 |
O GENE DA IMBECILIDADE Não me surpreenderei se a neurociência descobrir hoje ou amanhã — pode ser hoje, por que não? — o gene da imbecilidade. É evidente que esse gene vem dando sinais de que de fato existe e de que realmente contribui (e contribuiu) para a evolução humana. A imbecilidade — manifesta ou latente — não é lá muito fácil de ser aprisionada, muito menos pela ciência. É fácil se reconhecer a burrice, a ignorância, mas a imbecilidade é por assim dizer mais escorregadia, mais elástica, mais sonsa e tanto pode estar no burro quanto no inteligente, no pobre quanto no rico, no reacionário e no progressista (se é que ainda existem tais categorias!). Apesar de seus avatares, ou por isso mesmo, a imbecilidade emerge com nitidez como uma força da natureza. Não se trata de ética, mas de algo natural, inarredável. O imbecil tem algo de um triunfo da espécie. Não adianta querer compreendê-lo como se compreende um psicopata. Diante do imbecil, fica no ar, estéril, a nossa irritação. Dir-se-ia que tem um poder satânico (Deixo aos teólogos honestos a questão de se saber se o diabo é imbecil. Desconfio que não.) O imbecil é exasperante, tão exasperante que por vezes um outro imbecil não pode suportá-lo. Um imbecil inteligente — o que só aparentemente é um paradoxo — parece ser ele mesmo a prova de que nós todos viajamos nas trevas, no labirinto voraz de forças indestrutíveis. Suspeito que todos nós trazemos esse gene no sangue. Dentro de nós, a imbecilidade, sem que tenhamos muita consciência disso, espreita a hora de dar o bote inevitável. Lá está ele, o poderoso gene, a dominar nossas atitudes. É uma merda!, com minhas desculpas por usar essa palavra tão corriqueira. É que, com certeza, também sou imbecil.
Escrito por Paulo Gustavo às 12h36
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
COM ARTE E SEM IDADE! "A morte não me assusta, o sofrimento, sim." A frase acima é do cineasta português Manoel de Oliveira, em entrevista à Folha de S.Paulo de domingo passado. Em resposta à alusão à sua idade — 101 anos — durante a entrevista. Penso que uma das chatices da longevidade é essa cretina (?), deselegante e constante referência à idade. Claro, chegar ou passar dos 100 ainda é uma realidade notável, mas nem por isso há necessidade de se insistir tanto no assunto, pois o tema leva irrecorrivelmente à morte, ao desaparecimento. Sem falar que a velhice por si só é a fase das grandes limitações físicas. Felizes os Manuéis e os Niemeyers que chegam criativos e jovens a essa fase da vida, que Proust apontou como “a maior miséria dos homens”, na qual o sofrimento, como parece lembrar o cineasta, se sobreleva a tudo. Felizes e invejáveis os artistas longevos que continuam a dádiva de espalhar sua generosa sensibilidade. Para eles, a morte não os assusta, sua arte os conduz impávidos aos confins da existência.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h55
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
NO BICO DOS URUBUS À época da chegada da família real portuguesa — menciona Laurentino Gomes em seu já famoso livro 1808, citando o historiador pernambucano Oliveira Lima — a limpeza do Rio de Janeiro “estava toda confiada aos urubus”. Exagerando um pouco, é o que hoje vem ocorrendo com o Recife, cujo lixo se espalha por calçadas e ruas num espetáculo que envergonha a capital pernambucana. O imbróglio institucional burocrático envolvendo a coleta do lixo, a cargo da Prefeitura, deságua num panorama que desafia a paciência de moradores e o gosto de todos, chocando os turistas que visitam as belezas da cidade. Enfim, os urubus estão de volta neste ano da graça de 2009. E o Recife, mais do que nunca, precisa de uma higienização completa, que, além do lixo, atenue o cheiro desagradável de sua precária rede de esgotos (tão precária que só um terço da cidade tem esgotamento sanitário!), cujo vômito contínuo envenena as águas líricas do Capibaribe. Sem “plumas”, mas com esgoto o rio sofre a vergonha de não ser mais um rio, e mesmo a leveza de sua lâmina só espelha a sujeira dos homens, a eterna sujeira dos homens, mais eterna que a dos rios...
