PRESÍDIO NO CABO DE SANTO AGOSTINHO:

QUE PRAIA É ESSA?


Um dos presídios planejados para Pernambuco — dizem os jornais — será no Cabo de Santo Agostinho. Bem, desconheço se há contrapartidas para o Estado de Pernambuco ou o município. Mas, quaisquer que sejam estas (se é que existem), o fato é que o Cabo, ao sul do Recife, já abriga indústrias e o terminal portuário de Suape, além, e sobretudo!, algumas das mais belas praias do litoral pernambucano. Em breve, também contará com o estaleiro e a Refinaria Abreu e Lima. Noutras palavras, o Cabo e região estão em vias de darem um salto de desenvolvimento e de urbanização, tornando-se uma cobiçada vitrine de obras e de dinamismo social e turístico.


Isso posto — como dizem os juristas —, não entendo por que um presídio vai parar ali. Um presídio é um presídio é um presídio. Sua vizinhança não é das mais inspiradoras para qualquer criatura normal. Enfim, o óbvio: não combina com um entorno que promete ser uma porta de sol, mar, emprego e renda. O Cabo, talvez o primeiro ponto do Brasil a ter sido visto por marinheiros d’além-mar, não merece uma desgraça dessa. Que misteriosos desígnios estarão presidindo a esse planejamento? Que praia sombria é essa que querem somar às belezas naturais do município? Que ventos estranhos sopram esse planejado presídio, essa nova mas aterradora caravela? Que passem ao largo!



 Escrito por Paulo Gustavo às 16h16 [   ] [ envie esta mensagem ]




 

 

A LITERATURA PERNAMBUCANA: SUA IMPORTÂNCIA PARA O FUTURO

Paulo Gustavo

Apesar de sua sedução moderna pelo espelho de si própria (tão bem prefigurada no Quixote de Cervantes e presente em obras como as de Jorge Luis Borges); apesar do silêncio de que se aproxima; apesar de sua aparente fragilidade, a Literatura insiste em não ser superfície, mas profundidade. Uma profundidade que tanto vem de si mesma quanto dos espíritos que a acolhem e a confirmam ao longo da História. Assim, por mais estranhas ou solitárias que pareçam, as obras são filhas de seu tempo.


Sabe-se que o historiador Fernand Braudel formulou para si a inquietante questão: mostrar como o tempo avança com diferentes velocidades. Permita-me, o leitor, a paródia: a literatura avança com diferentes velocidades. No caso de Pernambuco, é fácil constatar que, ao longo do século 20, houve um sensível amadurecimento. Mas, a rigor, continuam sendo misteriosas as razões por que literaturas amadurecem ou não, inexistindo, como lembrou um insuspeito Karl Marx, uma relação de causalidade direta com a base produtiva e material da sociedade.


No caso pernambucano, é justamente no século 20 — período de decadência da monocultura canavieira e de perda de prestígio econômico do Estado — que florescem importantes poetas e escritores. Há um espírito elegíaco que sublima um passado patriarcal de fausto e poder, do qual poucos e raros de nossos autores escaparam. Mesmo o espírito crítico, tão caro à Literatura e, em particular, à família dos poetas, deixa-se, por vezes, cegar pelo brilho de um longo queixume, de um réquiem que parece jamais terminar, encantado, como Narciso, por sua própria imagem.


Por outro lado, considere-se que Pernambuco, como parte do Brasil, refletiu aquilo que Antônio Cândido, em Formação da Literatura Brasileira, chamou de uma “literatura empenhada”. Com efeito, na sociedade colonial e escravocrata que tivemos, recheada de tantas limitações socioculturais, o escritor assume quase que por uma “fatalidade” um papel de engajamento; dele tendo se cobrado uma voz social, que ecoa desde o nativismo e o regionalismo até a defesa de ideais humanos e igualitários.


