OSSO DE FRANGUINHO E GALINHA CACAREJADORA
(Carta de Frei José de Lorena, da Ordem dos Sacanas Menores)
“Paulo, vejo que você tem razão em dizer (como já disse muitas vezes neste seu blog) que vivemos na Era das Metáforas Enlouquecidas. Agora mesmo, o presidente Lula disse que o dossiê contra o FHC era um ‘osso de galinha” que transformaram numa ‘ossada de dinossauro’. Lula conclui que o osso era só de um ‘franguinho’. Pra completar, o senador Mão Santa (PMDB-PI) afirmou que a ministra Dilma é uma ‘galinha cacarejadora’. Paulo, a coisa tá suja feito pau de galinheiro. As metáforas enlouquecias chegam ao subgrupo das metáforas galináceas. Aliás, galinha e afins não faltam: pinto, frango, gente cantando de galo e gente que ouve o galo cantar, mas não sabe onde.
Gostei da Dilma, a chamada mãe do PAC, virar ‘galinha cacarejadora’. Todo mundo sabe que as galinhas são mães muito cuidadosas e extremadas; bicam quem se aproxima dos seus pintinhos. Galinha choca então é muito braba, uma fera, disso ninguém duvida. E Dilma, a gente sabe, tem amor materno pelo PAC, que, ao que parece, ainda não é pinto nem frango nem galo, mas apenas um grande ovo. Ovo federal, acrescente-se. E a Dilma está certa em cacarejar, afinal de contas um ovo é uma coisa muda e indefesa. Enfim, o Mão Santa acertou na mosca. Felizes os que cacarejam sobre seus ovos porque deles será o galinheiro!”
Escrito por Paulo Gustavo às 09h28
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DA MENTIRA E DO SEU DIA
Dizem que a mentira tem pernas curtas. Discordo. A mentira não só tem pernas longas, como musculosas e bem torneadas. Portanto, além de fortes, sedutoras. Estou com Proust: a mentira é essencial à humanidade. Mas longe de mim doutrinar sobre a mentira ou simplesmente defendê-la.
O assunto vem a propósito do recém-passado Dia da Mentira, em outros tempos bem mais lembrado e “comemorado” em nossas plagas do que hoje. O pitoresco Dia da Mentira praticamente sumiu, mas não sumiu a mentira, que, com suas longas pernas, vem correndo mais do que nunca mundo afora. A decadência do Dia da Mentira talvez se deva sobretudo a isto: nunca se mentiu tanto no país. Mente-se durante o ano inteiro. Mente-se como rotina. Mente-se, como se diz, descaradamente, quer dizer, sem cara ou simplesmente com cara-de-pau, e pau que cupim não rói. A mentira banalizou-se.
Já o poeta pernambucano Austro-Costa (1899-1953), em poema antológico intitulado A Divina Mentira, afirmava que no mundo tudo é mentira, afirmando que às mentiras do céu preferia as mentiras do amor. Ou do céu, ou do amor, ou simplesmente da Terra, a mentira continua reinando inevitavelmente entre os homens, estes discípulos do Demo, personagem, que, como se sabe, também é conhecido como Pai da Mentira.
Escrito por Paulo Gustavo às 08h50
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NÃO TEM REMÉDIO!
?A medicina nos transforma em hipocondríacos? Cada vez mais! Tudo é sintoma. O mal está instalado em nossas entranhas, deita sutis raízes que estrangulam nossa saúde. Os especialistas — já Proust na Recherche chamava a atenção para isso — não perdem oportunidade de se exercitarem com quem encontram: o dentista logo suspeita que o nosso sorriso é cariado; o oculista, que não enxergamos bem; o cardiologista, que o nosso coração já não pulsa como outrora; o revisor, que a nossa vírgula pintou onde não devia, e assim por diante. Enfim, como diz o dito popular, o uso do cachimbo faz a boca torna. E nossas bocas são cada vez mais tortas, e nossos cachimbos, com o passar do tempo, mal saem dos lábios.
A medicalização excessiva e a indústria farmacêutica não nos deixam em paz. Nada como uma boa receita! Nada como minuciosos exames que dignificam o médico e os equipamentos de ponta. Mexe dali, mexe daqui e cá estamos como uma mapa enrugado que esconde um tesouro de males, um tesouro para a caça implacável que nos fará sobreviventes! A medicina atual, senão a eterna, na ausência de terríveis dramas do passado, cria novos dramas em parceria com as nossas ilusões. Resta-nos, pacientes, murmurar, no extremo desengano, como o poeta Augusto dos Anjos: “Tome, doutor, esta tesoura / e corte a minha singularíssima pessoa!”. Aliás, nem isso mais é preciso, já vivemos cortados em retalhos pelas amoladas tesouras de médicos e remédios. A falta do remédio é hoje a pior doença que atinge as pessoas. Não, o próprio remédio é a pior doença — e isso é coisa que não tem remédio.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h43
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O GENERAL INVERNO
Os burgomestres do Recife têm sempre, como Napoleão, de contar com um grande inimigo a partir desta época do ano. Refiro-me ao General Inverno, cujo poder de fogo não é nada desprezível.
Sempre vulnerável às águas, de quem é filha como “do sonho dos homens” conforme queria o poeta Carlos Pena Filho, a Veneza Brasileira, além de ser por índole uma rebelde política, é igualmente uma rebelde aquática. Não tratar das águas inflamáveis do Recife, por parte de um prefeito, é condenar-se, perder votos e eleições, pois as águas não brincam em serviço: pioram a vida de ricos e pobres, fazem ir pelo ralo os mais belos projetos. Curiosamente, o recifense sempre se surpreende com sua cidade inundada e seus morros, que parecem de açúcar, serem palcos de tragédias. As armadilhas e os perigos navegam por toda parte: nas calçadas submersas, na transmissão de doenças, no trânsito caótico, nos altos e córregos onde a miséria das habitações forma um maldito e estranho país.
O General Inverno sabe muito bem que o Recife está apenas a 3 metros acima do nível do mar e, assim, do céu, do escuro gabinete das nuvens, envia suas bombas destruidoras. E muitas delas, como é previsível, caem bem em cima de outro gabinete: o do prefeito da cidade.
Escrito por Paulo Gustavo às 10h27
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O leitor (ou a estimada leitora) que me perdoe, mas hoje qualquer criança de dez anos já sabe que sexo e hipocrisia, em nossa sociedade, caminham juntos. Falo isso a propósito do episódio da nossa cafetina global, tipo exportação, e que tem lá a sua graça e o seu profissionalismo. No caso, o profissionalismo do “relaxa e goza” para ricos e poderosos. O mais é reducionismo e hipocrisia, tanto lá no país do Tio Sam quanto cá no nosso tropical país.
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A ministra Dilma sai bem arranhada do episódio do dossiê contra FHC. Segundo a mídia — sempre “golpista” — a versão de que o documento era um simples “banco de dados” não se sustenta. A rapidez no gatilho de nada adianta se o tiro sai pela culatra. Tudo indica que tais movimentos velozes e selvagens, além de carregados de rancor, só levam ao desgaste político do governo, justamente quando Lula, no auge da popularidade, parece seduzir gregos, troianos e baianos!
Apesar disso, se a eleição fosse hoje, diz a Folha Online, o PT não teria a menor chance de ficar no poder. É esperar pra ver.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h30
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