SONETO DE NATAL
Ângelo Monteiro
Anjos desdobram asas de cristal
por sobre a manjedoura colorida
em que Jesus nasceu. Paço real
de toda a humanidade redimida.
Nela dormiu infante, e convertida
de berço em trono – o berço em que foi Rei –
será sempre por magos protegida,
poro magos e pastores, santa grei.
E, isenta de pecado desde a origem,
Miriam, sua mãe, cheia de graça,
aquela que foi mãe, posto que virgem,
nela anuncia ao mundo o Rei Jesus:
o infante cujo reino jamais passa,
como não passa o sol e a sua luz.
Escrito por Paulo Gustavo às 16h17
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FREI JOSÉ DE LORENA, DA O. S. M., ESCREVE CARTA DE APOIO FRATERNO
A DOM CAPPIO, BISPO DE BARRA (BA)
"Caro Irmão Cappio:
A Ordem dos Sacanas Menores apóia tua greve de fome. Nada de fome zero. Vamos barrar a transposição. O Velho Chico deve ficar onde está, até porque já está velho mesmo. Mas, caro Irmão, não vá esta tua greve dar em água mais uma vez, não deves dar com os burros n’água. Irmão, sei que és forte, que as melancias te hidratam, que o povo te apóia. Aqui no Rio também sou contra a transposição do Rio, que alguns querem levar para São Paulo há muito tempo. Já fiz greve também junto com o Lula. Foi no ABC. Ficamos nessas primeiras letras. Lula era magro e eu também. Mas, Irmão Cappio, os tempos mudam, os tempos ululam. Eu também ululo enquanto sofres de estômago vazio, onde só piedosas melancias estão entrando. Cá no Rio, hidrato-me com um chopp bem gelado (falo isso para fraternalmente provocar a tua fé inabalável) enquanto ninfas gentis assaltam, em pleno calçadão de Copacabana, a minha frágil castidade. Sei que te apóio, Irmão, de longe, mas..., mantém a fé, pois o sertão vai virar mar e aí ninguém falará mais nessa porra de transposição. Para terminar, rogo a tua aquática bênção (desde que não ponhas água no meu chopp), desejando-te um Natal de barriga cheia e repleto de rosadas ninfas sertanejas.
Frei José de Lorena, O. S. M."
Escrito por Paulo Gustavo às 11h36
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LUIZ DO NASCIMENTO, ABELHA!
Conheci o historiador da imprensa de Pernambuco na minha infância. Era, como se dizia, já “entrado em anos”. Vivia, então, para coletar as informações de sua obra monumental e beneditina. Tinha horror à televisão e era severo com as crianças. O imenso nariz acostumara-se ao pó dos arquivos e das bibliotecas. Após o almoço, costumava dar uma volta a pé para fazer a digestão. Nesses passeios, me apontava os nomes das ruas, fazendo uma concisa biografia do homenageado. Atento, eu ouvia sua voz pausada ir me revelando poetas, jornalistas, políticos e historiadores... Imagino que a minha própria digestão era mental, intelectual, mesmo que não entendesse muito do que falava. Uma vez dado o passeio digestivo, voltava a enclausurar-se no seu gabinete, fora do qual se podiam ouvir os ecos da velha máquina de escrever. Ali detestava ser interrompido, sacerdote de um culto único e pessoal. Falava pouco e escrevia muito, rastreando as letras de forma no mapa de Pernambuco, ressuscitando, para a memória, de par com os jornais mais célebres, esquecidas gazetas e inacreditáveis periódicos. “Uma obra de abelha”, como escreveu sobre ela Câmara Cascudo. Nela deixaria o mel onde as gerações futuras têm vindo sorver uma história que, graças a ele, Nascimento, sobreviveu.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h32
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CONFRATERNIZAÇÕES
O tempo é de insuportáveis confraternizações. Mesas imensas nos bares da vida. Personagens afetadas, dramáticas, falando alto, dizendo o mesmo discurso dos anos anteriores. O tempo é de “canhões” sorridentes, esperançosos de, no crepúsculo do ano, levantarem uma alvorada para o sexo insatisfeito. O tempo é de dinossauros velhos e gordos, só agora herbívoros, que guardam nas suas rotundas panças todos os gases que sufocaram ao longo do ano. O tempo é de beijar em série as faces amassadas como os próprios dias. Comemora-se o improvável. Os amigos ocultos se desiludem com os presentes sonhados. Presentes impagáveis. Nada como um presente atrás do outro, como um exército de recrutas perdidos numa batalha esquecida. De repente, um verso, uma canção, prende no ar a essência da poesia domesticada. A curva de um seio e a sombra de um olhar se encontram na penumbra. Uma mão embriagada enlaça outra mão embriagada. Alguém chora porque bebeu demais. Descobriu que era um baú de recordações intragáveis. Por que não faz ioga? Respirar é fundamental. Cuidado com a pressão. Sempre soube que ele era canalha. Etc. Etc.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h52
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X É Y
X gosta de pompa, de brilho, de excelências. O refinamento lhe é algo todo exterior, social. X escreve como quem bate o ponto numa repartição pública. X — pode-se dizer — alimenta secretamente grandes esperanças. Sente-se maior que sua modesta inteligência. Quando fala em público, sua voz não apenas treme como sobe algumas oitavas. Sentir-se escutado por uma platéia leva-o a orgasmos mentais. X, na verdade, é Y. Mas penso que há um Y desconhecido para ele mesmo, um segundo Y que o sufoca antes de dormir entre algumas cópias de idéias ligeiras. Este segundo Y, sem que ele perceba, transparece no seu olhar, cola-se como um lodo no seu interlocutor, tem o visgo de uma fruta indesejada e amarga. O curioso é que X poderia ser Z. Como Z, talvez fosse feliz e honesto. Mas Z é a última letra, e X, movido por algum demônio, só olha para A, que resplandece desde o início dos tempos, que olha com desdém para todas as letras existentes e por existir.
Escrito por Paulo Gustavo às 00h15
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