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DE VOLTA AO PARQUE DONA LINDU
Sempre fui a favor do Parque Dona Lindu, ou melhor, da obra — na verdade um equipamento cultural — projetada por Niemeyer para a praia de Boa Viagem, no Recife, por encomenda da prefeitura da cidade. Discordo apenas que seja um “parque” e que se chame “Dona Lindu”, em homenagem à mãe do presidente Lula. Não que a genitora do presidente não mereça uma homenagem, quer do filho hoje ilustre, quer de políticos, quer de instituições privadas ou públicas. O que suponho é que Dona Lindu poderia batizar um outro projeto mais condizente com a sua fama de mulher digna, trabalhadora e corajosa.
Como se sabe, o parque que não é parque causou polêmica em parcelas da população do bairro de Boa Viagem. Em parte, com alguma razão. Os moradores reclamavam um parque e apareceu o “Dona Lindu” com o reconhecido charme da genial assinatura de Niemeyer. A prefeitura tropeçou, intencionalmente ou não, no termo “parque” e no intento de aplacar os desejos da zona sul. Frustraram-se os sonhadores de Boa Viagem imaginando que talvez fosse cair do céu — ou melhor, dos gabinetes da prefeitura — um parque como o que a cidade já tem no bairro da Jaqueira, com árvores antigas e frondosas, pistas para bicicletas e caminhadas, etc. O que não se sabe bem se de fato seria possível num bairro como Boa Viagem... De resto, a sonhosa população praieira, embalada por essa carência e pelos mais verdes sentimentos, custou a cair na real e, portanto, a engolir a nova obra, mesmo esta sendo subscrita por Niemeyer. Correu a polêmica “como roçam na vaga as andorinhas”...
O fato é que o centro cultural — e não parque — está se vestindo e ficando bonito, mais para lindo do que para Lindu. De minha parte, penso que a obra se fazia necessária. A orla de Boa Viagem sairá enriquecida com o novo equipamento, com as famosas curvas niemeyrianas somando-se às curvas e verdes ondas do Atlântico que, sem entrar na polêmica, continua gratuitamente embelezando aquela praia urbana nordestina.
Escrito por Paulo Gustavo às 10h31
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“IR À GLÓRIA SEM PAGAR O BONDE!”
Machado de Assis está na moda. Por isso, caro/a leitor/a, trago, no título acima, um trocadilho do Mestre. No nível literal, o bruxo do Cosme Velho se referia ao bairro da Glória, no Rio de Janeiro; no nível conotativo, onde aliás quero chegar mesmo sem bonde, referia-se àqueles que querem se tornar célebres sem qualquer sacrifício ou esforço. Logo, é frase atualíssima ao contrário da literal, pois se o bairro da Glória continua lá na Cidade Maravilhosa os bondes, estes há muito já saíram dos trilhos. Frase atualíssima, de vez que a esperteza e os equívocos presentes (e já presentes em todo o passado!) são muitas vezes o preço da glória que se alcança baratinha, sem se pagar com a moeda do trabalho e do esforço próprio. Glória passageira, superficial, mas ainda assim glória, sem a rija firmeza do outeiro carioca com sua igrejinha histórica que lá está a dominar a paisagem como nos tempos de Machado.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h44
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O ESTADO VAI AO PALANQUE
É bizarro, mas está aí no Brasil de hoje. Nas asas aerodinâmicas de sua alta popularidade, o presidente Lula esquece, mais uma vez, que, além do governo, representa o Estado brasileiro. E quem vai ao palanque (eletrônico ou não) defender o candidato A, B ou C? Certamente, os dois: o chefe de governo e o chefe de Estado. Penso que a nação poderia aproveitar esse auspicioso momento para Lula ser sagrado rei e nos governar até os últimos dias de sua longa e exitosa vida. Ficar-lhe-ia bem o cetro e o certo. Ficar-lhe-ia bem a majestade imperial, talvez até imperiosa. Poderia até operar milagres. Com a monarquia restaurada, com ordem e progresso (sic), com o poder moderador (sic), chegaríamos todos à terra prometida.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h11
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FREI JOSÉ DE LORENA, DA ORDEM DOS SACANAS MENORES, ESCREVE SOBRE MACHADO DE ASSIS
“MACHADO A MACHADADAS!