Escrito por Paulo Gustavo às 11h16
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
DA SÉRIE DIÁLOGOS MUITO RÁPIDOS — Panetonem et circensis. — O latim nunca morreu. — Mensalão sempre acaba em pizza. — No Natal, em panetone. — O que diz o Serra? — Caladinho como um mineiro. — Lula falou “merda” num discurso no Maranhão. — Qual é a novidade? — Sarney é do Maranhão ou do Amapá? — Ele já nasceu em Brasília. — O Palácio do Planalto fez um puxadinho. — Arquitetura popular?
Escrito por Paulo Gustavo às 12h14
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
É DIFÍCIL SER MÉDIUM NO NATAL O espírito natalino, embora invisível como qualquer espírito, insiste em reencarnar nessa época do ano. Com minhas qualidades mediúnicas, evito, sempre que possível, que tal espírito venha me importunar. No meu terreiro, ele não baixa. Às vezes, ele anda acompanhado de outro ser transcendental — o espírito de porco. Ambos querem melar o Natal. Não dou chance à menor psicografia. Outro dia, Belchior (não o cantor, mas o rei mago) queria baixar com ouro, incenso e mirra. Achei um abuso. Por que ele sozinho com três presentes? Para me subornar? Deixei-o no éter, incomunicável. Até uma vaca sagrada da Índia (já falecida, naturalmente) queria baixar, fazendo-se passar pelo boi da manjedoura. Não lhe dei qualquer capim espiritual. É difícil ser médium no Natal. As entidades do além ficam indóceis. Tem gente desencarnada que quer passar o Natal “em casa”: querem peru, queijos, vinhos, tudo pago pelo décimo terceiro dos pais! Tranco a boca e a gula desses espíritos penetras. Noite dessas, tentava baixar um buda com mais de cinco mil anos de desencarnado. Respeitei-o pela idade avançada, mas fui logo dizendo que era Natal. Que tem budas a ver com Natal? Ele queria baixar de pernas cruzadas e tudo; vaidoso, queria um halo dourado na hora de materializar-se. Depois veio um comunista (no além, existem muitos comunistas) querendo se manifestar. Era um espírito vermelho como Marte. Queria baixar com a condição que eu cheirasse o “ópio do povo” (nem sei que droga é essa!). Seu vermelho era de papel de presente: era um comunista consumista e burguês. Fiz o sinal da cruz e o bicho se desmanchou no ar. Outro comunista queria falar com o Lula, fazer umas reclamações, tomar uma pinga. Francamente, comunista desencarnado não tem mesmo o que fazer. Enfim, é difícil ser médium no Natal, não posso me concentrar, o trânsito espiritual é um sufoco, o cara não ganha nada, a caridade sai muito barata!
Escrito por Paulo Gustavo às 09h33
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
SIGLAS Siglas, sispt, suspt, com siglamour Entre siglônimos anônimos e siglastros famosos. Sem os quatro cantos dos dicionários, Siglamente soltas, sigluras de si, altas, baixas, Correntes como o ar como o verbo siglar. Siglas que amamos como estranhas glicínias Ou que, mudas, repelimos mesmo sendo lindas. Mesmo assim, mesmo assim, siglamo-las Pelo som que espalham ou desprezam Por vezes glaciais, siglaciais nos parecem. Siglas às quais imploramos a chave, A chave difícil das palavras fáceis, A chave torta para tantas coisas retas.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h43
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
MISSA DE SÉTIMO DIA Meu amigo Frei José de Lorena, da Ordem dos Sacanas Menores, sempre me diz que foge de uma missa de sétimo dia como o diabo foge da cruz! Frei José confessa que missa de sétimo dia deveria ser chamada “missa de péssimo dia”. Homem ligado às inovações tecnológicas, Frei José sugere que um clone nosso vá às missas de sétimo dia, um clone contrito e, claro, católico praticante. Por falar em “praticante”, ele acredita que essas missas nada têm de práticas e que praticante mesmo só o padre que as celebram. Pior ainda quando a missa se refere a vários finados ao mesmo tempo, ou seja, é tudo uma espécie de “menção honrosa” em ordem alfabética, sem a qual ordem o próprio céu termina virando um caos. Mas o pior mesmo para Frei José é ver uma mulher bonita chorando sem poder oferecer um ombro amigo, um chope gelado ou o número do celular... O ideal seria que a missa terminasse em pizza ou samba. Um pagode também cairia bem.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h06
