No poema abaixo, publicado no meu livro O que te trai, o que te cala (Recife, 1992), há uma visão do bairro recifense de Casa Forte. Mas uma visão que hoje talvez muita gente já não compreenda, pois o bairro, nos últimos anos, passou por uma imensa invasão imobiliária. A Casa Forte de então — a da minha infância —, ainda tranqüila e mais verde do que a atual, vivia como que paralisada no tempo, entre cristais de tempos, como um grande animal pré-histórico que aguardasse a hora de sua ressurreição. Hoje, sobre os sítios do velho engenho ancestral, as gerações presentes “fazem seu almoço sobre a relva” das torrres gigantescas...

NOTURNO DE CASA-FORTE


Assim tão longamente a lua outrora

E a neblina sem frio do passado

Que vem de muito longe e vai embora

Solene para o leve já levado.


E as casas poderosas no seu sono

Melodiosas casas embaladas

Pelo murmúrio ardente do abandono

Em igrejas de notas transpassadas.


Ó ruas de ruínas vagalumes

E o vento que não vê o cego vento

Atado nas palmeiras com seu gume

Para nada ferir com movimento.


Ó verde quem te quis fogo de frio

Em musgo labareda mar e monte

A vida verde como verde um rio

Na luz que não é luz mas horizonte.




 Escrito por Paulo Gustavo às 17h02 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

FREVO: “BÊNÇÃO PAPAL” !

Ontem à noite na Livraria Cultura, no Recife, foi lançado um belo livro — Frevo: 100 Anos de Folia, concebido por Camilo Cassoli, Luiz Augusto Falcão e Rodrigo Aguiar e com o selo da editora Timbro.


Dividida em sete partes — Evoé/Origens da Festa, Ventania/A música, O Passo/Dança, Chapéu-de-sol/Marca registrada, A Massa/Clubes, blocos e troças, Fluxos/Influência do Frevo; e Centenário/Lembranças da Festa —, a obra reúne imagens que cobrem os cem anos de vida do homenageado: de instantâneos do povo nas ruas do Recife a reproduções de anúncios, de gravuras e de belos quadros de importantes pintores inspirados pelo Frevo. Entre estes, Portinari, Lula Cardoso Ayres, Heitor dos Prazeres, Manoel Bandeira, Augusto Rodrigues, Vicente do Rego Monteiro.


Livro de arte e de referência, produzido em bem cuidada edição, a obra dosa com raro equilíbrio as imagens — que são uma festa, como o próprio frevo, para os olhos — e os textos de escritores e pesquisadores que as “ilustram”, a exemplo de especialistas como Katarina Real, Rita de Cássia Barbosa de Araújo, Mário Sette, Valdemar de Oliveira e Leonardo Dantas Silva. Dentre os escritores (aliás, quase nenhum grande escritor pernambucano ficou imune ao fascínio do frevo), destacam-se as vozes de José Lins do Rego, Gilberto Freyre, Mário Sette, Antônio Maria, Mauro Mota e Austro-Costa.


Desse último — o poeta Austro-Costa (1999-1953) — consta a seguinte quadra:


Não sei se devo ou não devo

Dizer, mas, digo afinal:

- Se até Roma fosse o frevo

Teria a bênção papal.


Quadra, aliás, muito bem aproveitada pelos organizadores que a colocaram face a face com uma foto do papa Bento XVI assistindo a um show de frevo, em São Paulo, na sua visita ao Brasil no ano passado. Enfim, a quadrinha do poeta pernambucano — escrita na década de 1920 — revelou-se praticamente profética: se o frevo não foi a Roma, Roma (seu bispo) veio apreciar o frevo!



 Escrito por Paulo Gustavo às 10h14 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

FREYRE, FREYRES

Paulo Gustavo


Há, por certo, um Freyre essencial que salta das páginas de quatro livros nucleares: Casa-Grande & Senzala; Ordem & Progresso; Sobrados e Mucambos e Nordeste. O essencial — neste caso, nem tão invisível para os olhos — é o Freyre canônico, clássico, ao qual devemos uma obra densa e profunda, cuja facilidade e cujo prazer de leitura não devem nos fazer esquecer o quanto o autor pode ser malcompreendido e folclorizado. Como de fato o foi, talvez menos por ignorância (se tudo não é ignorância) do que por despeito literário e artístico.


Ao lado do Freyre essencial e como a complementá-lo em sua forma de ser escritor, há os outros Freyres, muitos deles clamando por intérpretes, por críticos, por dilatadores de visões, por novos formuladores de sínteses. Há o Freyre articulista e o criador de instituições, o conferencista e o político, o empreendedor e o visionário, o crítico literário e o ficcionista. Sua multiplicidade de interesses e sua versatilidade intelectual levaram-no ao plural de si mesmo. De Pascal, quem sabe, parece ter herdado a noção de que todo homem, ao longo da existência, é uma sucessão de pessoas. Ocorre que, em homens como o nosso autor, há uma verdadeira coexistência de outros eus, menos talvez por um estilização pessoal — em que não faltaria a conseqüente estetização de si mesmo — do que por uma ânsia onívora e multifocal. Porque Freyre, sendo muitos Freyres, foi um onívoro. Onívoro de tempo e de saberes, de sensações e de prazeres.


