PROBLEMAS E SOLUÇÕES LADO A LADO
Trecho da obra "Será por ti, Sertão",
do escritor pernambucano Luís Siqueira
"Os discursos quixotescos dos princípios da cavalaria andante tiveram no Nordeste do Brasil, variantes com matizes ideológicos ou religiosos que só fizeram derramar sangue de gente inocente; ora na Pedra do Reino, na Canudos do Conselheiro, ou no Caldeirão do Cariri cearense. Todos atores de uma burla única: A humana dificuldade de perceber a natureza das coisas, daquilo que nos cerca, das nossas circunstâncias, e como sempre aparecem aqueles grupos que se aproveitam desse conflito, e apontam bandeiras a seguir, lemas, palavras de ordem, enquanto tudo o que realmente desejam é conquistar o poder e nele se perpetuar. O resto é as barragens “sonrissal”, programas “Prorurais” “Bois na corda”, “Plante que o governo garante” e “Fome Zero”. Todos eles grandes encenações teatrais que se repetem, com seus discursos cheios de neologismos e frases de efeito, prometendo resolver a seca, fomentar o desenvolvimento regional, a erradicação do analfabetismo, da saúva, e de outros tantos males que nos afligem.
Em verdade, o grande e único encantamento a resolver é aquele enigma que nos deixou Joaquim Nabuco, logo após ver terminada a sua luta pela abolição da escravatura:
“Acabar com a escravidão não nos basta; é preciso destruir a obra da escravidão...”.
Poucas frases acompanharam este país ao longo de tanto tempo, com tamanha força de verdade.
Como anteriormente aqui já foi dito, estamos todos sujeitos a uma medonha obra de encantamento: nossos problemas e soluções convivem lado a lado, atravessam os séculos, porém nunca se encontram. Segue o Nordeste com a sua vocação para o paradoxo crônico: Em sendo a região mais antiga do país, berço da nação, é a mais pobre. Em sendo a região mais pesquisada e estudada, continua sendo a menos desenvolvida e a mais injusta."
Escrito por Paulo Gustavo às 10h29
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ISABELLA E PINÓQUIO
Pinóquio, o imortal boneco de Carlo Collodi, foi um filho desejado por seu velho pai, Gepeto. Tão desejado que, sendo originalmente mais um boneco de madeira, ganhou vida. Ocorre que a vida é autônoma. O nascimento, como observou Hannah Arendt, é sempre a possibilidade de uma nova e inusitada ação sobre o mundo. Pinóquio e qualquer criança são uma prova disso. O que Gepeto talvez não previu em sua criação foi justamente a autonomia de Pinóquio, que, de certa forma, o desaponta. Gepeto quer vê-lo estudando, mas Pinóquio ganha as ruas e se mete em várias encrencas. O boneco é rebelde como, aliás, lá no fundo, toda criança.
Muitos pais deveriam ler ou reler a história de Pinóquio. Talvez assim não ficassem tão desapontadas com as crianças que, com ou sem planejamento, trouxeram ao mundo. Como Pinóquio, transformam-se em estorvo, em trabalho forçado, em frustração. Só que isso faz parte do jogo da vida. A não compreensão disso faz com que os pais virem irresponsáveis e abdiquem de sua condição de pais e educadores. Mas é bom lembrarmos que, malgrado o desapontamento, Gepeto não abdica de seu papel paterno e sai em busca de salvar Pinóquio. Gepeto, ao contrário, de muitos pais, ama a sua criação.
Isabella, por todos os indícios das reportagens sobre seu triste caso, foi com certeza, em sua curta vida, um estorvo. Tudo indica que amadureceu no sofrimento e na rejeição. A frase “era uma mocinha” esconde a sua própria condenação. Ao contrário de Pinóquio, saiu da vida como uma boneca sem amor e sem poesia, jogada pela janela como aquilo que terá sido para seus algozes: apenas um grande estorvo.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h53
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UM FURO: ENTREVISTAMOS O MOSQUITO DA DENGUE
— Há muitos anos, existe uma campanha contra o senhor...
— Perdão, senhora, sou eu, a fêmea, que ataca os humanos.
— Desculpe. No início, falava-se que a senhora gostava de “água limpa”. Hoje, não se fala mais nisso. O que houve?
— A campanha foi equivocada. Água limpa para mosquito não é a mesma água limpa para os humanos. Gosto de água para pôr meus ovos e garantir a vida da minha família.
— E aquela história de que a senhora tinha uma hora certa para sair — cedinho da manhã e ao pôr-do-sol?
— Outra balela, outra empulhação. Quando a fome ataca, saio a qualquer hora.
— A senhora transmite dengue “clássica” ou “hemorrágica”?
— O que é “clássico” hoje em dia? O que é “hemorrágico”? Quem deve se importar com essas distinções são vocês.
— A senhora se sente uma vitoriosa?
— Naturalmente. Mas não há qualquer mérito nisso. O Brasil é um adversário muito fraquinho. Furando, picando com jeito, e sem perder boas oportunidades, vamos conquistando seu imenso território. Só não posso lhe confessar nossas metas. Só posso dizer que são ambiciosas, compatíveis com a concorrência da insegurança pública e da violência.
— Como reconhecer uma mosquita da dengue?
— Apesar da minha vaidade feminina, a modéstia me impede de dizer.
— Obrigado pela entrevista.
— Obrigada.
Escrito por Paulo Gustavo às 08h59
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CASO ISABELLA: WORDS, WORDS, WORDS...
Os doutos e experientes criminalistas que me perdoem, mas não fica bem brigarem, no caso Isabella, com a tecnologia. Não adianta empunharem uma legislação e uma teoria que, em face do trabalho técnico, mostram-se arcaicas, ultrapassadas. Muitos mistérios do passado seriam rapidamente destruídos com uma rajada de luz dos mais modernos equipamentos. Muita verborragia seria simplesmente fulminada.
O fato é que o sacrifício de Isabella, com ou sem a pirotecnia da mídia, trouxe à tona o universo invisibilizado das crianças martirizadas do Brasil. Trouxe à tona uma legislação arcaica e a indignação coletiva de uma sociedade que vem se tornando cada dia mais apática como a brasileira. A quem serve tantos recursos que não passam de firulas jurídicas, de filigranas de forma? O Brasil real e o Brasil oficial se encontram (mais uma vez) e se desconhecem, estão de costas um para o outro. É a espuma do embate dessas ondas opostas que precisa ser estudada para se mudar tal situação. É preciso corrermos em busca das milhares de outras Isabellas que continuam a manchar, diariamente, a dignidade da Justiça neste país. A lição é clara, mas aqui e ali os bacharéis do atraso só vêem seus próprios e conservadores conceitos. A Justiça é um longo e imperdoável esquecimento. Ainda que tarde, o Brasil precisa reagir.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h11
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