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
ENEM: FERAS SÃO COBAIAS DE UMA “NOVA ÉTICA”! O tema da redação do Enem-2009 é uma bijuteria: brilha, mas é falso. Pobres feras que têm de se submeter à cretinice oficial! O tema foi posto literalmente como se segue: “...sobre o tema O indivíduo frente à ética nacional, apresentando proposta de ação social, que respeite os direitos humanos”. Seguia-se uma charge de Millôr (que mico, hein!) onde se lê: “Só lidar com gente honesta, meu Deus, que solidão!”. Além de Millor, um fragmento de uma crônica de Lia Luft, publicada na revista Veja, e outro de um artigo, publicado na Folha de S.Paulo, de autoria do psicanalista Contardo Calligaris, ambos sobre a indignação contra a corrupção. Pergunta-se: - O que será que o Enem/Governo chama de “ética nacional”. Ora, que se saiba, não existe tal disciplina entre as chamadas “humanidades”. O que seria isso, com esse adjetivo “nacional” como um destino inexorável? Onde existe essa tal “ética nacional”? Será uma nova invenção da criatividade brasileira? Do próprio Governo? Essa ética viria de um “ethos” propício à corrupção, independentemente de políticas e partidos de ocasião? Será que esse nacional quer dizer “do povo”, inerente ao povo? A tal “ética nacional” seria transversal a todos os atos dos cidadãos, a todas as classes sociais? Ao que parece, a redação foi insidiosa e subliminar: nesse contexto, a ética seria a própria falta dela ou um avatar de sua perversão. Mas — vale enfatizar — essa ética assim adjetivada é dada como algo real e existente, lente pela qual o pobre fera terá que enxergar e se virar para redigir. Enfim, ao que parece, o Brasil dá mais um exemplo ao mundo criando uma “ética brasileira”...
- Desde quando um fera tem de apresentar uma “proposta de ação social” e proposta que “respeite os direitos humanos”? Ora, e quem imaginaria hoje que uma “proposta de ação social” iria de encontro aos “direitos humanos”? Mas o enunciado fez questão de ser redundante — a troco de quê? Pergunta-se ainda: por que um fera não pode discutir a ética no contexto brasileiro sem atrelar a sua discussão a uma “proposta social”? Fera não tem que propor nada, pelo menos numa prova que prime pela isenção ideológica!
- Por que apresentar o texto de Millor, cuja ironia e humor são sempre saudáveis, junto dos fragmentos “moralistas” de Lia Luft e Contardo Calligaris, este como que “desmentindo” o daquela, uma vez que denuncia o lugar-comum de que “Eles são todos corruptos” como “uma armadilha que amarra e imobiliza os mesmos que denunciam a imperfeição do mundo inteiro”? Ambos esses últimos textos neutralizam o potencial crítico da ironia de Millor Fernandes.
- Por que tanta “fumaça” sobre um tema que, a rigor, seria outro, como sugerem os textos dos três autores citados: “O indivíduo frente à corrupção nacional”. Bom, mas a “ética nacional” entrou no lugar da corrupção nacional como que para neutralizar uma talvez remanescente indignação. Enfim, a redação foi subliminarmente politizada, e mais uma vez se pergunta: — a troco de quê? Até onde se sabe, para se demonstrar que se redige bem, um tema não precisa ser confuso, como é o caso, ou simplesmente atual ou político. Enfim, nossos feras tiveram que passar por cobaias do Governo. Até gostaram, como li nos jornais, o que é uma lástima. Ainda não entenderam que as palavras também narcotizam.
