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A ARTE E A ERA DO GESSO
Segundo Ângelo Monteiro, meu amigo pessoal e poeta pernambucano do primeiro time, vivemos numa espécie de Era do Gesso, matéria, aliás, de que Pernambuco é extremamente rico, como se sabe. Para Ângelo, a cultura atual joga com gesso, fazendo inclusive uma arte de gesso — ou seja, aquela que logo se esfarela e vira pó. O problema, o drama, se bem entendi o poeta, é que as pessoas não têm consciência do gesso e julgam que trabalham com um material mais sólido. As construções de gesso, mal suspeitam seus aguerridos usuários e criadores, logo viram pó. In pulvis reverteris. O fato é que todos parecem contentes com o gesso. Com seu baixo custo e sua versatilidade, o gesso, por outro lado, continua gesso. Por trás das miragens artísticas, literárias e profissionais, tão aparentemente sólidas, o gesso nos espreita e ri de todos. Mas a maioria aspira ao gesso. É com essa regência do verbo “aspirar” que deixo o leitor. Qualquer dúvida, gramatical ou de outra natureza, perguntem ao pó, como diria John Fante em famoso título. Ou perguntem ao agônico Ângelo, tão crítico e esteta quanto possível.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h50
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UM ANIVERSARIANTE ILUSTRE
O Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Pernambuco completou, no último dia 10, cinqüenta anos. Como ex-aluno, orgulho-me da efeméride, para a qual já são esperadas as devidas comemorações e os melhores testemunhos.
Quando da passagem dos seus quarenta anos, tive a oportunidade, em texto especialmente escrito para o livro então lançado, de compará-lo ao célebre Pequod, o bravo barco do capitão Ahab, da singular e genial obra de Herman Melville — Moby Dick. Singravam-se, então, nos meus tempos de aluno, os negros mares da ditadura militar, de tão árdua memória. Para mim como para muitos, o Aplicação foi mais que um colégio, mas toda uma atmosfera, um barco seguro e generoso na travessia daqueles anos difíceis, e aqui também me reporto à juventude e à adolescência de uma geração que buscava — equipada com a inteligência e a astúcia (sic!) do Aplicação — o horizonte da liberdade democrática, um porto, senão seguro, pelo menos promissor, para novas e aventurosas travessias.
Locus de excelência — como ainda hoje o é —, o Aplicação (os que o fazem e o fizeram) tem muito a dizer com seu meio século de existência. Sua contribuição para a sociedade ainda está por ser amplamente mapeada. Basta imaginar que tantos que ali passaram estão em lugar de destaque nas suas profissões e na vida social. Tornaram-se o que já eram: elite, e elite na mais importante e inarredável acepção da palavra. Saídos do “coração das trevas” do período militar, muitos dos seus alunos viveram então — motivados por uma equipe pedagógica de alto nível, e sempre de tão forte memória — na plena e reconfortante luz da inteligência crítica (se é que isso não é um pleonasmo). É dessa luz que se alimentaram para sempre, é a ela que se curvam quando são criativos, ricos de saber, de cultura e de espírito profissional e empreendedor, e ainda: quando são humanistas a formarem opinião ou gestores e executivos em seus campos de conhecimento.
O velho cinqüentão, pelo que sei, continua jovem e brilhante, entre as melhores escolas deste país tão falto de boas escolas. Pouco importa a idade das estrelas, importa que continuem brilhando. Estas notas, apesar de ligeiras, são um rascunho de um parabéns que se alonga no tempo.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h23
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A ORIGEM DA ARTE
A mãe parecia uma arte do filho. Já faleceu, não ele, mas ela. Na sua face as cores eram fortes, carregadas, pastosas. Os vestidos correspondiam com cores também fumegantes. Já a conheci idosa. Era gentil, apesar das extravagâncias cromáticas. Imagino que o filho cresceu vendo aquela cena íntima, aquele quadro móvel, que se destacava na paisagem. Imagino o filho se lambuzando na maquiagem pastosa, recebendo beijos vermelhos da grande boca escarlate, que, apesar de grande, falava pouco. Aquela criatura era sua mãe, talvez tivesse sido seu primeiro filme, sua primeira exposição artística. Como ela, é eclético e, por outros meios, chama a atenção, procura chocar. A origem da arte foi um choque. O pequeno artista mamou nos grandes seios da mãe aquele código enigmático, aquele alfabeto de estranhezas, aquela estética que saltava à vista como um acrobata de circo. Jamais ele conseguiria imitá-la. Sem o saber, ela antecipava suas obras da maturidade, seus gritos, suas montagens. Só agora o compreendo, embora não aprecie o que faz. Prefiro a visão de sua mãe: seu ar solene e patético, suas cores amontoadas umas sobre as outras, uma espécie de crepúsculo ardente caminhando pelas ruas, espantando outras crianças, impressionando e divertindo adultos. Enigmática e gentil, com algo de cartolina, com algo de outro tempo que não o nosso.
