AINDA SOBRE ROBERTO BOLAÑO
Volto a comentar sobre Bolaño, o grande ficcionista chileno precocemente desaparecido em 2003, no auge de sua produção, quando contava apenas cinqüenta anos.
Leio agora de Bolaño a novela Noturno do Chile e mais uma vez fico seduzido por sua escrita singular e febril, fecunda em imagens poéticas que transmitem uma percepção psicológica e original. O que chama a atenção é o ritmo sempre veloz da narrativa. Veloz e sincopado, como se não houvesse tempo a perder. Como no romance Os Detetives Selvagens, subjaz ao texto, como um vasto tema disperso, a própria literatura e suas implicações com a vida, com a realidade, com a existência problemática do mundo. Bolaño, se quisermos talvez procurar um parentesco artístico, descende dos surrealistas e da face dionisíaca do Romantismo. Seu texto embriaga e causa vertigens, descentra o leitor para levá-lo numa espécie de montanha russa a contínuos paroxismos. A poesia não dá trégua ao ficcionista, o ficcionista não deixa paz ao leitor, o leitor não sabe mais que bússola seguir e o que segue é um labirinto encantado a que, em algum momento, deverá voltar pela densidade do que está implícito e pela reflexão (pessimista, é verdade) da condição humana.
Escrito por Paulo Gustavo às 12h03
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PELÓPIDAS SILVEIRA
Recife e Pernambuco perderam um dos seus maiores homens públicos: Pelópidas Silveira. Sério, honrado e cordial, havia se tornado uma referência política, um “ícone” como agora se costuma dizer. Aos 93 anos, era lúcido e não só lúcido como atento à cena política e social. Fará falta como poucos esse que foi três vezes prefeito do Recife e tanto fez pela cidade, com seu espírito cívico e empreendedor.
Escrito por Paulo Gustavo às 10h54
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FREI JOSÉ DE LORENA, DA ORDEM DOS SACANAS MENORES, ESTÁ EM TAMBABA, NA PARAÍBA
“Paulo amigo, escrevo-lhe de Tambaba, a praia naturista da Paraíba. Estou num congresso de naturistas. Estou ‘tambabando’ (acabo de criar esse neologismo polissilábico), mas não tanto quanto gostaria. Não é a feira da sulanca, é a feira da pelanca! Aqui, sim, pode-se ficar à vontade. Esse negócio de ‘ficar à vontade” tá na moda. Os flanelinhas agora dizem: ‘Pode ficar à vontade, doutor!’ e me dá logo vontade botar o pau pra fora! Pois, como ia dizendo, estou à vontade e disposto a mil putarias. Mas o difícil é encontrar uma gatinha, já encontrei baleias, mamutes, uma tamanduá que me deu bandeira, uma antropóloga esotérica. É proibido, claro, fazer gracinhas e olhar propriamente para as partes fudendas, isso é do regulamento. Já estou farto de ver, fazendo que não vejo, ‘monoblocos’ colossais e alegres e saltitantes jaburus. Creio, caro Paulo, que entrei numa fria, senão numa gelada, nessas águas mornas de Tambaba. Volto amanhã para João Pessoa, aliás atrás de qualquer gata que esteja cheirosa, elegante e bem-vestida e tenha um sagrado horror ao naturismo militante. De nua e crua, só quero a verdade, e se ela estiver envergonhada ainda melhor!”
Escrito por Paulo Gustavo às 10h40
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"COMERCIAL" DO BLOGUEIRO
Obra de escritor periférico e provinciano, o livro O Poder da Noite (poemas), encontra-se à venda na Livraria Cultura (www.livrariacultura.com.br).
Escrito por Paulo Gustavo às 09h22
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PARA PEDESTRES
A Prefeitura do Recife anuncia uma ponte para pedestres que ligará o bairro da Jaqueira ao da Torre. A notícia é boa e chama a atenção para o óbvio: além de novas pontes para o trânsito normal, faltam pontes para pedestres sobre o Rio Capibaribe. Para os desvalidos pedestres do Recife. Que não têm calçadas. Que não têm segurança. Que não têm sombra de árvores amigas.
Numa cidade de canais e de pontes como o Recife, fazem falta pontes ou pontilhões para pedestres. Pedestres trabalhadores. Pedestres estudantes. Pedestres turistas. Pedestres que amam caminhar por sua cidade. Os — repito — desvalidos pedestres do Recife. Que venham, pois, mais iniciativas como a que se anuncia, que ampliem e desafoguem a circulação, que estimulem caminhadas, que facilitem a vida daqueles que, não dispondo de carro, mal dispõem de um precário serviço de transporte público.
Escrito por Paulo Gustavo às 08h54
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ANALFABETISMO “ALARMANTE”
Ainda bem que o ministro da Educação, Fernando Haddad, disse, recentemente, que é “alarmante” o índice de analfabetismo entre os jovens da Região Nordeste. O percentual é de 12, 5% entre aqueles de 15 a 29 anos. Os números são massacrantes, a realidade, abominável. Ainda bem — repito — que o ministro diz “alarmante”. Mas é preciso que ele se diga também “alarmado” e de fato contribua para mudar esse quadro que deveria entristecer não só a nós, nordestinos, mas a todos os brasileiros.
É bom que esse “alarmante” grite bem alto a desigualdade regional do País e venha de fato a alarmar governo e sociedade para um problema que é de base, sem a solução do qual o próprio futuro fica comprometido. A Educação tem de se tornar uma questão republicana de fato, acima das ninharias e dos “lados” políticos. A “casa-grande” do crescimento econômico não pode e não dever estar cercada das “senzalas” da pobreza social e da pobreza de espírito.
Escrito por Paulo Gustavo às 12h12
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VINTE MACHADOS E UMA CAPITOLINA
Este é o nome da nova exposição de pintura da artista plástica pernambucana Jéssica Martins, no restaurante Matita Perê, na rua Dr. Malaquias, 88, nos Aflitos, no Recife. Como o nome já sugere, a artista faz uma homenagem ao escritor e à sua mais famosa personagem. Para conhecer mais o trabalho da artista, sugerimos uma visita ao site www.jessicamartins.com.br
Escrito por Paulo Gustavo às 09h04
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MENINOS, EU VI: ELA EXISTE!
Ainda não tinha experimentado o estranho prazer de me deparar, no Recife, com a blitz da Lei Seca. Julguei, por algum tempo, que se tratava de um fantasma, uma assombração, de uma simples lenda sueca (a Lei se inspira na da Suécia, conforme dizem) inventada para atormentar nossas incursões a bares e restaurantes.
Meninos, eu vi! Era um verdadeiro acampamento na Av. Caxangá, e um ousado cidadão lá estava como um animal a soprar no bafômetro o seu hálito puro ou impuro. Era um tribunal da Santa Inquisição. Mesmo em jejum de qualquer álcool, senti o desequilíbrio de uma longínqua embriaguês e o orgulho terrível, é certo, de viver numa terra civilizada, livre de bebuns na direção. Não fui parado! Ainda imaginei um discreto aceno de um dos guardas. Por pouco, muito pouco, o motorista da frente não bate no meu carro, pois engatou uma ré como o diabo que foge da santa cruz!
Enfim, chispei daquele lugar terrível e “sagrado” qual se fosse outro demônio. Pelo retrovisor, ainda olhei com temor reverencial para aquela cena da qual satã em pessoa teria medo! Deixai toda esperança, vós que bebeis!...
Escrito por Paulo Gustavo às 08h32
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