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Nossa revolução cultural Ângelo Monteiro a.jmonteiro7@gmail.com Somente com a morte do grande guia Kim Jong-il e seu interminável funeral é que poderíamos visualizar a verdadeira dimensão de uma ideologia em seu caráter principalmente mortal. Nada mais patético de que o pranto de uma multidão ante a morte de um sinistro e sanguinolento ditador: é como se todos fossem compelidos, além de suportar seu terrível tipo de vida, a se sujeitar a tal morte para readquirir a própria sobrevivência. Ou como se o inferno estivesse chorando a despedida de Satanás por temer sua ainda mais perigosa ressurreição: no caso a substituição de Kim Jong-il por Kim Jong-un. Depois da experiência da revolução cultural maoista – que fechou conservatórios e bibliotecas, chegando até mesmo a queimar dicionários, para que os chineses perdessem inteiramente o sentido das palavras –, a Coréia do Norte conseguiu converter o funeral do seu dirigente supremo numa espécie de glorificação de um sistema que se alimenta justamente de suas vítimas, fazendo das lágrimas de uma dor, temerosa de sua própria expressão gestual, o símbolo mais completo de sua essência ideológica. Talvez por adivinhar o pior dos futuros o nosso povo, em certa época, para sua sorte, não se deixou enganar pela sereia comunista, já que, entre nós, essa vocação para a subserviência, de dimensão continental, terminaria por transformar o Brasil em uma outra China, se acaso uma certa esquerda houvesse tomado o poder... Mas a nossa revolução cultural – como não foi produzida por Mao, como na China, nem, muito menos, pela dinastia Kim, como na Coréia do Norte, e sim por Branchu –, em vez da destruição física dos dissidentes, contenta-se apenas com uma progressiva imbecilização que promete, de forma gradual, acabar em vida com todo aquele que ousar pensar por conta própria. Uma revolução que conseguiu, para esse fim, herdar o pior do comunismo, em seu horror à inteligência, e o pior do capitalismo, em sua absoluta estranheza com tudo aquilo que não vire objeto imediato de consumo. O terrorismo do pensamento único se distingue da linha chinesa ou norte-coreana, precisamente por não ser sangrento, porém marcado, em sua anemia crônica, por uma total ausência de sangue, graças ao número incalculável de vampiros do mais variado quilate... E, por conta disso, o nosso incansável choro nunca será de terror, como o da Coréia do Norte – cada um como que disputando ou concorrendo com as lágrimas do outro na multidão – mas de imbecilidade mesmo: por chorar não só a morte do que não houve, como também daquilo que poderia morrer a cada momento, por já nascer velho. Ângelo Monteiro é poeta e ensaísta
Escrito por Paulo Gustavo às 09h40
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O CENTENÁRIO DO ORNITORRINCO Imagine o leitor de hoje o leitor carioca de 1912 deparar-se, na então capital federal, com o tão sóbrio quanto curioso livro intitulado Eu. Simplesmente Eu. Na capa, o nome de um anônimo; e no miolo, para maior estranheza, versos cheios de música, de reflexões e de misteriosas palavras tomadas à ciência. É provável que muitos, a exemplo de Olavo Bilac, tenham de fato torcido o nariz àquele ornitorrinco literário. O autor era o jovem professor paraibano Augusto dos Anjos, cujas sombras verbais se estenderiam para sempre sobre a literatura e a poesia brasileira. Para ainda maior desapontamento dos contemporâneos, o título do livro — aquele singelo Eu — não era exatamente o eu que se esperava de um poeta. Aquele Eu não chorava perdas amorosas nem se comprazia em uma intimidade confessional. Nem mesmo se poderia imputar-lhe o epíteto de “odioso”, como propusera o ascético Pascal. Dele se perceberiam apenas lampejos filosóficos como relâmpagos arrancados a uma espessa treva. A poesia que expressava era aparentemente incompreensível e não tinha orelhas que a soubessem ouvir. Sim, havia melopeia, ritmo, cadência, mas era uma espécie de antissinfonia. Como estrangeiros para a própria língua — era assim que o estranho poeta deixava seus escassos leitores. Naquela massa verbal latejava aqui e ali uma memorável