Freyre, sendo Freyres, soube ser, para além do Freyre essencial, um autor inspirador. Com efeito, quem quer que o leia, menos como antropólogo, sociólogo ou historiador social, e mais como escritor, há de reconhecer que nele há sugestões e idéias a serem desenvolvidas e transcriadas, que nele há latências a solicitarem atenções de artistas e pesquisadores. Se, como escreveu Paul Valéry, poeta é sobretudo aquele que nos inspira, não há como deixar de reconhecer o legado plural de sua obra enciclopédica.


Por ocasião de homenagem póstuma, na Fundação Joaquim Nabuco, logo após sua morte, presenciei o filósofo espanhol Julián Marías aconselhar, com evidente acerto, que se completasse a sua obra, resgatando suas potencialidades (“Gilberto Freyre consideraba las cosas desde una pluralidad de puntos de vista.”). Com a lucidez de um filósofo e com a visão que muitas vezes só o homem de outra cultura possui, Marías, naturalmente — de resto, como outros estrangeiros diante da obra de Freyre — logo sentiu o relevo convidativo de suas sugestões e de sua prosa “multidimensional” (para usar o termo com que a ela se referiu Eduardo Portela.) O que Julián Marías viu foram os Freyres em Freyre.


Se podemos dizer, por um lado, que o eixo vertical da obra freyriana é o famoso quarteto de livros já mencionados, podemos dizer também que seu eixo horizontal, sempre co-presente, é atualizado pelos Freyres que se espalham generosamente por muitos e muitos textos, como a nos lembrar que há uma rede, uma teia, a constantemente nos aliciar, seja pelo prazer da leitura, seja pelas intuições que ficam como que camufladas e ofuscadas pelos focos mais visíveis dos interesses dos leitores. Por isso, nenhum dos Freyres é uma ilha.


Nenhum dos Freyres é uma ilha, mas há Freyres submersos que não devem ser silenciados, sob pena de nosso aparato crítico não ser competente para investigá-los. Não há porque os estudiosos, numa ótica reducionista, deixarem de ver o pluralismo a que Portela e alguns outros já se referiram. Freyre, enquanto autor, vive o mesmo exílio do homem: é o solitário, o inclassificável, o transgressor de gêneros, muito embora, paradoxalmente, pertença a uma geração brilhante de intelectuais brasileiros. A pergunta sobre o contraditório em Freyre se dilui, se o contexto do pluralismo de fato se impõe. De nossa parte, arriscamos a teoria de que, tanto no homem como na obra, houve o que ele mesmo flagrou na formação da sociedade brasileira: um equilíbrio de antagonismos. Freyre por Freyre — incompetência da nossa crítica ou o começo de um ainda longo caminho a percorrer? Com efeito, eis mais uma sedução do autor, como se nos dissesse: se me compreendem tão pouco, deixo-os com as tábuas de minha lei, talvez assim não se percam tanto.


Assim, o próprio Freyre nos lembra os Freyres que desperdiçamos. De qualquer forma, todos eles são um patrimônio a preservar. Como escreveu Merquior, “um jequitibá nasceu em nosso quintal”. Nem por isso precisamos comprometer a nossa ecologia provinciana, tampouco fazer do espanto nosso único cuidado. Freyre merece muito mais.


Paulo Gustavo, escritor e Mestre em Teoria da Literatura

Recife, 1999



 Escrito por Paulo Gustavo às 10h13 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

BRASIL: POUQUÍSSIMAS MORTES NAS ESTRADAS!


No Brasil, há pouqúissimas mortes e acidentes nas estradas. Pensará o leitor que enlouqueci ou que estou “babando na gravata”, para usar uma expressão de Nelson Rodrigues (autor que, como sabem meus amigos, cito muito antes da onda nelson-rodrigueana que assola os intelectuais e jornalistas). Repito que há pouquíssimas, excassas, mortes nas estradas. Bem, isso se levarmos em conta a IMPRUDÊNCIA dos motoristas.


O motorista nacional é, antes de tudo, um imprudente. Jovem ou de cabelos brancos, a estrada para ele é uma espécie de palco para a roleta russa que põe em risco sua vida e a dos outros. Na estrada, o por vezes até pacato cidadão brasileiro se transforma: transforma-se num gigante enlouquecido, arrogante e brutal. Por uma espécie de complexo psicológico e de compensação, quer estar na frente, quer ter a velocidade que de fato não tem, quer chegar antes dos amigos e familiares. Faz da estrada um joguinho “inofensivo” que lava, enxuga e põe no sol a sua alma desvairada. Na estrada, o brasileiro encarna uma personagem ainda a ser estudada, como se, livre de amarras sociais que o oprimem, voltasse à liberdade que, paradoxalmente, o aproxima da morte e da invalidez.





 Escrito por Paulo Gustavo às 09h33 [   ] [ envie esta mensagem ]


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