O CENTRO E O TURISMO: O RECIFE AGONIZANTE
Sem que se cuide do centro, não há bom turismo numa cidade. Em qualquer parte do mundo, o centro é um uma espécie de lugar-comum de qualquer itinerário turístico. É a partir do centro, na grande maioria dos casos, que o turista tem uma visão da cidade, de sua vida, de seu povo, etc., sobretudo se a cidade não for uma grande metrópole. O centro é, por assim dizer, a sala de visita. Se é assim, o que dizer das políticas municipais que, no Brasil, abandonam os centros à própria sorte, deixando-os à míngua de projetos que os façam seduzir o turista, que prestigiem a memória artística e cultural e a história nativa?
O caso do Recife é emblemático. Hoje a beleza dos logradouros do centro se esconde sob várias camadas que impedem sua fruição turística e cidadã. Não há cuidado com os prédios históricos. Não há boas calçadas. Não há limpeza. Não há banheiros públicos civilizados. Não há sinalização adequada. Não há regras para o comércio dos ambulantes. Sobram, contudo, inúmeras poluições e flagrantes amargos do descaso. A cidade, assim, se oferece a seus habitantes e forasteiros não apenas com a velhice dos anos, mas com a velhice e a invalidez de uma grande enferma, em cuja pele enrugada e opaca toda a antiga beleza murchou. Como se a víssemos numa névoa de agonia. Mas, pior do que isso, como se a inteligência coletiva — a dos homens públicos, principalmente — estivesse ausente. O que vemos — é lamentável dizer — é uma cidade emburrecida, prisioneira de uma caricatura maligna que aprisiona sua beleza, sua história e seus múltiplos encantos.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h44
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Frei José de Lorena, da Ordem dos Sacanas Menores, observou certa feita a saudosa Dercy Gonçalves fazer uma revisão de texto. Eis o que testemunhou:
“Lorena [ela me chamava assim], esse estilo é mais feio do que a perereca da mãe desse autor. Puta que pariu! Por que não enfiou esse travessão no cu? Que estilo melado que nem a porra. O texto tem mais vírgula do que pentelho. Não há chance pra esse veado acertar nada, não junta coisa com coisa esse imbecil chapado. Quando tem crase, ele manda pra casa de caralho, não acerta uma! A gente só lê porque tá escrito, é uma salada de merda com bosta. E essa coisa vai para uma revista acadêmica? O cara é doutor, Lorena, é phdeus?, putz, agora fodeu tudo. E o cara chama essa porra de ensaio? Só se for ensaio pra comer capim ou pra dar o cu! Vôte!, como se diz lá no Nordeste! E esse verbo aqui sem sujeito, onde se meteu senão no rabo da mãe dele?...”
Escrito por Paulo Gustavo às 10h55
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Bilhete de Frei José de Lorena, da Ordem dos Sacanas Menores, comenta a saída de Gilberto Gil do Ministério da Cultura
“Paulo querido, o Gil saiu da Cultura e a cultura nunca entrou nele, que estava na janela, ai, ai... O Gil saiu da Cultura dizendo que desempenhou a missão ‘com relativa facilidade’. Ou seria ‘relativa dificuldade’ ou uma ‘dificuldade relativa’, simples, mas complexa, quando não por isso mesmo indo ao cerne da questão, das singularidades pós-modernas. É isso e não é mais do que isso. Mas fico com Wittgenstein: “O que não se pode falar se deve calar”. O certo é que foi um período de grandes tombamentos para capturar o inefável. Eu, Paulo, já estava com saudade do Gil artista, musical, que não argumenta nem discute nem despacha dando uma canja.”
Escrito por Paulo Gustavo às 09h39
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A LEI É SECA, MAS TEM GENTE MOLHANDO A MÃO DO GUARDA...
Apesar das propinas que molham a mão dos guardas, a chamada Lei Seca, ao que parece, vem dando bons frutos. Pessoalmente, acho a lei extremamente rigorosa, sobretudo no chamado perímetro urbano. Enfim, com licença do substantivo, a dose para as cidades deveria ser mais palatável. Se a lei de fato pegar, com licença também para esse verbo embriagante, então ótimo. Como diria D. Pedro, “Se é para o bem de todos...”.
Não custa lembrar aos amantes de um bom copo, segundo a pertinente observação de um amigo meu, que a lei não é contra a bebida como sugere a mídia e a impressão geral, mas contra o óbvio: a bebida para quem vai dirigir. À parte isso, todos podem continuar enchendo a lata, molhando os gorgomilos e bebendo água que passarinho não bebe, como exigem, por sinal, os ditos bons costumes de nossa civilização ocidental. Enfim, pancada grande, como diz o povo, é que mata a cobra, no caso uma gigantesca jibóia a devorar vidas humanas e verbas públicas. Um brinde, portanto, à Lei Seca!
Escrito por Paulo Gustavo às 11h23
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AINDA SOBRE DERCY
Dercy Gonçalves pediu para ser enterrada em pé, com o caixão na vertical. Talvez para defender-se melhor, para estar pronta para caminhar no dia da ressurreição dos mortos. Talvez tenha desejado levar para o túmulo a verticalidade que a acompanhou em vida, como se a morte fosse de fato uma prolongação da existência. Isso mostra a sua peculiar e pessoal mitologia, na qual a adesão aos símbolos foi levada, podemos dizer, às últimas conseqüências.
Dentre os comentários que li nos jornais sobre Dercy, destaco o breve, mas elogioso, de Daniel Piza, e o de Renato Pompeu de Toledo. Discordo deste último ao destacar que Dercy foi “infantil” e “infantilizadora”. Admirador desse articulista, lamento que em seu artigo sobre a artista tenha apelado para uma espécie de reducionismo, de explicação “pela História” e pobremente sumária. Em princípio, “infantil” e “infantilizadora” — vale lembrar — não são qualificativos negativos por si mesmos; dependendo do ângulo pelo qual se olhe, são positivos e expressam o parentesco da arte e da poesia com a liberdade do ser humano. Dercy não foi apenas um produto, como parece sugerir o nosso admirado Pompeu, foi muito mais que isso, inscrevendo-se numa linha “literária” que vem da “noite dos tempos” e passa pelo pícaro, pelos saltimbancos, pelos comediantes imemoriais... Além disso, não se deve esvaziar Dercy da própria Dercy, de sua presença ontológica e freqüentemente cheia de espírito, de graça, de humor.
O palavrão de Dercy — perdoem-me os que até hoje pensam o contrário — era apenas um superficial detalhe, um detalhe que, diga-se de passagem, em meados do século passado, chegou a ofuscar a sua artisticidade pelo inevitável caráter pitoresco. Por outro lado, se Dercy foi artista de uma só personagem, isso pouco importa diante do que conquistou num país conservador e periférico, diante da alegria que proporcionou a várias gerações. Enfim, como dizia um grego, a raposa sabe várias coisas, mas o porco espinho sabe de uma coisa especial...
Escrito por Paulo Gustavo às 09h43
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