QUATRO QUADRAS
Por Frei José de Lorena, da Ordem dos Sacanas Menores
De peito, cu e buceta
Faz-se a vida mais bonita
O resto, amigo, é só treta,
Estresse, drama e desdita.
Deste mundo onde se sofre
E se vive de caretas,
A ocupação mais nobre
É peito, cu e buceta.
Ninguém me chame pra nada
Que não seja pr’uma greta,
Minha agenda só tem vaga
Pra peito, cu e buceta!
É dessas três iguarias
Que se faz minha receita,
Meu cardápio não varia:
É peito, cu e buceta.
Escrito por Paulo Gustavo às 12h32
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NEVOEIRO...
Matéria de hoje, 04/09/08, da Folha de S. Paulo, revela um presidente fumante em seu gabinete do Palácio do Planalto. Entre uma baforada e outra, que ninguém é de ferro, Lula diz que na sua sala manda ele e, portanto, não dispensa suas tragadas, mesmo o recinto sendo fechado.
Deixem, pois, o homem fumar, ainda que em desobediência à lei que proíbe fumo em locais fechados. A hermenêutica de Lula interpreta a lei de modo diferente: a sala é sua (dele), e isso já diz tudo. O que vocês queriam? Não exijam tanto do presidente. Não exijam tanto do Planalto. Brasília, como se sabe, vive entre fumos, entre nevoeiros de intrigas e metáforas. Assim pode-se imaginar: que nuvem de fumo é aquela ali? Ministro tal. E aquela outra nuvem? Ministro qual. E aquela nuvem com uma maleta? Um araponga. E aquela nuvem negra? É a cobra que está fumando! Que cobra, meu amigo? Melhor mudar de assunto.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h23
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NA GRAMPOLÂNDIA
Na Grampolândia ninguém se entende. Que ninguém fale, pois as paredes têm ouvido! Que ninguém escute, pois não saberá de nada! As maletas agora são de grampos, muitos grampos. Na Grampolândia é assim: todos sabem de tudo e ninguém sabe de nada! Consta que, nesse país, os mudos estão todos empregados nos órgãos públicos. É um país mais silencioso do que a Islândia. Consta ainda nos atlas de geografia humana que seus habitantes são muito abin-tolados, tentando escutar palavras que, por sua vez, tentam se ocultar. Enfim, caro leitor, as informações são contraditórias, conflitantes e conspirantes. Limitamo-nos a expor os fatos, com o cartesiano rigor dos surrealistas. De nossa parte, não escutamos nada, apenas escrevemos, que é coisa altamente insegura, mas inegavelmente terapêutica. O melhor negócio, como disse alguém, é não abrir a boca, o que também nos livra dos bocejos de tédio. Pronto, não bocejo mais e aconselho meu leitor a fazer o mesmo. Além do mais, em boca fechada não entra mosquito e, muito menos, grampo!
Escrito por Paulo Gustavo às 10h19
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GRAMPO (Um bilhete de FreiJosé de Lorena, da Ordem dos Sacanas Menores)
“Paulo amigo, aqui no Supremo Confessionário Federal, estão grampeando os fiéis. Parece que um bando de abin-lolados está por todo o convento. Querem grampear minhas sacanagens! É mais um escândalo insuportável. Outro dia, eu pensava que estava com uma pulga atrás da orelha. Que pulga que nada, era mais um grampo! Até eu mesmo tou contagiado: quando chega mulher despenteada, descabelada, sempre aconselho usar grampo. Como sempre vejo coisas cabeludas e excitantes, também mando grampo pra cima. No confessionário, já escuto a confissão com o grampo ligado. O fascínio tem sido grande entre as fiéis: querem pegar no meu grampo, manipular, chupar, levar pra casa, usar o grampo como tampo... Mas o segredo é a alma desse negócio de grampo e de confissão.
Abraço.
Frei José de Lorena, O.S.M.”
Escrito por Paulo Gustavo às 08h31
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FERNANDO DOURADO, HOMO VIATOR
“Le centre du monde est partout et chez nous” Paul Éluard
Fernando Dourado é um desses pernambucanos fabulosos que, sem deixarem de ser sempre pernambucanos e sempre fabulosos, estão como que desgarrados pelo mundo. No entanto, aparentemente desgarrados. Por serem quem são, levam consigo o próprio Estado pelo mundo afora. Mundializam-se sem se despernambucanizarem (verbo que é quase um trava-língua!)...
Dourado, para quem não acompanha suas crônicas na Revista Amanhã ou ainda o desconhece pessoalmente, além de brilhante consultor quando o assunto é negociação com culturas estrangeiras, tem uma sensibilidade artística ao traduzir em textos lapidares suas aventuras comerciais pelos quatro cantos do mundo. Ninguém como ele para, com leveza e conhecimento de causa, nos ensinar a tratar com os povos das mais diferentes latitudes. Com uma trajetória que inclui 120 países, ninguém melhor do que ele para saber do que está falando. Suas naturais antenas de homo viator não apenas se conectam à realidade — tão nua quanto tantas vezes crua — como ao imaginário artístico e literário dos povos que conhece e com quem confraterniza, sejam estes adeptos de Confúcio, sejam seguidores de Maomé, sejam nórdicos ou calorosamente austrais. Sabe, de longa data, que a arte, e em especial a literatura, tem o condão de algumas revelações humanas e essenciais.
Mas desde menino Dourado sempre foi assim, homo viator, uma espécie de “cigano de beca” para recordarmos aqui a deliciosa expressão com que Gilberto Freyre se referiu a si mesmo. Desde menino, a intimidade com vários idiomas e o encantamento das viagens o seduziram para sempre. Assim como a grande literatura e a melhor expressão para narrar e comentar alguma coisa. E isso com a naturalidade de quem ama o que faz e com os olhos argutos de quem muito viu. Olhos en coulisse, de quem os aperta para melhor dirigir o foco da atenção e perceber no interlocutor os achados de uma conversa privilegiada.
Agora, após nos ter brindado com outras obras que também nos arrastam em suas viagens pelo mundo, Dourado nos premia com este “passaporte” chamado Viajante de Corpo e Alma e, assim, embarcamos com ele não só para uma colheita de pitorescas curiosidades mundo afora, mas também, e sobretudo, para alargar nossos próprios horizontes e podermos confraternizar com tantos povos e culturas diferentes. É de corpo e alma que nos entregamos a seu novo livro, a suas saborosas narrativas, a seus imprevistos adjetivos e a suas metáforas que, como num romance, vêm refrescar e colorir o nosso entendimento.
Escrito por Paulo Gustavo às 12h17
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