POETA TAMBÉM PERTURBA A REPÚBLICA ESCOLAR!
Matéria da Folha de S.Paulo de hoje relata que um professor de literatura da Escola Parque, no Rio de Janeiro, uma das melhores da Cidade Maravilhosa, foi expulso depois de haver dito aos alunos que tinha um blog onde escrevia poemas eróticos. Os adolescentes, claro, parecem ter gostado da idéia, e os poemas começaram a circular em cópias impressas, etc. Pressionada por um grupo de pais, a escola deu o bilhete azul ao escritor, alegando que havia, segundo ele, “uma incompatibilidade entre os dois ofícios — o de professor e o de poeta”. Outro grupo de pais protestou, mas, ao que parece, o poeta continuará de fora.
O professor, pelo que se vê, cometeu dois “pecados” graves: fazer poesia, o primeiro; e o segundo, tocar em sexo. Unindo uma coisa à outra, transformou-se num elemento, como diria Platão, perturbador da República. A “platônica” escola reedita, em nossos dias, uma conhecida intolerância e, de quebra, investe inutilmente contra a internet, banindo o professor do mundo analógico como se pudesse bani-lo da realidade virtual. De minha parte, defendo o poeta e seu erotismo. O que não tenho condições de defender — porque não conheço — é a arte literária do professor e os seus supostamente picantes poemas. Torço para que sejam de boa qualidade estética. E torço para que arranje logo outro emprego: afinal, poeta também come e tem contas a pagar!
Escrito por Paulo Gustavo às 09h08
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LIXO POR TODA PARTE
Fala-se muito, não por acaso, do lixo “virtual” da internet. Ora, o lixo, o velho lixo humano, está em toda parte. Há muito lixo na cabeça das pessoas, às vezes mais difícil de ter solução do que o dos lixões das cidades brasileiras. As livrarias estão cheias de lixo. As escolas não ficam atrás, inclusive as universidades, cujo lixo acadêmico vem sempre embalado num discurso perfumado e pitoresco. Há lixo na mídia, entre os filmes, entre as artes. Nas letras, não é bom nem falar: o lixo acumulado ao longo dos séculos daria para sufocar a humanidade ou boa parte dela. No funcionalismo público, o lixo é da melhor qualidade e sempre com o selo protocolar e burocrático da ignorância fulminante. No poder, ah no poder o lixo reina desde tempos imemoriais, mesmo que queiram enterrá-lo com pompa e circunstância. Enfim, o lixo está em toda parte a desafiar os grandes e doutos especialistas no assunto. O melhor é que o lixo se dá ao luxo de não parecer lixo. O lixo come pelas beiras. Também este blog, leitor/a amigo/a, está cheio de lixo: é muito joio e pouco trigo. Paciência!
Escrito por Paulo Gustavo às 17h03
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GUIMARÃES ROSA E MACHADO, (IN)COMPARÁVEIS
A dupla efeméride, em 2008, dos cem anos de nascimento de Guimarães Rosa e dos cem anos de falecimento de Machado de Assis tem sido um ótimo pretexto para o Brasil, à luz dos dois autores, refletir sobre seus caminhos e sua própria cultura. Do ponto de vista estritamente literário, esse pretexto é ainda mais propício, já que para machadianos e rosianos a coincidência cronológica faz lembrar coincidências ou incoincidências de visões, de escrita, de valores e de atitudes.
O fato é que Machado e Rosa são dois escritores incomparáveis no sentido positivo e coloquial desse adjetivo. Mas, por outro lado, seriam extremamente comparáveis porque, embora pertencendo a diferentes famílias de escritores, têm, sim, não só o parentesco dos clássicos, como o parentesco e as afinidades que a crítica literária, não sem agudeza, vai descobrindo entre ambos.
Machado é a mão do século 19 que se projetou no 20 e se alonga para o futuro. Rosa é a luva do 20 que — metódica e artificiosamente — torna-se um símbolo de busca, de pesquisa, de gigantesca capacidade de síntese e de interculturalidade. Luva que encobre uma mão tão genial quanto a do autor de D. Casmurro. Com isso, não quero dizer que são “a mão e a luva”; pelo contrário, sobretudo se pensarmos nas diferenças mais evidentes e que, apenas simplificadamente, podemos listar. Machado é o urbano; Rosa, o interior; Machado é o materialista; Rosa, o deísta; aquele tem “rabugens” de pessimismo, este tem a fé dos otimistas; aquele se compraz na galhofa, este predominantemente na seriedade de quem, além de amante telúrico, tem um misticismo indisfarçável.
Todavia, por mais que tenham alguns sinais opostos, aproximam-se pela consciência de que a literatura é uma forma estética conduzida pela linguagem. Como lembra Machado, muitas vezes a matéria da narração é nada, a forma de a narrar é que é tudo. Cada um a seu modo, pesquisam o mistério de estar no mundo e têm uma imensa consciência dos seus “feitiços” e da sua capacidade de sedução. Tudo neles é trabalho e altíssima invenção poética. Ao jogarem com as palavras, jogam tudo de si próprios para conseguir aquele efeito único e perturbador que é característico da grande poesia até hoje criada. Mestres que são, não descuidam de passarem por discípulos, mas discípulos que foram além da tradição literária que lhes foi confiada. Cada um a seu modo, são escritores apolíneos, em vez de sentimentalmente dionisíacos, o que é um esforço de cultura e de atitude num país afeito aos arroubos e às oscilações ibéricas tão bem estudadas por Gilberto Freyre. Enfim, (in)comparáveis!
Escrito por Paulo Gustavo às 08h55
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LUTO NA PUBLICIDADE
Aos 84 anos e ainda atuante como consultor, faleceu ontem, no Recife, o publicitário e artista plástico Ítalo Bianchi. Italiano de Milão,há muito era radicado em Pernambuco onde criou e dirigiu a agência Ítalo Bianchi. Diferentemente de muitos colegas de profissão, na qual foi um pioneiro no Brasil, Bianchi era senhor de uma sólida formação cultural. Nos últimos tempos, também vinha se dedicando à crônica, gênero em que também compartilhava seus conhecimentos de arte e de literatura. Passou à história.
Escrito por Paulo Gustavo às 14h55
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O ENIGMA DO VERDE
Não consigo entender por que os nossos prefeitos não arborizam mais as cidades. No caso do Recife, é lamentável que não existam outros bairros como o Espinheiro, que, apesar desse nome tão árido, exibe em suas ruas e avenidas velhas e frondosas árvores, capazes ainda de uma veludosa e sedutora sombra. A sombra, para nosso clima tão quente, é mais que sombra, é água refrescante, oásis, um freio ao tórrido calor da estação sem chuvas.
O Recife precisa de árvores que dêem sombra, quer pela utilidade, quer pela beleza das ruas vestidas de verde. A cidade precisa de túneis verdes com os quais possa ser contrabalançada a poluição sonora e atmosférica, a feiúra de algumas fachadas, o estresse causado pelo trânsito. A cidade precisa dessa sombra amiga para contrabalançar também a luz excessiva, o império de um sol que reina absoluto e praticamente sem controle urbanístico!
Escrito por Paulo Gustavo às 09h16
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