais? Nada se contrapõe mais ao seu legado do que deixar que a intransigência prevaleça sobre o diálogo e aceitar que as paixões, por legítimas que sejam, sufoquem o respeito à diferença.”

 

 



 Escrito por Paulo Gustavo às 10h03 [   ] [ envie esta mensagem ]


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