Pessoalmente, acredito que ainda nos falte o que freqüenta a melhor literatura de todos os tempos: um sentido metafísico, uma visão mais aguçada da condição humana e da própria Literatura. Suponho que, ao lado da “literatura empenhada” de que fala Cândido, sempre houve, ao longo da História do Brasil, uma literatura beletrista, voltada para um formalismo de superfície, incapaz de ser mais criativa, e caudatária de modismos d’além-mar. Além disso, cabe dizer que o Brasil, numa espécie de transtorno bipolar, vem oscilando entre o delírio de grandeza e a visão míope e paroquial de quem não sabe situar-se no mapa da cultura ocidental.


Centro de gravidade, durante longo tempo, do Norte e do Nordeste do País, Pernambuco, malgrado as patologias de sua história social, abriu-se em pérolas culturais (para retomar a imagem com que Gilberto Freyre encerra seu livro Nordeste) e, entre estas, a literatura. Sobretudo nos campos do Ensaio e da Poesia, o Estado tem se revelado um criador de ponta. O lirismo e a prosa ensaística assumem, com determinados nomes, uma dimensão nacional e uma densidade raras vezes encontrada no País. A ficção, ao que parece, não obstante importantes casos isolados, vem em segundo lugar. Não faço aqui um julgamento de valor mas apresento um dado de realidade. O par Ensaio­–Poesia deve estimular os especialistas a buscar razões para esse fenômeno socioliterário. De resto, lirismo e reflexão conceitual não são tão díspares como se costuma apressadamente imaginar. E provavelmente, no nosso caso, haveria muito a se revelar num estudo de tal natureza.


A emergência de obras como as de Gilberto Freyre e Evaldo Coutinho, ao lado das de vários poetas e prosadores genuínos, já deu à nossa literatura um suporte de grandeza no contexto nacional. É preciso, pois, explorar nossos autores, fazê-los falar para o presente e repercuti-los no futuro. Afinal, toda grande obra está por si mesma impregnada de futuro; não fosse assim, não mais leríamos com prazer os escritores clássicos: o que diriam a nós?


Sim, nossa literatura não só é importante per se como pode contribuir para o futuro de Pernambuco. Todavia, ressalve-se aqui o que René Wellek nos lembra em sua Teoria da Literaturaque a função ou a utilidade da poesia nunca é exatamente um problema ou uma inquietação dos próprios poetas, mas de outros grupos da sociedade. Por isso, para o Belo que emana de toda boa literatura, com o prazer estético que isso implica, acredito que ainda continua valendo o que pensava Kant: vale por si, é uma finalidade sem fim. Mas a reflexão mais profunda ainda nos vem de um poeta, o romântico John Keats, ao afirmar que “Uma coisa bela é uma alegria para sempre.”


À parte isso, em termos pragmáticos e sociais, há que se explorar, com mais intensidade, a nossa literatura, sobretudo observando pontos como identidade, educação, turismo cultural, além de interfaces e aproximações com outras artes, ciências, disciplinas, instituições e atividades culturais (cinema, editoras, gráficas, consultorias, livrarias, audiovisuais, etc.). A “rede literária”, que, de certa forma, antecipou a própria Web, é hoje uma das presenças virtuais mais maciças na Grande Rede. Não obstante haver muito lixo digital, é preciso reconhecer, por outro lado, que nessa presença há sinais de esperança e de fecundidade. Não tenho dúvida de que as “aplicações” e as “funções” da nossa literatura podem ser inúmeras e representar riqueza e desenvolvimento, além do engrandecimento cultural do português, o sétimo idioma mais falado do mundo, mas que ainda tem um desempenho modesto, como língua de cultura, se comparado com idiomas como o alemão, o francês e o italiano.


O século 21 provavelmente haverá de consolidar e ampliar ainda mais o patrimônio literário pernambucano. Mas, para que isso possa acontecer de uma forma conseqüente e eficaz — não custa lembrar —, é preciso que governo e sociedade, juntos, se mobilizem e invistam em Educação, Cultura e distribuição de renda, agilizando um processo de inclusão social que já se torna urgente.




 Escrito por Paulo Gustavo às 18h49 [   ] [ envie esta mensagem ]


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