sentenciosidade. Ironicamente, aquele Eu bastava-se a si mesmo e, ao fim e ao cabo, era um Eu nada pessoal, nada circunscrito a um lugar lírico tradicional. Num país ainda fascinado pela retórica e pela face lacrimosa do romantismo, o ornitorrinco criava, aos poucos, o seu próprio espetáculo. Sua retórica tinha imagens absolutamente inesperadas e suas lágrimas tinham a secura de quem sabe inevitável o próprio horror. A poesia anjosiana fazia com que o Brasil entrasse, ainda que de forma anacrônica, na modernidade já cantada por Baudelaire; dava a entender que os recursos estéticos poderiam ser bem outros. Por trás da sua estranheza, pulsava criadoramente um grande poeta, um poeta único como aquele Eu singular que intitulava o livro hoje centenário. Aos poucos, o poeta tomou a forma de sua grandeza. Desde então, foi apropriado de diversas formas: pelo povo, pelos exegetas, por outros artistas e escritores. Como o porco-espinho da fábula ressuscitada por Isaiah Berlin, o nosso ornitorrinco, ao contrário das raposas (que sabem muitas coisas), continua a saber algo muito especial e, assim, continua sempre singular e instigante.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h44
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CRUELDADE NUNCA MAIS! Estou com Steven Pinker: apesar de toda a violência que vemos, o mundo está menos bárbaro e cruel. Penso que Pinker subscreveria de bom grado esta frase de Guimarães Rosa: “O mundo se repete mal é porque há um imperceptível avanço.” Há avanços e, dentre tais avanços, o de a ciência nos aproximar, muitos séculos depois de São Francisco de Assis, de nossos “irmãos” animais. Hoje, com efeito, compreendemos muito melhor sua alma, seu comportamento, sua inteligência. O desejo humano de que os bichos “falem” — tantas vezes expresso pelos mitos e pelas lendas — parece cada dia mais presente. No caso dos grandes primatas e mamíferos — como sugere o zoólogo holandês Frans de Waal —, há mesmo de se dizer que o ser humano só não reconhece certas competências nos animais por puro preconceito. Isso mesmo: seu antropocentrismo cega-o para certas qualidades, impede-o de fraternalmente ver nos “brutos” e nos “irracionais” uma “face humana” sedenta de compreensão. A dívida do ingrato ser humano para com os animais é imensa. Basta pensarmos em bichos como o cavalo, o boi, o cão, a baleia — para ficarmos só entre os mamíferos. Eles, vale lembrar, sempre participaram ativamente da empresa humana, pagando muitas vezes com a própria existência o sonho humano de domínio. Também saíram do Jardim do Éden e vieram nos ajudar a ser o que somos. Diminuíram nosso suor e nossa fome, garantiram nosso repouso, venceram distâncias, compartilharam de nossa solidão. Nesse sentido, é salutar que no Brasil (embora com certo atraso) esteja se consolidando a consciência da proteção animal. Não basta não se ser cruel com os animais, é preciso garantir-lhes, na medida do possível, uma vida digna, livre de quaisquer maus-tratos e constrangimento. Num país socialmente desigual e continentalmente múltiplo como o nosso, esse é ainda um ideal a ser concretizado, uma bandeira a ser compartilhada. Para tanto, não são suficientes atitudes apenas românticas ou espasmódicas, é preciso legislação clara, práticas cotidianas, fiscalização permanente. Sem mobilização da sociedade e sem a efetiva institucionalização por parte dos poderes públicos, a defesa dos animais não é mais que uma lamúria de consciência pesada, vindo a reboque de inúmeras outras prioridades sociais. Na verdade, essa defesa deve ser compreendida num contexto mais amplo, mais pedagógico e mais civilizatório. Mas, se não se pode ter esse horizonte no plano imediato, que pelo menos o demônio da crueldade — talvez o mais frio de todos os demônios — seja banido para sempre de nosso convívio com os animais.
Escrito por Paulo Gustavo às 12h36
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A MINHAS ESCASSAS E QUERIDAS LEITORAS, A MEUS ESCASSOS E QUERIDOS LEITORES, DESEJO UM ANO NOVO CHEIO DE SAÚDE, DE SORTE E DE REALIZAÇÕES. PERMITAM-ME ALGUNS DIAS DE FÉRIAS. VOLTO NA SEGUNDA QUINZENA DE JANEIRO PRÓXIMO. FELIZ 2012!