Caro leitor, não entendo nada de literatura, sobretudo numa época tão pouco literária como a nossa. Também não entendo nada de Machado de Assis, mas desconfio que o centenário de sua morte está acabando com ele. Pobre Machado! Como ocorre com o Braz Cubas, os vermes não deixam o escritor em paz. São verdadeiras machadadas em cima do Machado. Só falta dizer que Machado era gay, que de dia era Joaquim e de noite era Maria! O grande tema de Machado, pelo que leio nas folhas, era, quem diria?, a putaria. Sob esse aspecto, os chifres de Bentinho crescem a cada dia: o leitor corre até o risco de furar as mãos quando lê o Dom Casmurro. Todos querem ver e cheirar os chifres de Bentinho. De minha parte, posso dizer que eu também teria comido Capitu (inclusive a rima) com ressaca e tudo. E que ressaca é essa?, hão de investigar os ‘idiotas da objetividade’, como diria o Nelson. Capitu bebia muito ou era Bentinho que tomava porres de água benta?! Tudo isso começa a ser aclarado pelos doutos e entendidos. Como não sou entendido nem sou douto, apenas especulo, como aliás especulo sobre aquele conto da linha e da agulha, da agulha que no seu buraquinho vai levando linha ordinária. Haja buraco pra tanta linha ordinária! Enfim, interpretando-se hoje essa anfibológica passagem, supõe-se que a agulha, realisticamente falando, nasceu para tomar no cu. Para não me alongar, chego à conclusão de que Machado é simples e primário, já as machadadas é que são complexas e triunfais! E fico por aqui, pois, como o conselheiro Ayres, “tenho tédio à controvérsia!”
Escrito por Paulo Gustavo às 09h30
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FERNANDO CASTELÃO, O TRIUNFO DO BOM HUMOR
Com a publicação de Todos contam sua história, Fernando Castelão, este grande pioneiro do rádio e da televisão pernambucanas, nos oferece um livro que é um verdadeiro show de memória e de bom humor. Ao contar sua própria história, Castelão não se encastelou num narcisismo por vezes tão freqüente ente as estrelas midiáticas de ontem e de hoje. Muito pelo contrário, o próprio título do livro nos traz à memória uma história coletiva, aberta a muitas vozes e presenças.
Sem “nenhuma pretensão de literato”, como afirma o autor, seu livro é o triunfo do bom humor. Nada de mágoas, de ressentimentos, de mesquinharias. Todos contam sua história é um livro de quem sempre amou o que fez. Daí que suas singelas evocações tenham o magnetismo da verdade e o dom de nos transportar para uma época heróica e pioneira quando o esforço de artistas e empresários se somavam para fazer acontecer o rádio e a televisão em nosso Estado.
Com rara lucidez, Castelão intuiu que, ao falar dos outros, dos seus inúmeros colegas de convívio e profissão, era como se falasse de si mesmo. Sua voz era também a própria voz de quantos participaram de seus shows, de seus programas, de suas atuações. Não é de admirar que num livro de tantas evocações a saudade esteja presente, regendo o desfilar de tempos que se foram para sempre. Nomes de artistas nacionais e pernambucanos formam uma pequena multidão, à qual o grande apresentador pernambucano tributa o seu carinho e seu devotamento de memorialista.
É na singeleza mesma do livro de Castelão que reside seu maior apelo, sendo a saudade e o bom humor seus inesquecíveis temperos. Mais uma vez, é o comunicador que triunfa, fazendo-nos reviver o que de outra forma talvez fosse perdido para sempre. Afinal de contas, que historiador atual não sabe que essa pequena história é tão valiosa quanto a grande e a monumental? Sem a pretensão de um cientista, mas com o coração ainda acelerado de quem viveu tantas emoções, Fernando Castelão traz seus amigos e admirações para o grande palco da memória. Como no passado vivido e real, há um pouco de tudo e todas as variedades trazem sinais de alegria e de sucesso. Eis que de repente reabrem-se as cortinas e um homem versátil, não mais sob o foco das câmaras de TV mas sob as lentes da memória, contagia a todos com seu bom humor, sua simplicidade e seu grande amor pelo que fez e realizou.
Escrito por Paulo Gustavo às 08h57
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