O INI-MAGO IMORTAL
A colunista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, diz hoje com todas as letras que a Academia Brasileira de Letras não vai abrir seus salões para Paulo Coelho lançar “O Mago”, sua autobiografia. Motivo: o “imortal” Coelho desanca, no seu novo produto, os próprios colegas da ABL. Como diria um observador entediado: “Eu acho é pouco!”
A propósito de Coelho, vale a pena lembrar que o crítico literário e professor pernambucano Janilto Andrade escreveu o interessante opúsculo “Por que não ler Paulo Coelho”. Com certeza, poder-se-ia acrescentar que o mago descobriu e descreveu muitas “magias”, menos a da própria literatura. Esta, ao que parece, precisa de outras varinhas de condão...
Escrito por Paulo Gustavo às 14h17
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O LADRÃO QUE EU SERIA
Chego à triste conclusão de que ninguém mais sabe ler. O cara pega um texto, vê mais de um parágrafo e não junta coisa com coisa. A seu favor, do dito cara, é que o que lê também não é legível, porque quem escreve também já não escreve. Cria-se, assim, um círculo vicioso. As palavras viraram apenas imagens e, o que é pior, imagens indecifráveis. Descoloridas, invisíveis, as palavras viraram uma espécie de suco insípido que o sujeito não bebe, molha apenas os beiços como se provasse veneno ou algo pior. O mundo letrado é um mundo de dinossauros, daqueles rabudos e talvez rabugentos, prestes a morrerem, a se sufocarem numa atmosfera tóxica.
Vem-me, então, a cena irônica imaginada por um amigo meu. O cara sai da livraria carregado de livros. À porta do estabelecimento, meu amigo, num gesto tão imprevisto quanto incisivo, volta-se para aquele inviável leitor e o confronta: “Pra onde vai com esses livros? Você não vai ler nada mesmo! Devolva esses livros, devolva imediatamente esses livros! Que vai fazer com eles?”. Bom, eu acrescentaria ao estupor do sujeito uma boa bengalada no quengo, abrir-lhe-ia (sim, a mesóclise vive!) a cabeça (pelo menos, literalmente) e, nesse entrementes, roubaria, sem qualquer pudor, todos os livros comprados.
Escrito por Paulo Gustavo às 13h17
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AINDA E SEMPRE OS CÃES
“Quanto mais conheço os homens, mais estimo os cães.”
Alexandre Herculano
Cientistas da Califórnia acabam de descobrir que o “melhor amigo do homem” também pode ser útil da detecção do câncer em fase bem anterior ao aparecimento clínico da doença. A urina, o hálito e a saliva revelariam ao animal a presença do problema.
A mim não me importa exatamente a utilidade dos cães. Aprecio-os por outros motivos. Aprecio-os cada dia mais nessa perseverança de amarem a tão feroz quanto desamparada criatura humana. Amam o impossível — e isso já é suficiente para se fazerem amados. Farejam em nós talvez o que restou do paraíso, este quase nada em que alguns visionários vislumbraram equivocadamente uma saída. Não são fiéis a nós, como pensamos, mas a essa essência tão rarefeita quanto oculta. Por isso, há grandes e tremendas esperanças em seus olhos e a umidade das lágrimas ardentes em seus focinhos. Entendem, melhor do que ninguém, a nossa infidelidade e o nosso equívoco. E perdoam.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h42
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UMA LENDA NACIONAL
O Brasil adora uma lenda. Com seus comunistas, não se dá nem se deu diferente. A fantasia corre e correu solta. Aqui e ali, ouve-se dizer e lê-se com certa freqüência que nossos bravos e vermelhos militantes lutaram pelas “liberdades democráticas”. Nada mais mitológico, a menos que isso encubra parcerias estratégicas... Comunismo e liberdade até hoje se revelaram absolutamente inconciliáveis, um necessariamente exclui o outro. No jogo pelas liberdades, nunca passaram de falsos brilhantes. Uma vez no poder, sempre jogaram fora a liberdade como um desnecessário luxo pequeno burguês. Nessa penumbra tão estratégica quanto intencional levaram muita gente no bico, muita juventude ardente, muita inteligência privilegiada, muita gente, aliás, que ironicamente sonhou com a liberdade, mas que jamais a viu, exilados do futuro, prematuramente silenciados pelo ideal.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h44
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BLOGS E OPINIÃO
A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica, conhecido e fecundo ensaio do crítico alemão Walter Benjamin, antecipa uma discussão que a criação da internet e das tecnologias digitais vieram radicalizar. O caso da imprensa, processo que fez aflorar o que se convencionou chamar de opinião pública, volta agora, com renovadas questões, com a opinião pública multiplicada pela blogosfera, um fenômeno ainda recente, mas, com certeza, com isto de certo: a amplitude e o acréscimo de opiniões (não importando juízos de valor: se são boas, medíocres, etc.), o que, em princípio, é valioso como instrumento de democratização da informação. Se alguns se assustam com a fragmentação e com a superficialidade — porque lhes escapa o poder de seleção —; outros se entusiasmam porque encontraram canais até então impensáveis para a própria opinião. Como isso de fato importa, já é uma outra história. Ilusória ou não, a autonomia dos blogs revela que é preciso pensá-los à luz de uma nova sociologia e de uma óptica ainda a ser descoberta.
Escrito por Paulo Gustavo às 13h13
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