Escrito por Paulo Gustavo às 19h12
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NATAL NÃO É HOJE Ficou só a palavra A boiar incompleta No uísque e na raiva Na espuma da festa. Apagou-se a estrela Entre a neve e a nuvem O que era vereda Já não toca nem punge. Nos teus lábios molhados Há um seco murmúrio. Entre a fauna e o fauno É tão curto o futuro. Com uma gula errática Peregrinas na noite, Nessa noite tão clara, Mas Natal não é hoje! Paulo Gustavo Recife, 22 de dezembro de 2006 MEU NATALMeu Natal é uma infinita tristeza. Não tem árvore nem raiz Nem ouro Nem incenso, Apenas o que penso E guardo Entre uma palavra e outra — Silêncio de tantas bocas Caladas na dura neve. Meu Natal, para que serve? Paulo Gustavo Recife, 21 de dezembro de 2006 FELIZ NATAL FELIZ NATAL
Escrito por Paulo Gustavo às 19h51
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A FRANCISCO ALBERTO CARNEIRO DA CUNHA, IN MEMORIAM Pela mão de meu pai, o meu destino ergueu-se sobre o barro ensolarado. O que sonhei vivi quando menino entre a floresta antiga e o dia claro. Meu pai era um senhor alto de sonhos, do nada construindo um sol futuro, por isso em sua fé um sino louco em cores transformava todo o escuro!... À sua sombra, amei o que ele amava: a terra verdejante, a poesia, os pastos pontilhados pelo gado... E tanto amei com seu amor a vida que a infância retorna a cada mágoa embora seu amor viva ao meu lado !
Escrito por Paulo Gustavo às 19h16
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Outro PNE ou revolução Cristovam Buarque JConline 9/12/2011
Em 9 de janeiro de 2001, o então presidente Fernando Henrique Cardoso sancionou o I Plano Nacional de Educação (PNE), vetando o artigo que determinava investimento de 7% do PIB em educação. Lula e todo o PT protestaram fortemente e uma grande campanha foi feita para que este veto fosse derrubado. Mas, ao chegar ao poder, Lula se negou a derrubar o veto, e o PT se calou por nove anos. Agora, na discussão do II PNE, o assunto volta à tona, elevando os 7% para 10%. É possível imaginar que, desta vez, a presidente Dilma não vetará o artigo. Porém, é igualmente possível imaginar que nada mudará na educação de base se este artigo for aprovado, elevando os gastos com educação, sem uma reestruturação de todo o sistema educacional. De nada adianta elevar gastos sem prever como o dinheiro será gasto. E as discussões sobre o PNE pouco falam em “como”, apenas em “quanto”. Gastar 8% ou 10% do PIB no atual sistema educacional será jogar dinheiro fora. Pior ainda, inviabilizará correções no futuro. Primeiro, porque a força do ensino superior fará com que as universidades se apropriem de parte substancial desses recursos. E sabemos que o ensino superior não será de qualidade sem boa educação de base. Hoje, o governo já é obrigado a fechar faculdades porque não conseguem qualidade apenas com mais recursos. Segundo, porque sem uma mudança na estrutura educacional, aumentar os gastos na educação de base não gerará muitos efeitos positivos. Sem salários dignos para os professores, não há como melhorar a educação de base. Mas dobrar ou triplicar o salário dos professores, sem mudar o plano de cargos e salários, sem uma seleção mais rigorosa e uma estabilidade responsável, sem escolas bem equipadas e sem horário integral, não trará efeitos na qualidade. Na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, a luta do deputado federal pernambucano Paulo Rubem Santiago por uma revolução na educação não supera a força dos que disputam mais recursos sem buscar a revolução na educação que o Brasil precisa. Foi em parte pensando nisso que preparei o livro A revolução republicana na educação, livremente acessado pelo endereço digital www.cristovam.org.br. Ao invés de um plano tímido, o livro propõe uma revolução. Na base dessa revolução está a federalização da educação de base, com os professores sendo selecionados nacionalmente, com um salário de R$ 9 mil por mês, com uma estabilidade responsável, dependendo da dedicação. Estes professores seriam lotados nas mesmas escolas. Todas as escolas seriam federais, com prédios bonitos, bem equipados e com jornadas em horário integral. A revolução seria feita por cidade. Em 20 anos, em todo o Brasil. Esta seria uma Revolução, não apenas um novo PNE, como o anterior, que não deixou marcas. O custo desta revolução na Educação de Base, ao final dos 20 anos, seria de 6,4% do PIB. Se for aprovada a meta de 8%, ainda sobraria 1,6% para ser gasto, inclusive no ensino superior que hoje está custando 0,9% do PIB. Ao invés de concentrar a luta no mais fácil, “quanto gastar”, quem realmente deseja mudar a educação deve se concentrar no “que e como fazer”. O pior é que se forem autorizados os gastos elevados sem mudar a estrutura ficará impossível, no futuro, propor as mudanças estruturais, porque, viciados nos recursos fartos sem reforma, haverá resistência a mudanças. O Brasil precisa de uma revolução educacional, e não apenas de mais um Plano Nacional de Educação. Cristovam Buarque é professor da UnB e senador pelo PDT-DF
Escrito por Paulo Gustavo às 08h51
