O OTIMISMO CONGÊNITO
Onde a contemporaneidade vê uma coisa, a posteridade poderá ver outra completamente diferente. E ninguém estará lá para ver. No presente há tendências e apostas; na posteridade, um real tão claro quanto o de hoje. Os homens — e sobretudo os artistas — descrêem da humanidade da boca pra fora; no fundo, querem aplausos e reconhecimento nem que sejam curiosamente póstumos, quando já tiverem ido, como diz Machado, estudar a geologia dos campos santos. Quem não quiser amanhã que toque fogo no que criou ou tentou criar. Há muita esperança, e o amor-próprio tem evitado grandes tragédias pessoais. Pode ser ridículo, mas funciona dessa forma. No ridículo, como lembrou Mário de Andrade, também se conta com “companheiros ilustres”. Enfim, quem cria algo já tem em si mesmo uma espécie de otimismo congênito, mesmo descrendo da humanidade.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h46
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SAUDADES DO TREMA
(com a preciosa ajuda de Gisele Bündchen)
Por ter saudades do trema
Visito a Gisele Bündchen.
Não faz meu tipo, mas lembra
Com seus olhos pouco virgens
Outras belas ipanemas.
Aquele Bündchen com trema
Parece piscar grafias
De verdes praias desertas.
Mas sem trema o que seria?
Não seria a praia certa!
Beijo o trema de Gisele
Com meus olhos ortográficos.
E o trema de sua pele
Me entorpece cenográfico:
São os olhos de Gisele!
Unindo a saudade à língua,
Passeio na pele clara,
A clara pele tão bela
Em que treme, jóia rara,
Um trema e sua aquarela!
Escrito por Paulo Gustavo às 18h44
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APUDÔMETRO
Penso que a douta Academia está na hora de adotar o instrumento bibliodidático que recentemente inventei. Trata-se do — com licença da palavra, que chega a ser de mau gosto — apudômetro. O curioso instrumento mede digital e instantaneamente, numa tese ou monografia acadêmica, o número de ocorrências das citações de segunda e terceira mão. Pude já testá-lo em diversas ocasiões em que me foi dada a graça intelectual de me deparar com estudos acadêmicos. É batata! E é um indicador da profundidade intelectual do autor. Profundidade, já notou o leitor, é modo de dizer... O apudômetro não falha, embora ainda não tenha sido aprovado pelo nosso eficiente Inmetro! Com esse tão notável quanto prático recurso tecnológico, logo se perceberá que os acadêmicos comem apenas a casca grossa da literatura sobre o assunto, não que sejam cascas grossas, mas o fato é que não vão ao caroço da coisa ou a coisa do caroço. Use você também o apudômetro e verá que o mundo acadêmico não lê melhor que o mundo adolescente. O apudômetro não tem exatamente contra-indicação. Só tenho certeza de uma coisa: as nossas universidades e faculdades não terão o menor interesse em comprá-lo. Seria querer demais.
Escrito por Paulo Gustavo às 17h51
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FREI JOSÉ DE LORENA, DA ORDEM DOS SACANAS MENORES, REAPARECE NO BLOG E FALA DE SEXO COM ASPIRADOR!
“Paulo, essa crise financeira global parece que é séria. Imagine que na Polônia e nos EUA os caras tão fazendo sexo com aspirador de pó. Isso mesmo: aspirador! Imagino que o negócio é arriscado. Veja a conversa a que secretamente tive acesso. Mas, por favor, não pense que eu tou defendendo tal prática: mulher é insubstituível!
‘Aspirador: — Eu tou ligado em você! Sou papa-pó, mas tou a fim de ser papado!
Homem: — Sou meio alérgico a pó, mas também tou a fim. Que horas a gente pode se encontrar?
Aspirador: — Hoje à tardinha, depois que a faxineira for embora!
Homem: — Mas você vai estar desligado!
Aspirador: — Você me liga, bobinho! Você vai ver como vou fungar e aspirar no seu pescoço.
Homem: — E o pó, cara?
Aspirador: — Você vai ver como estarei limpinho.
Homem: — Assim, eu já vou ficando excitado. Sempre tive uma tara por aspiradores. Você faz o meu tipo...
Aspirador: — E olha que ainda estou na garantia! Não há perigo de pane, é satisfação “garantida”! Sexo seguro... Mas nada de champanhe, por favor.’