Escrito por Paulo Gustavo às 10h12
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É A MÃE!
Dilma é a “mãe do PAC” é mais uma expressão para a nossa coleção de Metáforas Enlouquecidas. Quanto ao pai, fica combinado que não interessa saber e o ponto é controverso. Mãe, como se sabe, só tem uma! E Dilma é a mãe. Ponto. Ponto pra Dilma, naturalmente. Após uma gravidez sem riscos, a ministra diz a que veio o chamado “espetáculo do crescimento”. Por último, dizem as folhas, Dilma se assumiu como mãe. Nada de deixar na orfandade uma criança tão especial. De resto, como se viu na TV, Dilma, apesar das más línguas, não é uma “durona”, um “trator” e, muito menos, um “canhão”. Dilma se emociona, Dilma chora, Dilma não perde a ternura jamais! Enfim, Dilma sonha os sonhos mais lindos.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h04
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GUIMARÃES ROSA E MACHADO DE ASSIS:
DOIS CENTENÁRIOS E UMA IRONIA
Nos fins de 1908, a literatura brasileira perdia Machado de Assis, para muitos o maior escritor brasileiro de todos os tempos. “Em compensação”, outro gênio das letras nacionais nascera em junho daquele ano: o mineiro João Guimarães Rosa, para muitos igualmente o maior escritor brasileiro ou, pelo menos, o maior escritor brasileiro do século 20.
Agora em 2008, “machadianos” e “rosianos”, de par com diversas entidades culturais do País, festejam as efemérides dos respectivos centenários. Sobre os autores, donos ambos de uma imensa fortuna crítica, já se escreveu “de um tudo”, entre alhos e bugalhos. A Guimarães Rosa falta ainda um biógrafo, digamos um grande biógrafo que o estude em detalhe e profundidade no contexto social em que viveu, na multiplicidade de personagens que encarnou: militar, médico, diplomata, escritor consagrado nacional e internacionalmente.
Bem, e a ironia? A ironia fica por conta de detalhe biográfico de que Guimarães Rosa não era exatamente um apreciador das obras de Machado de Assis... Não tinha afinidades literárias com o “bruxo do Cosme Velho”. Como outro “bruxo”, Rosa acreditava em outros “feitiços” e em outra alquimia. Não o tocava o desencanto machadiano...
A ironia acima, se não é didática para a juventude (Pode-se, sem remorso, não se apreciar Machado! E vice-versa: não se estimar Rosa.), bem que poderia render (se é que já não rendeu!) uma alentada tese doutoral de literatura comparada. O fato é que Rosa, a exemplo de Machado, se impôs igualmente como único, rivalizando (involuntariamente?) com um “precursor” que não é de sua linha genealógica. Como quer que seja, são dois autores emblemáticos de um país que, salvo algumas exceções, pouco produziu em termos de uma literatura universalmente consistente.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h21
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DOIS NOVOS LIVROS IMPERDÍVEIS SOBRE O RECIFE
Em homenagem aos 471 anos do Recife, a Editora Massangana, da Fundação Joaquim Nabuco (MEC), está lançando na próxima quarta-feira (12/3/2008), às 15 horas, na sua sede, no bairro de Casa Forte, dois importantes estudos sobre o Recife, fruto do trabalho de pesquisadores da própria Instituição. Um deles é O Recife na MPB, de autoria de Renato Phaelante, e o outro é O Recife: uma bibliografia, de autoria das documentalistas Lúcia Gaspar e Virgínia Barbosa. Parabéns!
Escrito por Paulo Gustavo às 08h46
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