“Se um tanto de sonho é perigoso, não é menos sonho que há de curá-lo, e sim mais sonho, todo o sonho. É preciso conhecer totalmente os nossos sonhos, para não sofrermos mais com eles.” Marcel Proust
LEITORES/AS AMIGOS/AS,
ESTE BLOG ENTRA EM RECESSO ATÉ O DIA 04 DE JANEIRO PRÓXIMO.
O BLOGUEIRO AGRADECE A LEITURA E A ATENÇÃO AO LONGO DE 2007.
BOAS-FESTAS E FELIZ 2008!
Escrito por Paulo Gustavo às 12h52
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FREI JOSÉ DE LORENA, DA ORDEM DOS SACANAS MENORES,
ENTRA EM GREVE DE FOME POR LETÍCIA SABATELLA
“Paulo querido, estou fazendo greve de fome pra ver se a Letícia Sabatella vem me visitar. Quero porque quero a transposição da Letícia para mim. Olha, já estou programando vários banhos de rio pra nós dois, longe das câmeras naturalmente. A Letícia chegando, acabo a greve e vou comer bem. Também contratei um barco pra gente passear, com uma carranca bem feia pra afastar os intrusos. Povo folgado! Já estou de água na boca só de pensar na Sabatella, não vai faltar água no São Francisco e eu vou ficar totalmente revitalizado. É pra matar o Cappio de inveja, se é que a Letícia não vai apressar a morte desse mofino! Aliás, Paulo, você também já se considere um homem morto. Agora no Natal, aquela graça vai ter uma missa do galo só pra ela. O galo sou eu, claro, ahahahah! Vai ser missa de hora em hora. Aquele jeitinho de santa não me engana.
Frei José de Lorena, bispo adjunto de Barra (Mansa)”
Escrito por Paulo Gustavo às 10h21
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SUMIÇO DE NATAL (conto)
José era um pobre-diabo das redondezas, não tinha família nem salário. Trabalhava, mas bebia muito da branquinha. Valia-lhe o bom humor, a boa disposição. Nos natais, sempre desaparecia, humilhado pela festa, pelas casas que reuniam as famílias, pelos pratos apenas adivinhados. Não adiantava ninguém lhe dizer: passe aqui no Natal, venha para a festa. A consciência de não ter classe lhe falava mais alto. Sumia na solidão. Neste ano, seria diferente. A família do Dr. Lutero fizera-lhe um cerco, dera-lhe muito trabalho. As horas foram passando e José, estranhamente, foi se deixando ficar, galo sem missa. Nada de seu tradicional sumiço. Estava ali à vista de todos, trabalhando sem parar.
A festa ia ser grande, com gente de fora, com várias gerações se abraçando entre brindes sem fim. José parecia disposto a enfrentar a festa, alegre no seu nada quase nada casual. Os convidados começaram a chegar na casa do Dr. Lutero. O pobre diabo ajudava os outros empregados. Entre uma tarefa e outra, davam-lhe uma cachacinha. Mais uma, José? Mais uma, claro. Na hora misteriosa da meia-noite, ele, com os olhos já vermelhos e a voz arrastada, não se agüentou mais de pé. Deitou-se e adormeceu. A velha empregada da casa resmungou: “Mas ele nem esperou a janta! Que falta de educação!”. Junto da casa do cachorro, José dormia impreterivelmente como um cidadão de outro mundo. No dia seguinte, sem que ninguém visse, sumiu. Dessa vez, para sempre.
Escrito por Paulo Gustavo às 17h55
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CARTA DE FREI JOSÉ DE LORENA,
DA ORDEM DOS SACANAS MENORES, A OSCAR NIEMEYER
“Caro Nini, meu gênio vermelho e amigo, perdoa minha ausência nos teus 100. Recebi o convite, mas não deu. Nessa época, é muita missa pra celebrar, muito pecado pra perdoar, muita empada pra botar azeitona. Queria estar aí no Rio pra te dar uns 100 abraços e ouvir pela centésima vez tu dizeres que “isso não é importante”, que “a arquitetura não é importante”, que a “vida é que é importante”. Tu és incrível, meu velho! Aliás na qualidade de velho secular, tás inteiraço, meu irmão! Como a tua fé no finado comunismo. O Muro caiu, mas o esplendor de tuas curvas jamais cairá. Se Deus quiser, o mundo será vermelho como um poente de Brasília.
Imagino, Nini, que estás de saco cheio com tanta comemoração. Mas isso também não tem importância. Fazer 100 anos mata qualquer um, haja vista o comunismo, que logo empacotou... Menos para ti, é claro, que, depois de Deus, arredondaste o mundo. Bom, não quero me alongar e tomar teu tempo, que sei curto (no bom sentido, claro!). Espero em breve passar aí no Rio pra gente fazer uma farrinha com muita (melhor dizendo, com alguma) sacanagem. Ou isso também não é importante?
Receba 100 bênçãos especiais (uma delas deve prestar!)
do admirador que também ‘não é importante’.”
Escrito por Paulo Gustavo às 12h24
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PRESENTE DE NATAL (Conto)
A escolha foi árdua, mas o presente estava ali. O presenteado não merecia um terço do presente. O presente parecia arfar como um animal na jaula da embalagem. Fica quieto, presente! — pensei eu, dando uma leve palmada no papel colorido. O papel afundou um pouco, mas o presente manteve a pose. Quanta fila! Quanto trânsito! Quanto suor! Encarei de novo o embrulho. O brilho do papel piscava com cumplicidade. O presenteado — repito — não merecia um terço do presente, e agora acrescento: nem do meu esforço em comprá-lo. O presente parecia me dizer: por que me compraste, imbecil? Sinceramente, não gosto de presentes que falam. O presente agora parecia falar mais alto. Além de tudo era insolente (palavra fora de moda, mas misteriosamente ainda compreensível). Arfava e falava, queria respirar. Encarei-o com calma e murmurei com suave rancor: você vai ver só com quem você vai conviver, vocês dois se merecem. O papel laminado piscou como um míope. Detesto presentes que piscam, devo acrescentar. Pensando melhor, não vou mais destiná-lo a seu futuro dono. Penso que ele nem desconfiará que iria receber um presente meu. Voltei-me para o embrulho: teu destino mudou, meu caro, que saia justa! Dei-lhe outra palmadinha, quase rasguei o papel. O presente quis aparecer. Meu estômago embrulhou-se. Guardei o pacote num lugar secreto. O Natal passou. E o ano-novo. E o dia de reis. No dia seguinte, voltei com o presente à loja. Troquei-o sem remorso por um perfume que nunca usei.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h00
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