PSICOSSOCIOLOGIA DUMA HERANÇA
Para Sebastião Vila Nova
Em Pernambuco, o Açúcar
Deixou sinais bem amargos
— Deixou distâncias de nunca
No que toca ao simples trato;
Deixou os homens de luva
Para apanhar outros homens
— Deixou entre eles a dúvida
Como escada e como ponte.
Em Pernambuco, os engenhos
Deixaram estranhas rugas
— Por elas corre o veneno
Que é conviver em mão única.
Fechado, o pernambucano
Não tem chaves para a rua.
Quanto as tem, abre-se em ranço.
No ranço, se mexe o Açúcar!
Do meu livro O Que Te Trai, O Que Te Cala,
Prefeitura da Cidade do Recife, 1992
Escrito por Paulo Gustavo às 14h06
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Ninguém estranhe que analfabetos e iletrados em geral se arvorem em escritores. Eles precisam desse exercício de amor próprio. Em todas as épocas, sempre houve essa categoria de ignorantes que querem passar um verniz em suas toscas sensibilidades. É um direito que não se deve lhes ser negado. Eles mostram, pelo negativo, o que não deve ser feito. Explodem rapidamente como certos fogos de artifício. Têm o orgulho da pólvora redescoberta. Aqui e ali, podem até cometer coisas brilhantes: é o que o crítico Agripino Grieco, hoje famoso por suas tiradas do que por sua obra, dizia ser a faísca da ferradura na calçada. De resto, as palavras estão sempre à mão ou na ponta da língua, sempre fáceis para quem adora facilidades. Não são os bons escritores que enxotam tais arrivistas de seu círculo, é o tempo, o trabalho silencioso do tempo. Entre antas e toupeiras, não se deve perder um precioso tempo, mas apenas sentir um pouco dessa curiosa vitalidade que afugenta as delícias da literatura mais duradoura.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h55
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OSSO DURO E OSSO MOLE
Leio no portal Terra que um cãozinho americano — um maltês que herdou de sua dona uma fortuna milionária — está sendo ameaçado de morte. O mimoso e afortunado bichinho não tem mais sossego. Fareja, o pobre, digo, o rico cãozinho, uma terrível cilada para lhe roubarem os seus milhões de dólares. Para disfarçar e lhe dar segurança, seus tutores até já o chamam por outro nome. Enquanto o cãozinho passa, a carruagem ladra, invejosa e enciumada de seu dinheiro. Diz ainda a notícia que a finada milionária nada deixou para dois netos, que, aqui, logo poderíamos supor que são uns verdadeiros cachorros! Já o órfão quadrúpede (quando Deus quer é assim!) vai com suas patas pisando delicadamente no ouro da vovó. Bom, para quem sobreviveu à distinta milionária o osso é mesmo duro de roer. Por muito menos do que tal herança, muita gente cai de quatro e late com fidelidade canina.
Escrito por Paulo Gustavo às 12h54
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EXAME OBRIGATÓRIO
Frei José de Lorena, da Ordem dos Sacanas Menores, comenta projeto do deputado e estilista federal Clodovil Hernandez
“Paulo querido, essa é muito boa e, como diria Frei Simão [o Macaco Simão], é uma piada pronta. O Clodovil elaborou projeto de lei tornando obrigatório o exame de próstata. É a institucionalização do “vá tomar no cu”, dessa feita de uma forma clínica, preventiva e absolutamente legal e discreta. Tem gente até que vai querer levar pau no exame para depois fazer de novo. O Clodovil sabe do que está falando, ninguém pode negar. Essa é pro cidadão cair de quatro pela força da lei ou pela delicadeza do médico. Vôte!, como se diz no Nordeste, o Clodovil é gente que faz com a maior dignidade. Não tem rabo preso e, claro, só vê o rabo dos outros. Só peço a ele uma exceção para os religiosos, especialmente os da Ordem dos Sacanas Menores. Clô, me inclua fora dessa!”
Escrito por Paulo Gustavo às 10h13
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A FILA DO PRESÍDIO ANÍBAL BRUNO
Domingo, pela manhã, testemunhei, involuntariamente, a longa fila de visita aos presidiários do Aníbal Bruno, no bairro do Curado, no Recife. Um espetáculo degradante que tinha tudo para ser evitado, aliás como a recente tragédia que ensangüentou ainda mais aquela unidade prisional. Um sol escaldante e implacável sobre centenas de mulheres em pé — mães, parceiras, irmãs e filhas de detentos — numa longa e cansativa espera do lado de fora do presídio. Uma cena desumana, que depõe contra todos os responsáveis pela segurança em Pernambuco, mostrando o desprezo que se confere aos despossuídos, que, na sua dramática existência, mais parecem saídos de uma única, imensa e miserável senzala. Também ali estava condenados, sem ao menos terem o direito de esperarem com o mínimo de dignidade.
Escrito por Paulo Gustavo às 10h22
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