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MAURO MOTA EM NOSSA AGENDA Estás perto de mim quando te leio. Jaci Bezerra, no poema Variações em torno de Mauro Mota De 1966 a 1984, ano em que faleceu no seu amado Recife, Mauro Mota escreveu quase que diariamente uma coluna intitulada Agenda. O nome, logo se vê, não poderia ser mais feliz, mais conciso e mais objetivo. Uma agenda (observem que nem o nome nem a coisa envelheceram, pelo contrário!) é algo suficientemente simples e abrangente, prendendo-nos ao tempo e espelhando a nossa própria vida. É com ela que nos instalamos — pública ou privadamente — no cotidiano, submetendo-nos a um cosmos que nos livra do caos, organizando a brevidade da vida e as nossas circunstâncias de trabalho, de compromissos, de lazer e de amor. A rigor, nossa agenda só termina com a morte. A Agenda de Mauro, no Diario de Pernambuco, também praticamente só se encerrou com sua vida. E não duvido que sob a maciez interior dessa palavra tenha entrevisto, com sua habitual perspicácia, todo o dinamismo do verbo latino fazer que a origina e toda essa brevidade ou concisão que esconde e por vezes realça a tapeçaria do tempo. Antes de ser singularmente crônica ou puramente artigo de jornal — se atentarmos para dois gêneros que convivem na imprensa —, a Agenda de Mauro Mota goza de licença poética para o trânsito em vários gêneros. A Agenda se multiplica, sem se “desagendar”, em textos que fazem honra ao poeta e que vocalizam o resenhista dos lançamentos literários, o investigador social, o tribuno das causas culturais, o memorialista, o humorista, o geógrafo, o folclorista e o contador de causos. Pela Agenda de Mauro passava o dia a dia do Recife, mesmo quando o dia a dia já não era o presente e se tornara uma relíquia histórica. Assim como passava, não sem o crivo da caricatura ou do humor, a linguagem dos retóricos, dos eruditos, dos tipos populares, além dos bichos que vivem na fala da gente. Bichos aos quais o escritor não devotava um amor apenas verbal, mas um amor de quem passara a infância no mundo rural de sua nunca esquecida Nazaré da Mata. Bichos como o jumento, o boi, o cavalo, o cão e o gato. Tão simples, tão presentes. Bichos que também frequentam suas obras de uma forma tão íntima quanto generosamente humana. Fiel a uma cronotopia toda sua, o cronista nos leva a um Recife e a um tempo que só ilusoriamente se afasta de nós. Lendo suas crônicas, não mergulhamos num passado idílico. Não se trata disso. Mas vemos o mover-se da própria história social, entre luzes e sombras, entre a fugacidade do tempo e a inscrição humana. Não é curioso e patético, por exemplo, sabermos que um dia se cogitou mudar o nome Rua da Aurora para Avenida Aurora? Aquela que para Gilberto Freyre seria a mais recifense das ruas! E que certa autoridade da década de 1960 chegou seriamente (é claro!) a sugerir que o Parque 13 de Maio se tornasse um estacionamento de automóveis? Mas, felizmente, muitas outras crônicas se inspiram nas artes, nos talentos, nos valores pernambucanos. Nelas o foco é, por assim dizer, a personalidade cultural. Assim nos encontramos ou nos reencontramos com Joaquim Nabuco, Lauria, Abreu e Lima, Capiba, Maximiano Campos, Hermilo Borba Filho, Agamenon Magalhães, Nelson Chaves, Aloísio Magalhães, Willy Lewin, Wellington Virgulino, Aníbal Fernandes, Cícero Dias. Toda uma nuançada galeria que se complementa com uma não menos nuançada coleção de tipos populares: loucos, chatos, figuras folclóricas e pitorescas, quase todas ricos em humor ou melancolia — os dois grandes e inarredáveis polos da sensibilidade mauromotiana. Foi em nome do seu incontornável senso de humor que o escritor criou o alter ego Mateus Camorim, que surge aqui e ali com suas provocações e graças. Mas, mesmo sem estar travestido do popular Camorim, Mauro se deleita em nos fazer beber das águas do riso. Com aguçado radar para o cômico, faz do limão uma limonada ou — se preferirem, não sem motivo — do caju uma boa cajuada. Inúmeras crônicas dão conta dessa sua inspirada faceta. Mauro e Camorim não querem perder amigos (quem não sabe que o poeta foi um homem tão gentil quanto cordial?), mas sobretudo não querem perder a piada... Quanto à seleção dos textos em meio a um corpus/arquivo de quase mil crônicas do acervo do escritor na Fundação Joaquim Nabuco, gostaria de lembrar que, como ocorre nesses casos, o que conta ou prevalece, ao fim e ao cabo, é o gosto ou a visão pessoal do organizador. Não necessariamente por capricho, mas por inevitabilidade. Em todo caso, tentei, a meu modesto modo, a “sabedoria da escolha” poundiana. Por isso, me dei à disciplina de seguir alguns critérios, dentre os quais: mostrar a diversidade da prosa do autor; revelar o seu gosto pelo cuidado metalinguístico com a própria palavra (no que sempre se solidarizou com o magnífico poeta que é); distribuir de modo igualitário as crônicas textualmente irmãs; escolher, sempre que possível, textos com temas que se inter-relacionam a outras obras suas, a exemplo dos que tratam da paisagem, da flora, da fauna e dos valores culturais pernambucanos — do artesanato à arquitetura, da pintura à história e à literatura; evidenciar o senso de humor do autor e, na medida do possível, optar pelas crônicas cujos temas transcendessem a circunstância imediata. [Trecho de minha apresentação como organizador ao livro Mauro Mota: Cem Crônicas Escolhidas, recentemente publicado pela Companhia Editora de Pernambuco - Cepe].
