TRECHOS DO MEU PREFÁCIO AO LIVRO “TODAS AS COISAS TÊM LÍNGUA”, DE ÃNGELO MONTEIRO, A SER LANÇADO AMANHÃ, NA LIVRARIA CULTURA NO RECIFE, ÀS 19H30.
Muitas vezes, mais que dos próprios poetas, é dos filósofos que a Poesia tem recebido a sua investidura missionária e conceitual. E não por acaso, pois tanto a Filosofia quanto a Poesia — e aqui não digo qualquer novidade — provêm daquele mesmo espanto que Platão percebeu como fonte de toda a reflexão e que Heidegger, a seu modo, ao pensar a linguagem, trouxe para os cimos de montanhas próximas e semelhantes. É por isso que sempre lembro com perturbadora memória as palavras de Hannah Arendt: a missão dos poetas é cunhar as palavras pelas quais vivemos.
Hannah Arendt já teria dito muito se tivesse falado apenas que a missão do poeta é cunhar palavras. Mas a filósofa acrescentou: pelas quais vivemos. Não são quaisquer palavras, mas aquelas pelas quais criamos valores e que arrastam consigo os valores que dizem respeito ao nosso ser, àquilo pelo que somos o que somos e que nos dá um norte na obscura e fascinante viagem da própria vida. Não por acaso talvez, Arendt, logo se vê, aproxima o poeta do pensador e do filósofo. Convenhamos — nós que vivemos na planície — que o lugar ontológico do poeta carrega consigo a grandeza de ir, como um pastor, à frente dos homens, não para dominá-los, como os poderosos de ontem e de hoje, mas para dar-lhes um caminho, ainda que tal caminho não chegue a qualquer parte.
Talvez pudéssemos, num rasgo de didatismo, até fazer um desdobramento da frase da filósofa alemã: há poetas que cunham palavras e há poetas que cunham palavras pelas quais vivemos. E sobre estes últimos dizer que sem eles o mundo não seria o que é, já que operam, em nossa visão e em nossa vontade, uma transformação profunda e criadora. Apesar disso, nenhum desses poetas pode ter a certeza antecipada de sua grandeza entre os homens, pois estão como que entregues a uma correnteza sagrada que os distribui, os leva e os enreda na grande teia humana.Estão a serviço de Deus ou da natureza. Eis por que torna-se um lugar-comum dizer que geraram algo maior do que si mesmos, como se tivesse sido apenas instrumentos. Instrumentos de quê? Da própria Palavra, da única Palavra, da cintilante Palavra que traduziram do Ser.
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Observe-se que Ângelo Monteiro não escreveu “Eu tenho língua” ou “Meus poemas têm uma língua” ou coisa que o valha. Mas, como grande poeta, preferiu diluir-se ou irmanar-se a todas as coisas. E isso é particularmente notável por se tratar de uma seleção de poemas feita pelo próprio autor, com o próprio título a nos lembrar o valor da palavra e, mais, que o valor da palavra é maior que o do próprio poeta. O grande poeta está condenado à humildade, pois sabe, como escreveu Karl Kraus, que o verdadeiro escritor não toma de assalto as palavras, mas é tomado por elas. Essa magia — ao contrário do que muita gente pensa — não é uma busca do poeta, mas algo inerente à sua condição. Assim é que muitos pensadores terminaram por testemunhar que a linguagem fala através de nós e, de modo especial, pela palavra dos poetas.
Este livro é uma antologia realizada pelo próprio autor e isso faz uma diferença para leitores e estudiosos, pois confere à obra um peso específico, quer isso dê visibilidade a certos poemas, quer, pelo mesmo motivo, deixe na sombra outros tantos e importantes versos. Não obstante, estarem presentes aqui alguns dos melhores poemas do poeta, é lícito advertir ao leitor sobre algo naturalmente óbvio: nem sempre a escolha do próprio escritor coincide com a da crítica ou com a de seus leitores. É freqüente na história da criação literária e da literatura que os próprios autores se equivoquem sobre o que é importante na sua obra. Ou seja, é a língua das coisas, por assim dizer, que julgará se a palavra do poeta traduziu com fidelidade.
