DURA LEX
Fiscal: — O senhor estava fumando aqui no bar?
— Nunca pus um cigarro na boca.
— E essa fumacinha aí?
— Não sei, acho que é do forno de lenha.
— E essa carteira aí no bolso?
— É de dinheiro.
— Bem, o senhor sabe que a lei é para todos...
— Tô a par. Para todos!...
— É uma questão de saúde pública.
— Tô sabendo. Por falar nisso, saúde!
— Não posso brindar, estou a trabalho! Sou um fiscal.
— Ahhh. Não tem um intervalo?
— Devia ter, né? E se ganha pouco pra se fiscalizar tanta boca e tanta mão...
— Mão também?
— Mão também, a turma é rápida pra apagar o bicho e jogar fora. Quando chego, só encontro fumaça. Não tenho como provar, não vi o cigarro aceso. Mas, diz o ditado, onde há fumaça há fogo.
— É fogo, meu amigo!
— Onde? Onde?
— Nada, o senhor sabe, é só um jeito de falar.
— Bem, tenho de ir, a noite é longa.
— É uma criança...
— O quê? Tem criança fumando por aqui?
— É só um modo de falar... A noite é uma criança.
— Bom, agora vou mesmo, pois o fiscal dos fiscais pode me fiscalizar... Senão, estou fumado!
Garçom: — Trago ou não trago, doutor?
— Não traga nada.
Fiscal: Peraí, quem está tragando o quê?
— É só o verbo trazer no presente do indicativo.
— Desculpe. É que tenho de fiscalizar qualquer sinal suspeito. É o que já falei: onde há fumaça...
— Há fogo!
— Isso!
— Ou será o contrário: onde há fogo há fumaça?
— Prefiro pensar que onde há fumaça há só fumaça.
— Bem, estou ficando confuso...
— Isso é abstinência...
— Tenho de ir mesmo. Me empresta...
— Leva logo essa carteira.
— Ser fiscal não é mole! Escuta essa música que tá tocando: “Acendo um cigarro/ na noite fria...” Não é mole!
— Boca de siri.
— Boca de siri.
Escrito por Paulo Gustavo às 13h35
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