Escrito por Paulo Gustavo às 14h46
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Escrito por Paulo Gustavo às 23h12
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ARTIGOS - OPINIÃO JC O reino de Branchu Ângelo Monteiroa.monteiro7@uol.com.br Não foi nem Sócrates, nem Platão, nem Aristóteles os primeiros filósofos de que ouvi falar já adolescente. Pois em menino, por não conhecer a infância, ou vivê-la, de maneira retardada, algum tempo depois, não tive meus primeiros contatos com Branchu. Somente muito mais tarde, vim a perceber que, ao silenciarem seu nome para dar lugar a outros mais prestigiosos ou eruditos, era em Branchu que a maioria dos nossos mestres concentrava seu pensamento, e não naqueles. Ao escrever o Tratado da lavação da burra há três décadas, ainda desconhecia os poderes de Branchu. E um desses poderes consiste em agir, por baixo do pano, exaltando o profundo em público para curtir o raso no privado. Daí Branchu ser o pensador nacional por excelência quando, ao fazer face ao existencialismo de um Sartre, por exemplo, substitui sua velha náusea por um urinol tomado como seu símbolo mais completo ao realizar, no dia a dia, a autoprojeção de um Duchamps que, entre nós, virou o trono do pensamento nacional. Nenhuma seriedade, como vemos, é possível no reino de Branchu: seu riso, mesmo na pior decadência, é invencível, e até as maiores tragédias costumam terminar em deboche. Sua voz se estende dos palcos e estádios aos púlpitos e cátedras: e vai de um primata como Gabriel, o Pensador, inculcado aos pobres alunos de literatura nas escolas de nível médio a um ex-governante que, sem nunca ter lido sequer um almanaque, se vê agraciado com títulos de doutor honoris causa pelas maiores universidades do mundo. De igual modo quando alguém, que desconhece qualquer noção de literatura, se transforma de uma hora para outra em celebridade, vemos aí o dedo de Branchu. Ou quando uma Fafá de Belém é convidada por autoridades católicas para cantar uma simples Ave-Maria em cerimônia religiosa de comemoração de quase 130 anos de uma diocese, como se todos os corais do mundo estivessem mortos, é a voz de Branchu que se expressa por meio dela. E ao olharmos, com perplexidade, um Roberto Carlos, de quipá na cabeça, se curvar em oração, segundo a mídia, por todos nós, diante do Muro das Lamentações, na Terra Santa, é para lamentar ou louvar a influência de Branchu? Se nas mais altas esferas seu nome não é pronunciado às claras é apenas por desnecessária cautela ou jogo de pura malandragem. Portanto para Branchu chegar aos céus é suficiente colocarmos no trono de São Pedro um papa brasileiro. E, então, haveremos de ver que se Roma não se fez num dia, bastará esse fato para ela se acabar de uma vez por todas. Embora não haja de faltar, para todo sempre, um reino para Branchu... Ângelo Monteiro é ensaísta
Escrito por Paulo Gustavo às 19h07
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FALA, DRUMMOND! Vida de estátua não é brincadeira, não. Uma câmera no Rio flagrou, em Copacabana, alguns instantes da vida nada pacata da estátua sedestre de Carlos Drummond de Andrade. Eu próprio estive sentado ao lado do poeta e pude ouvir, de sua voz tão rouca, as palavras que se seguem. — Paulo, essa idéia de me colocarem aqui na praia, no calçadão, parece provocar as pessoas. Fico no foco das atenções, sequer posso dar um cochilo. Há até quem me ache um tanto casmurro e, com licença da palavra, meditabundo. Todo mundo sabia da minha timidez, mas acharam que a praia seria a minha praia. O fato é que não tenho sossego. Já perdi a conta dos óculos que me quebraram. Sem óculos, como vou ver a perfeição das mulheres e a inocência das crianças? E tem mais: com o verbo “interagir” na moda, todo mundo quer interagir comigo: é carinho, é tapa, é abraço e, ai de mim e das estátuas, até chute no lombo. Acho que virei uma pedra no meio do caminho, uma pedra a caminho do mar. Ao contrário dos que idealizaram a minha vinda pra este banco, sou