Se todas as coisas têm língua, a língua de Ângelo Monteiro tem todas as coisas. Não se trata aqui de excessivo louvor personalista nem apenas um modo de afirmar, num trocadilho, que ele, em seu lirismo, fere inúmeros temas. Mas uma maneira de dar a entender a sua universalidade como poeta, pois o mesmo espanto que o move para a Filosofia também o move para a Poesia e... para a Religião. (Para Ângelo como para Guimarães Rosa, escrever e orar estão continua e existencialmente próximos). Filosofia, Poesia e Religião são formas de chegar — como nas práticas litúrgicas da Antiguidade — a todas as coisas às quais é possível chegar pelo uso visionário da Palavra. Chegar para abraçá-las e abrangê-las, com a disponibilidade de estar aberto às grandes interrogações e respostas do mundo.
Caudatário tanto da melhor cultura literária ocidental, com pleno domínio das potencialidades e dos recursos estéticos das tradições, quanto de sua circunstância histórica e social, Ângelo Monteiro, na numerosa e diversa família dos poetas, pode ser classificado (se é que se faz necessária tal tipificação) como um poeta visionário, que não só se alimentada da metafísica como igualmente dos melhores valores literários do barroco, do romantismo e do surrealismo, acrescentando a estes valores um inconfundível caráter pessoal. Por isso, vai buscar ao mito as raízes em que assenta a força de sua poesia tão rica em símbolos e alegorias. Por isso, poetas como Jorge de Lima e William Blake lhe são congêneres. E por isso, também, que pensadores como Plotino, Pascal, Ângelo Silesius, Kierkeggard, Nietzsche, Unamuno e Santo Inácio de Loyola estão entre as suas inspirações e os seus precursores, sem falar no próprio Cristo, que, em seus poemas, assume uma visão agônica e, portanto, não apenas de Salvador do Mundo, mas de restaurador de formas corrompidas. Mas — ressalte-se, é por estar com tais companhias que o poeta está em luta com o real, investido de uma missão que o marca com o fogo da revelação. Uma estética do fogo — à semelhança de uma psicanálise do fogo, de Gaston Bachelard — talvez fosse importante para um dia se analisar o poeta em toda a sua agilidade intelectual. Porque para Ângelo Monteiro todas as coisas também parecem ter línguas de fogo. Não por acaso, seus poemas estão perpassados de chamas, candelabros, lâmpadas, olhos acesos, estrelas... Como o fogo que vai predestinadamente para o alto, o poeta aponta para a superação do mundo e para a transcendência. Sua leitura do mundo é para nos queimar com esse fogo purificador que tanto parece estar na Origem como no Fim dos tempos.
Todas as coisas têm língua, mas a língua que as reúne numa poderosa linguagem é a língua da Poesia, para a qual Ângelo Monteiro traz a sua voz inconfundível, o seu timbre profético, o seu inarredável clamor diante de um mundo marcado pela incandescência que tanto cega quanto paradoxalmente ilumina e purifica os mais soberbos sonhos da razão.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h23
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MÍNIMA MÍMICA E GUIMARÃES ROSA
Guimarães Rosa, como qualquer clássico, é autor que sugere e até exige renovadas análises críticas. Tem sido assim desde a sua estréia com Sagarana e até o aparecimento de suas obras-primas na década de 1950. A crítica, se bem conduzida, alarga uma visão sobre os livros, ajuda o leitor numa imensa floresta de signos que buscam decifração e luz. Naturalmente, a crítica gestada nos laboratórios acadêmicos não é acessível ao leitor comum, quer porque só seja mesmo publicada no âmbito universitário, quer porque a linguagem técnica ofusque e torne hermético preciosos achados.
Agora mesmo, neste ano de centenário do maior escritor brasileiro do século 20, chegou às prateleiras o livro de ensaios Mínima Mímica, de autoria de uma das maiores críticas brasileiras da atualidade, Walnice Nogueira Galvão. Especialista em Rosa e em Euclides da Cunha, Walnice reúne neste novo livro uma série de ensaios — alguns talvez fruto de palestras — que honram a sensibilidade do leitor e a grandeza de Guimarães Rosa. Sem apelar para o jargão da área, brinda-nos com a largueza e o à-vontade de quem muito conhece seu objeto de estudo. É com a mão livre e um saber culturalmente amplo que Walnice revela e apresenta os segredos de Rosa, o escritor-artífice que trouxe uma beleza nova à nossa ainda modesta literatura nacional. E, como toda beleza nova, para lembrar Proust, ainda imperceptível a muitos contemporâneos póstumos (sic!).
Escrito por Paulo Gustavo às 09h32
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