Paulo, é o fim do mundo e o macaco amarrado! Ou será o aspirador amarrado?
Abraço do seu fiel e dedicado leitor, José de Lorena, O. S. M.
Escrito por Paulo Gustavo às 16h07
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MACHADO VAI À MISSA
Mas não à missa do galo! “Olha lá, o Machado na igreja”, animam-se as beatas em suas janelas pouco católicas. A excitação é grande na manhã de sol do domingo carioca. No templo, o bruxo, com olhar oblíquo e dissimulado, segura o braço de Carolina e, por instantes, parece sentir a nostalgia do paraíso. Sob a mão direita, treme-lhe uma bengala escura, nervosa como seus olhos de míope. A igreja está cheia. Machado pigarreia. Carolina sussurra-lhe algo. O escritor se inclina para escutar melhor. Lá fora, ficara o tumulto da rua, dos pregões, do ir e vir dos tílburis, dos moleques que gritam. Machado sorri com as palavras da esposa, que nunca saberemos quais foram, talvez um chiste, talvez uma ironia, talvez uma alusão literária. Um velho padre começa a missa. É bom lembrar que em latim, um latim trôpego e duro, mas latim. O bruxo parece impacientar-se e coça discretamente os cabelos embranquecidos. A missa se alonga manhã adentro. O latinório é uma escadaria púrpura que sobe para um céu fantástico. Carolina também parece pouco à vontade — talvez não pelo latim, mas pelos nervos do esposo, tão perto dos seus que pode ouvi-los pulsar. Mas Machado pensa num conto, nas primeiras palavras de um conto tão cênico quanto aquela liturgia. Carolina parece entender o que se passa. E, assim, deixam a missa e voltam à manhã triunfal, em plena comunhão.
Escrito por Paulo Gustavo às 13h24
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“EU SOU O CARA”
A frase das folhas é de Lindemberg, o seqüestrador e agora assassino da jovem Eloá, mas poderia ser de milhões de brasileiros que chegam à violência como fonte de identidade. A busca da identidade é co-natural ao ser humano; não o é, porém, a violência para alcançá-la.
Mais que quinze minutos de fama, Lindemberg precisou de 100 horas para infligir sua tortura às jovens em seu poder e às famílias. O ciúme levou-o ao gozo de um poder, e tanto mais poder quanto mais potencialmente destruidor. Não por acaso, ele provocou a polícia, instando-a a invadir o apartamento. Calculista, muniu-se de uma boa quantidade de balas; cruel, ainda espancou suas vítimas; possessivo, viu na vítima uma parte de si mesmo. Para ele, como para muitos por aí, não há conversa possível: é tudo ou nada, a vida, com sua complexidade, resume-se a instantes sem conexão com a grande teia humana. Sua conexão com o mundo não era mais que sua paixão mórbida pela adolescente. Conexão única, insulada da realidade. Uma fantasia que se repete em muitos jovens imaturos e muitas vezes negligenciada pelas famílias e pelos conviventes. Enfim, Lindemberg explica-se facilmente, mas aparentemente não se justifica.
Atribui-se a Vitor Hugo a observação singela de que o sexo pode magicamente transformar um simples garçom num verdadeiro deus. É verdade. Lindemberg talvez tenha acreditado ser o “deus” de Eloá, o “cara!”. Só que não desaprendeu a ser “deus”, nada tinha que colocar no lugar de sua devota. Seus horizontes, como os de milhares de jovens, estavam fechados. Os “deuses” desacreditados tornam-se demônios. Eis por que é tão terrível pensar que tantos jovens por aí, sem quaisquer outros valores que não a busca a todo custo de uma identidade que lhes garanta uma vida normal, estejam soltos e flácidos como sacos plásticos descartáveis.
Com tais palavras, não deixo de ver a mente criminosa de Lindemberg, mas tento ver a questão social que perpassa a formação de inúmeros outros jovens como Lindemberg e Eloá. Nessa questão, o Estado e a sociedade têm sua parte e deveriam responder por ela. Mas o Estado, como na cena que todos vimos, aparece apenas como “polícia” e como “invasor”, embora, como se sabe, não sejam seus melhores e mais desejáveis papéis.
Escrito por Paulo Gustavo às 10h48
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