Escrito por Paulo Gustavo às 10h22
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
UM GRANDE POETA INCÓGNITO Seu nome é forte e estranho e parece guardar uma predestinação telúrica. O “y” que o inicia sugere a ambiguidade e o silêncio do que é incógnito, embora nada faça supor que, por trás de sua opaca firmeza, haja um homem atormentado pela visão mística dos grandes visionários. Morto em 1981, tinha 49 anos quando faleceu. Era potiguar da cidade de Natal, mas sua curta vida foi marcada pelo Recife e por Olinda. Era formado em Direito e História. Mas que importa o currículo da vida civil para a biografia de um poeta? Não são poucos os que dizem ou insinuam que sua vida verdadeira está na própria obra, que os seus versos são um memorial e um testemunho da existência. Seu canto é biográfico, como lembrou Jorge de Lima, e a poesia, a “vida verdadeira” — como disse Manuel Bandeira. Incógnito e esquecido, o poeta de quem vos falo chamava-se Yttérbio Homem de Siqueira. Sua família literária é a de um Jorge de Lima, de um Murilo Mendes, de um Ângelo Monteiro, de um William Blake, de um Georg Trakl, este último o grande expressionista austríaco de quem o filósofo Wittgenstein teria dito que nada entendia de sua poesia, mas que esta o deslumbrava. Assim também é a pequena e densa obra de Yttérbio, pois reúne a um só tempo o hermetismo e o esplendor inquietante de um universo movido pela angústia do tempo e do ser. Como poucos, Yttérbio move-se com inesperadas imagens na interseção da prece e do poema, embora sem o compromisso (comprometedor!) de uma religião e de uma confissão de fé. É que sua solidão metafísica o confronta com a perplexidade do cosmos. Para ele, Deus (um “Deus mais triste que onipotente”) e o homem avançam num mesmo plano, e os opostos se intercambiam com voracidade, pois “o infinito se deixa sonhar”, e o existente pode exclamar: “Sou a criatura/ — eu sou Deus perdido em seus caminhos”. Na arena dessa poesia, assomam, nada heróicos, Deus e o homem numa parceria agônica, num diálogo de sombra e luz, no qual se dissolvem ou se transfiguram as categorias de tempo e espaço. Dessa forma, Yttérbio cria uma cosmogonia toda sua, um mundo novo por arte de suas sinestesias encadeadas e de suas metáforas, como se nos narrasse as visões não só da angústia, mas de um horizonte de redenção. Cidadão de ausências e modesto por convicção — como testemunham os que o conheceram —, Yttérbio mal deixava entrever no burocrata que foi o grande poeta que continua sendo, aliás como tantos artistas que o cinzento do cotidiano disfarça e camufla, dando-lhes, quem sabe?, paradoxalmente, a liberdade necessária para a obra do sonho ou para o sonho da obra. É que, para eles, não conta o tempo dos relógios, o prosaico tempo do ponto que maquinalmente assinam em seu trabalho, o que conta, como escreveu Proust, é lançar a obra no seio do futuro. E, dessa forma, ressuscitam tão perenes como os elementos naturais da Terra, puros e fortes como Yttérbio. P.S.: Deve-se ao poeta Francisco Bandeira de Mello, então Secretário de Cultura do Estado de Pernambuco, e ao gestor cultural Roberto Pereira a reedição, em 1983, pela Fundarpe e pela José Olympio, do único livro publicado por Yttérbio: Abismo Intacto.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h49
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
DA SÉRIE DIÁLOGOS MUITO RÁPIDOS — Minha vida é um infortúnio. — Não tive essa sorte. — A neve de algodão sumiu do Natal. — É o aquecimento global. — Ele discursa com voz tremida. — Talvez tenha mal de Parkinson. — O computador não pensa. — Mas presta muita atenção. — Ele é corno? — Não, ela apenas terceiriza o amor. — Quem foi Karl Marx? — O ópio do povo? — As cigarras cantam, as formigas trabalham. — E tudo isso sem salário. — Querida, que escritor você levaria para uma ilha deserta? — Aquele peruano: Porras y Porrras. — Ouvi dizer que ela só transa na rede. — O balanço faz o resto. — O décimo terceiro já saiu? — Saiu e não disse quando voltava.
Escrito por Paulo Gustavo às 12h37
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
O EXEMPLO DA FÉ Repito, amigos, que o mensalão de Brasília nos revela uma turma de escol. Veja-se, por exemplo, aquela cena em que, unidos, os mensaleiros rezam em agradecimento pelo dinheiro recebido. Um gesto — como dizê-lo? — entre lírico e místico, tipicamente nacional. Pareciam jogadores antes de entrar em campo, cheios de inabalável fé. Enfim, se a antiga fé transportava montanhas, a mais moderna fé, consoante o espírito dos tempos, move propinas e faz chover dinheiro. Rezemos, oremos, amigos de pouca fé, que muito dinheiro há de chover em nossa seca horta. No mais, uma oração de agradecimento nunca é demais, pois, já nos lembrava o bom Shakespeare, que a “ingratidão é um demônio de coração de mármore”.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h53
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
PRUDENTE, O SEGURO O mensalão de Brasília nos revela uma turma de escol. Veja-se, por exemplo, esse fabuloso Leonardo Prudente. Flagrado ao encher as meias de dinheiro, saiu-se com esta piada: que fazia assim por uma “questão de segurança”! Ora, faz sentido, pois Prudente, fazendo jus ao nome, não quer ficar por aí à mercê dos bandidos! É isso, caro Prudente, a insegurança está demais: devemos andar não só de colete à prova de bala como andar com meias fortes e bastante elásticas para os nossos trocados. Há, no entanto, quem prefira cuecas, mas isso é lá com o gosto íntimo de cada um, não nos convém ir por aí. Já as meias, tanto esportivas como sociais, são uma roupa especial e discreta. Sim, talvez Prudente, prudentemente, adicionasse mais esta: para a segurança ser completa, as meias não devem estar furadas.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h36
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Como chamar o novo escândalo protagonizado pelo Governo do Distrito Federal? Arrudão? Mensalão do Demo? Brasilão? Meião? Cestão? A nós, otariamente honestos, só nos resta batizar a corrupção, dando-lhe nomes pitorescos para consumo midiático. A nação (onde está ela?) a tudo assiste apatetada. Os vídeos expõem o deliciar-se dos corrruptos federais: “Ah, ótimo!”, num gozo triunfal. E assim o dinheiro entra por todos os buracos, digo, bolsos, num contato amoroso e embriagante, digno de um Tio Patinhas. Ótimo, ótimo, não pare, não pare, mais, mais, numa volúpia que só quatro paredes, à prova de som, podem conter.
