A PROVÍNCIA DO LEÃO
Se a imprensa é um bom índice da psicossociologia de um povo, a imprensa pernambucana é um testemunho do orgulho do Estado. Não só do orgulho, mas da pretensão, da veleidade e do espírito político e combativo dos pernambucanos. Basta um rápido folhear das páginas da História da Imprensa de Pernambuco, de Luiz do Nascimento, para se observar como os diversos grupos sociais se confrontaram no século 20.
Os editoriais dos mais modestos periódicos são primorosos exemplares da parte de leão de cada letrado (ou grupo de letrados) nascido no chamado Leão do Norte. São textos que projetam um espírito crítico e altamente cioso de imaginadas potencialidades. Digo “imaginadas” pelo muito que transpiram de um discurso pomposo e autoritário, tão claros para si próprios que tentam abrir caminhos como se reinventassem a roda. São textos provincianos que tentam não sê-lo ou ignoram sê-lo. É como se cada ideário fosse um facho de luz sobre as trevas gerais da própria província. Esse idealismo exacerbado torna-se com a distância crítica um pitoresco território de exortação moralista e moralizante. Parecem, numa outra chave, espelhar, a seu modo, aquilo que o historiador Oliveira Lima já observara como uma eterna briga de conterrâneos. O acirrado espírito concorrencial, se não favorecia uma união, por outro lado acicatava as cabeças pensantes a tentarem se superar.
Nascimento, como historiógrafo que foi, naturalmente não analisa esses discursos que, embora diversos, guardam entre si uma série de semelhanças que mimetizam o espírito de combate pernambucano em sua ânsia de acompanhar a modernidade. Simplificando, a imagem que nos fica é a de que Pernambuco não é apenas a “terra de altos coqueiros” de que fala o seu hino oficial, mas também uma terra em que todos parecem querer ser “altos” ao mesmo tempo. Evidentemente, isso também é fruto do seu nativismo pioneiro, de sua formação histórica, de sua vocação atavicamente libertária e do destino comercial e marítimo da cidade do Recife. Que os especialistas e acadêmicos, portanto, saibam aproveitar as “deixas” de Nascimento e de sua História da Imprensa para investigarem mais a fundo o quanto há de leão nos rugidos de tais discursos e o quanto estes nos ajudam a compreender o que somos e o que temos sido como pernambucanos.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h29
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RUA DAS FRONTEIRAS
E A DESCARTABILIDADE DOS NOMES DOS LOGRADOUROS
A memória da cidade do Recife é a primeira vítima toda vez que um político quer fazer figura com o chapéu alheio. A “bola da vez” é a Rua das Fronteiras, cujo nome remonta à formação da própria cidade. É sempre o mesmo mecanismo que se põe a funcionar: arrogância, ignorância, mau uso do poder público, interesses nada públicos, etc., etc. A predominarem tais posturas, logo todos os nomes de ruas e praças seriam meramente descartáveis ao gosto dos poderosos do dia. Nada contra, claro, novas e oportunas homenagens, mas é preciso critérios para evitar abusos que destroem a memória e chegam a ser pitorescamente grosseiros, a exemplo das destituições que relegam ao esquecimento antigos homenageados.
Esse vezo vem de longe e já foi glosado por Manuel Bandeira em seu famoso poema Evocação do Recife. Também Gilberto Freyre muito se bateu contra tais mudanças. Por ironia, o autor de Casa-grande & Senzala, terminaria batizando o aeroporto internacional do Recife, agregando-se ao histórico nome de Guararapes. Chegou-se a cogitar que o bairro de Apipucos, tão querido do escritor e escolhido para sua residência, mudasse o nome para Gilberto Freyre... Felizmente, a idéia não decolou como a do aeroporto...
Em suma, o belo conjunto de não menos belos nomes de ruas recifenses vive permanentemente ameaçado. Desse conjunto de nomes tão amados e queridos do recifense, destacam-se: Rua da Aurora, Rua do Sol, Rua da União, Rua das Águas Verdes, Rua das Creoulas, Rua da Harmonia, Rua da Concórdia, Rua do Fogo, Rua do Príncipe, Rua Nova, Estrada de Belém, Estrada Real do Poço, tantas outras. Muitas já faleceram literalmente, devoradas por uma equivocada noção de progresso e desenvolvimento urbano. Não mais ressuscitarão, delas ficaram só os nomes como flores fanadas sobre ruínas.
A tais políticos apressados em sua vaidade efêmera e em sua abissal insensibilidade, caberia também rebatizá-los, chamando-os pelos nomes que nunca fossem seus próprios nomes, mas outros, aqueles que, às vezes, por educação, costumamos evitar... Talvez, então, se vissem num beco sem saída, emparedados pelo próprio veneno.
Escrito por Paulo Gustavo às 08h43
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FUNCIONALISMO PÚBLICO PARALELO
As ONGs (vale recordar que a sigla quer dizer “organizações não-governamentais”) se transformaram, salvo as honrosas exceções de praxe, num funcionalismo público paralelo. Desliga-se o motor empreendedor, recebe-se polpuda verba governamental e, claro, se faz de conta que se presta satisfação ao credor. Vive-se à tripa forra. Ao aderir às tetas federais, municipais ou estaduais, as ONGs entram em estado de amnésia, esquecidas de seus nobres e dignos objetivos. A lei do menor esforço, tão do gosto do brasileiro quanto as varinhas de condão, parece ser a única lei realmente obedecida. Com sombra, dinheiro e água fresca, toca-se o barco em velocidade de cruzeiro... Assim, fica bem semeado o terreno onde prosperam as tentações do vil metal.
Escrito por Paulo Gustavo às 08h27
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