o que sempre fui: um anônimo. No Brasil, todo poeta é anônimo. Melhor assim: o importante é só a poesia. Às vezes, pra minha honra, me confundem com o Santos Dummont, mas, pobre de mim, embora fazendeiro do ar, continuo sem asas, sem avião ou jatinho, sem receber as lições de partida que Manuel Bandeira recebia. Pelo contrário: nunca estive tão preso. E aqui pra nós te confesso uma coisa: toda homenagem nos torna prisioneiros. O que me consola é o mar, mas a prefeitura acertou ao me deixar de costas pra ele. Prefiro mesmo o mar humano que não cessa neste calçadão: as ondas das gerações que passam, a diversidade, os turistas, os aprendizes do Rio, os amantes que trocam beijos sob o sol ou na furtiva sombra da madrugada; daqui eu vejo as impurezas do branco e o verde das amendoeiras e, mesmo imóvel, tento o grande salto que é amar.
Escrito por Paulo Gustavo às 16h44
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DO ESCRITOR E AMIGO MARCOS CREDER, RECEBI A MENSAGEM ABAIXO. NÃO A PUBLICO POR SER SIMPLESMENTE ELOGIOSA, O QUE SERIA CABOTINISMO (A PRÓPRIA PALAVRA JÁ É FEIA), MAS POR ENTENDER QUE CREDER CAPTOU COM FIDELIDADE O QUE FIZ NO MEU LIVRO A TARTARUGA E A BORBOLETA: UM CAMIMHO PARA PROUST, LANÇADO NA ALIANÇA FRANCESA DO RECIFE NO DIA 20 DE OUTUBRO ÚLTIMO. "[...] Eis que me chega as minhas mão o seu livro e quando folheio e leio, de início, aleatoriamente páginas avulsas, observo uma frase que nomeei como cartão de visita do seu texto: “a leitura é uma amizade”. Essa frase de Proust posso dizer que foi o leitmotiv de sua narrativa. Você escreveu por amizade a literatura e, certamente, seu texto vai ganhar muitos amigos e, consequentemente, o texto de Proust, para os poucos que não leram – como eu - será convidado a participar desse seleto círculo de amizade. A leitura é uma amizade, mas não é uma amizade qualquer. Para os amigos somos simpáticos, somo corteses, somos aconselhadores e a leitura talvez seja a amizade mais franca, mais intima e mais leal. Pois foi isso que observei em “A Tartaruga e a Borboleta: um caminho para Proust”. Seu texto tem sabor, tem ritmo, não é esnobe, tampouco agrada apenas pela boa educação, enfim, como toda boa amizade é agradável, é bonito, é simpático. A forma como você nos convida para ler Proust não é apelativa ou superlativa, é franca, é convincente, é inteligente, enfim, uma forma amiga. A sua lealdade com o entendimento do texto desse autor só pode ser fruto de outros elementos: leituras, releituras, conhecimento, sensibilidade e, sobretudo, paixão. Esqueça, portanto, as palavras escritas nas orelhas: modesto, sintético, e temeridade. Um bom livro, suponho, é também aquele que pode sintetizar temas importantes, sem que para isso seja modesto ou acanhado – quem contestar que leia Maquiavel. Ao terminar seu livro tive entendimento que Marcel Proust tem recursos psicológicos bastante sofisticados de dar inveja a muitos psicanalistas e psicólogos. Na verdade, como você bem disse, o tronco schophenhaueriano desmembrou-se na filosofia de Nietzsche, na expressão artística do próprio Proust e na construção da psicanálise do texto freudiano. Mas admitamos a arte é muito mais bonita e instigante e um capítulo como o do “o sono nos abre os olhos” nos trás não apenas uma teoria, mas toda uma experiência do enigma do sono e do sonho – outro dia vi uma frase de Mário Quintana que dizia: “sonhar é acordar-se por dentro”. Mário Quintana? Ilusão! Isso é Proust ou uma cópia aventureira de um de seus tradutores – o próprio Quintana. Começo a achar que Dante, Cervantes, Shakespeare fazem parte do velho testamento da literatura mundial e Flaubert, Kafka e Proust do novo testamento. O cristianismo foi divulgado por Paulo de Tarso a toda Roma e a literatura de Proust me foi apresentada, em especial e particularmente, por um outro Paulo. O Paulo meu amigo, autor de outro amigo meu, o seu texto, amigo da leitura, e da literatura. Não há textos chatos, nem amigos chatos. Há amizade e boa leitura."
