A VELHICE DE CADA UM
Sonha-se com uma velhice que jamais ocorrerá de fato. Romantiza-se genericamente esta última praia da vida. