Somente a noite realça certas cenas. Somente a noite cria algumas pessoas, como se ela própria, a noite, vivesse um longo e indizível sonho. Somente a noite expulsa a tirania cartesiana do sol. Os mais simples desejos do dia crescem e se alimentam no conforto negro da noite. Recortados pela penumbra, os amantes se voltam para si mesmos e para o prazer. Mesmo os solitários sentem-se mais acompanhados e mais fortes em sua invisível multidão. Toda música é melhor ouvida quando a noite chega, quando dialoga com o silêncio criado pela noite. As mãos que tocam, tocam melhor à noite. O beijo que silencia conflitos vem se adoçar na noite, nas flores ignoradas do dia. Até as despedidas noturnas são menos despedidas e deixam no ar a promessa de surpreendentes correntezas. Melhor que qualquer bebida, é o álcool da noite que, por instantes, nos dá a ilusão de que tudo enfim é puro, compreensível e inadiável.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h46
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A PERGUNTA DO REI
A menos que o silêncio seja estratégico, não se deve deixar um canalha falar muito. Quando fala, domina e ganha espaço. No recente episódio entre o rei da Espanha e Chávez, pode-se dizer que o monarca foi até gentil e disse, numa pergunta, o que muitos gostariam de ter dito: por que não se cala? Os simpatizantes de Chávez, fingindo desconhecer o ídolo e sua eloqüência literalmente opressora, querem nos fazer crer que o rei foi autoritário, quando na verdade o rei apenas reagiu à habitual falta de compostura do pretenso estadista venezuelano. Naturalmente, Chávez, com a habilidade instintiva de comunicador e de “guia” do seu povo, inoculou no episódio uma significação política e cultural. Como diz um velho ditado, quem diz o quer ouve o que não quer. A autoridade moral do rei não serve ao imperialismo, como pensam os chavistas, mas ao respeito e à educação, sem os quais não há bom entendimento — nem entre governantes nem entre quem quer que seja. Dessa vez, não foi o rei que ficou nu, mas o homem forte da Venezuela.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h54
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O SAMBA É A ÁFRICA ENTRE NÓS
“Quem não gosta de samba/Bom sujeito não é...” Este último verso de Caymmi bem que poderia ser “Brasileiro não é”, tal a significação do samba para o Brasil, como se o gênero musical fosse não uma fonte de inspiração, mas, antes, o ponto de convergência e de síntese a que chegaram a voz da África e o próprio País. Como lamento ou expressão de felicidade, o samba é uma criação do Brasil para o mundo. As demais criações vêm atrás, em humilde cortejo. O samba não tem a vaidade triunfal que habita certas obras ou que as circundam. O samba como que se impõe naturalmente, como se todos os brasileiros de alguma forma já tivessem nascido com ele. Roda de samba, qualquer que seja a interpretação musicológica ou histórico-antropológica dessa expressão, penso que ela nos recorda de imediato o contágio vital do samba, a vida coletiva que ele faz brotar e da qual é um relevante espelho. Na verdade, dialogando com o verso de Caymmi, não precisamos, os brasileiros, “gostar de samba”, ele já está em nós como aquela marca indelével do negro que Gilberto Freyre, no rastro de Nabuco, chegou a enxergar na cultura nacional.
Escrito por Paulo Gustavo às 10h55
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ÁGUA DE BEBER
É refrescante a notícia de que o Governador de Pernambuco, Eduardo Campos, está enviando projeto à Assembléia destinado a fiscalizar a água mineral, propiciando a qualidade que o precioso líquido deve ter. É sabido que o Recife é uma das cidades brasileiras que têm um dos maiores consumos de água mineral do País. Por outro lado, sabe-se que 70% das doenças nos chegam pela água que se bebe. Cuidar da qualidade da água mineral — hoje item indispensável — é, portanto, um dever líquido e certo das autoridades. Quando nada, quando nada, evitar-se-ão muitos males e prejuízos futuros.
Na dúvida, ao escolher, prefira sempre água mineral com gás. É mais difícil a falsificação.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h17
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NO CAMPO DAS PRINCESAS
O Palácio do Campo das Princesas é o poético nome do palácio do governo de Pernambuco, que foi erguido sobre onde outrora Maurício de Nassau mandou erguer o Palácio de Friburgo. Situado na extremidade norte da ilha de Antônio Vaz, que olha para Olinda, o prédio debruça sua fachada para a Praça da República, onde, igualmente solenes e majestosos, se encontram o Teatro de Santa Isabel e o Palácio da Justiça, formando, assim, com o Capibaribe, que o enlaça, um dos mais belos sítios da capital pernambucana.
Numa iniciativa louvável, o Governo do Estado, desde agosto passado, abriu o Campo das Princesas à visitação pública, franqueando aos visitantes o acesso às suas obras de arte, a seus salões, a seu rico mobiliário. Mesmo o Gabinete do Governador pode ser visto e apreciado. Naturalmente, as visitas, guiadas, são uma verdadeira aula sobre Pernambuco e o Brasil. Além da brisa marinha, respira-se a própria história e, com alguma imaginação, ressuscita-se um passado heróico e libertário.
Escrito por Paulo Gustavo às 12h37
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SANTO ALIADO!
Frei José de Lorena, da Ordem dos Sacanas Menores, em mensagem confusa, ataca de turismólogo
“Paulo querido, o turismo pernambucano que anda meio na retranca já pode contar com as bênçãos do Além. O presidente da Empetur é médium e está psicografando Dom Helder Camara, lançou até livro. Agora, a coisa vai, por aqui, no nosso Aquém. Trata-se de um santo aliado numa hora difícil do nosso turismo. Em vida, Dom Helder já era uma espécie de ponto turístico, assim como Gilberto Freyre, com quem aliás não se bicava... (Bicar-se-ão no Além?) Dom Helder no turismo, essa é muito boa. Sabe-se que foi um emérito viajante, levantando, pelo mundo, o tapete sobre a sujeira da ditadura militar. Espera-se que agora não queira mostrar a nossos visitantes as palafitas miseráveis que pendem sobre o Capibaribe nem propor passeios nas centenas de favelas do Recife. Por outro lado, soube que Dom Helder já se encontrou com Nelson Rodrigues, com quem também não se bicava, que disse que ele só olhava pro céu pra saber se ia chover. Soube que São Pedro os acolheu em sua celeste mansão, embora tenha repreendido a ambos por serem muito teatrais (o médium não me explicou este adjetivo tão terreno!). Por via das dúvidas, o bom Pedro os colocou em quartos bem separados. E você, Paulo, me perguntará o que será que o secretário Chaves acha do novo aliado. Não sei, Paulo, pois ora ele abre, ora ele fecha, ora fica dando voltas. Uma coisa é certa: precisamos rezar muito pelo desenvolvimento do nosso turismo. Até breve!”
Escrito por Paulo Gustavo às 11h38
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