Escrito por Paulo Gustavo às 18h37
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LULA, O CÂNCER E O CIGARRO Nenhum fumante ou ex-fumante deveria se surpreender se, um nada belo dia, tiver o diagnóstico de que está com câncer. Mas, supreendentemente (!), é o que mais ocorre. Por uma dessas fatalidades da vida, temos, no mais das vezes, a percepção equivocada do que somos e do que temos. Além disso, tudo é uma potente abstração - tudo é alheio - até sentirmos na própria pele a labareda nos queimar. Ninguém vê, como lembrava Guimarães Rosa, um palmo atrás do seu nariz! Nada tão milenar, nada tão atual! Para se combater o cigarro, não basta patrulhar a sua vítima - o fumante. É preciso a compreensão de que é um dependente químico como qualquer outro e que, na maioria das vezes, não pode se libertar sozinho do cigarro. É preciso ajudá-lo, convencê-lo e compartilhar com ele de que é mesmo difícil deixar de fumar. Segundo alguns cientistas, a droga que causa mais dependência é justamente a nicotina. É simples, é verdadeiro e é preciso ser divulgado para atenuar o sentimento de culpa dos fumantes. Afinal, não será apenas tendo culpa que eles se libertarão da dependência. Ser dependente não é uma safadeza, não é uma moleza, é uma injunção digamos neurológica. O ex-presidente Lula poderia - e faria um imenso bem à saúde dos brasileiros - se agora, vendo agravada a sua situação por um tumor na laringe, viesse a público condenar o cigarro, não os fumantes. Quer haja ou não fatores genéticos na doença de Lula, é preciso reconhecer, por trás da cena, o demônio aceso do cigarro. É preciso que Lula se coloque no lugar saudável do ex-fumante para vislumbrar a saúde. Mas, claro, precisamos sempre reconhecer que as raízes do cigarro têm profundidades abissais na mente do fumante. Sim, é preciso cortá-las todas e é preciso truques para enganar o próprio cérebro de um viciado. O atual cerco ao cigarro já vem tarde, pois é fato que desde a década de 1960 já se sabia que o cigarro é uma bomba do mal a implodir nossa saúde. Mas esse conhecimento científico para um fumante "convicto" não passa de fumaça, não passa de um sopro... Falta compreensão e tolerância ao fumante. E não basta um espelho para que se veja na sua miséria. É preciso evitar que seja apenas um menino teimoso, excitado em dizer não. É preciso tomar uma droga medicinal para deixar de fumar. Como ex-fumante, é o que penso. Não me surpreenderia com o câncer. O que me surpreende é a saúde. Quem dirá que não é uma boa surpresa?