Escrito por Paulo Gustavo às 12h03
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
DA SÉRIE DIÁLOGOS MUITO RÁPIDOS — O que é ONS? — Três letras que se apagam. — Desde cedo defendeu os animais. — Era amigo da onça. — O que reúne as famílias no Natal? — Talvez o pensamento positivo. — O que o Natal e o peru têm em comum? — Ambos morreram e foram recheados. — Ele anda na linha feito trem. — E a mulher é uma locomotiva em sentido contrário! — Nada como um carimbo para garantir a verdade! — Para a mentira, não tem burocracia. — Ele é kafkiano ou borgiano? — Pelo jeitão, é analfabeto! — O que faz um pedagogo numa escola? — Desvio de função. — Quem frequenta igrejinhas literárias? — Simples. Os demônios da literatura. — Ela vive pisando em ovos. — Uma grande galinha. — Poesia é algo hermético ou sintético? — Talvez antibiótico. — Francamente, não entendo a sua lógica. — Antiga, como a de Aristóteles. — Ele é uma grande figura. — Não por acaso é pintor figurativo. — As hienas só fazem sexo uma vez por ano. — Será medo da aids? — Nunca entendi o que é um parágrafo. — Pra mim também é grego. — Se ela fosse só uma bunda? — Não viraria as costas para o sucesso! — Imagine se o sexo fosse na cabeça. — A turma vivia dando cabeçada por aí. — Nunca me confessei com um padre. — Eu já, mas ele não pagou o motel. — Ela pensava que Picasso fosse só uma marca de carro. — É o que chamo de pouca experiência sexual. — Onde você vai passar o próximo apagão? — Na cidade-luz! — Ela me chamou de múmia! — Ora, querida, isso é um lugar-comum.
Escrito por Paulo Gustavo às 10h49
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
CÍCERO MELO O poeta Cícero Melo, alagoano radicado no Recife, é, sem favor algum, um dos fortes poetas em atividade em Pernambuco. Como genuíno artista da palavra, nada tem de vulgar, nada concede ao fácil. Com ele renova-se o nosso melhor lirismo — em imagens, em musicalidade, em domínio de técnica. Sob esse último aspecto, é visível seu gosto pela métrica e de extremo bom senso o uso do verso livre com o necessário rigor que este merece. Foi o que fez desde mais jovem para abrir clareiras à melopeia que permeia a sua poesia. Ler e reler a poesia desse poeta tão inteligente quanto avesso à chamada “vida literária” é um permanente prazer. Deixo com vocês duas amostras, dois fragmentos de seu livro Poemas da Escuridão, publicado em 2001 pelas Edições Bagaço, no Recife. (Quem é esse que traz os pés cativos À sentença de acasos e de meses, Vago morto que aprende com os vivos? Quem é esse de sonhos insepulto?) Me perguntaram e neguei três vezes Que era eu mesmo pelo mundo oculto. Vênus Furiosa A semente do amor rebenta a chama E transita de novo o ser amado. Ardor de mar sem foz, torpor alado. Mas se Eros te foge, o amor reclama. É sedosa a casa de quem ama E sedento o jardim do seu cuidado. Moldura Desce rumo à infância A morte despertada.
Pó e pesadelo Nunca envelhecem.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h25
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
 |
| [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |



|
 |