Escrito por Paulo Gustavo às 20h23
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Veredas da Liderança em Guimarães Rosa É discutível que a liderança possa de fato ser ensinada — pelo menos no sentido de ser transmitida —, não obstante haver cursos e livros destinados a esse fim. O tema tem vasta bibliografia e é naturalmente controverso pelos aspectos psicológicos e subjetivos que lhe são inerentes. À parte isso, penso que vale a pena refleti-lo à luz da literatura, como o fez o professor Joseph Badaracco Jr., da Harvard Business School, no livro Uma questão de caráter: como a literatura ajuda a identificar a essência da liderança, lançado no Brasil em 2007. Como representação socioexistencial, não é de hoje que a literatura fornece um abundante material de análise. E foi sob esse aspecto que o professor Badaracco foi buscar em obras de nomes como Sófocles, Scott Fitzgerald e Joseph Conrad exemplos de variadas lideranças que tanto se impõem como... se esfacelam. No Brasil, pela proximidade que tenho com Guimarães Rosa, cujo centenário de nascimento transcorre este ano, ocorre-me lembrar sua obra-prima, Grande Sertão: Veredas, na qual, em meio à complexidade literária, se revela a liderança de Riobaldo, personagem principal e narrador da história. Penso que em Riobaldo, chefe jagunço e semiletrado, cristaliza-se uma inequívoca trajetória de liderança. Mas ele — em cujo nome, como já foi observado, encontram-se as antecipadoras palavras rio e baldo (em vão) — não é inicialmente um líder. Pelo contrário, subjugado por códigos praticamente medievais e guerreiros, é, a princípio, apenas um tímido e atento aprendiz e só aos poucos se destaca dos demais companheiros jagunços. Riobaldo, como costuma acontecer, forma-se e torna-se líder. Para tanto, estuda, observa, treina e... ama, adquirindo, com seu amor por Diadorim, a coragem que de saída lhe falta. Apesar do seu esforço intelectual, traz em si, como já observado pela crítica literária, um espírito hamletiano em que uma dúvida obsessiva impede-o de avançar na realidade prática. Então, para liderar e vencer, vende sua alma num pacto com o demônio, o que, independentemente da problematização conferida pelas várias vertentes da obra, parece lhe conferir um poder sobrenatural. Com esse artifício, exorciza suas últimas fraquezas e conduz seus homens com a autoridade de quem antes se convenceu a si mesmo. Tal condução eficaz, alegorizada pelo rito de passagem de um grande e hostil deserto, leva-o a triunfar sobre as dificuldades internas e externas, em busca de sua meta final — a vitória sobre a facção dos inimigos. Na obra-prima que é o Grande Sertão, ampla metáfora de um mundo agônico, onde são decisivos os signos da travessia e do homem a caminho, a liderança é um dos maiores subtemas e, com certeza, não se restringe apenas a Riobaldo. Ele próprio, ao se referir e celebrar as demais chefias que o precedem, também compõe um painel diversificado de qualidades de liderança, destacando-se, nesse sentido, os soberbos perfis de Joca Ramiro, Medeiro Vaz e Zé Bebelo. Estes são “chefes” justamente porque são líderes. Deles, Riobaldo adquire sabedoria, habilidades e características próprias de um líder que honra e incorpora a tradição dos predecessores. Ocorre, no entanto, que a liderança de Riobaldo, como tantas outras, também falha, e logo no clímax da narrativa! Todo o seu longo e árduo preparo não foi suficiente para o enfrentamento final. A vitória última que redimiria a todos só indiretamente conta com a sua participação. Toda a sua técnica e toda a sua intuição ficaram como que embotadas pela emoção de testemunhar, no duelo final, a ação decisiva de Diadorim, que, ocupando assim o lugar da liderança prática, paga, com a morte, o ambicionado triunfo. Traído por esse aspecto subjetivo e psicológico, entrega-se à expiação de mais uma culpa, dessa vez duplamente imperdoável e da qual o seu monólogo narrativo é o próprio espelho. Mas talvez haja uma última lição, tão discreta quanto importante, a ser extraída de tal desfecho: não se deve confiar ao “demônio” a liderança, pois a conta, como se vê, pode ser muito alta!
Escrito por Paulo Gustavo às 20h25
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OS QUE NASCERAM ANTES DE 1945 Autoria: anônimo Õ Nós nascemos antes da televisão, da penicilina, da vacina Sabin, da comida congelada, da fralda descartável, da cópia xerox, do plástico, das lentes de contato e da pílula anticoncepcional. Õ Nós nascemos antes do radar, dos cartões de crédito, da fissão do átomos, do raio laser e das esferográficas; antes das máquinas de lavar pratos, das secadoras de roupas, dos cobertores elétricos, do ar-condicionado, antes do homem andar na Lua. Õ Nós casávamos primeiro, só depois morávamos juntos. Gente estranha, não? Õ Nós nascemos antes dos direitos dos gays, da mulher que trabalha dentro e fora de casa; antes da produção independente de filhos; antes da terapia em grupo, dos spas e dos flats. Õ Nunca tínhamos ouvido falar em fita cassete, máquinas de escrever elétricas, videogames, computadores, danoninho e rapazes de brinco. Õ Nos nossos dias, fumavam-se cigarros, erva era usada pra fazer chá, coca era um refrigerante e pó era sujeira. Õ Embalo era como se fazia as crianças dormirem, lambada era chicotada, fio dental servia para higiene bucal e malhar era coisa de ferreiro. Õ Nossa geração era tão boba a ponto de pensar que era preciso um marido para as mulheres terem um bebê. Õ Não é de espantar que estejamos tão confusos e haja lacunas entre as gerações. Õ Mas nós vivíamos. Õ Sim, nós vivíamos e continuaremos a viver apesar da próxima invenção.
Escrito por Paulo Gustavo às 19h53
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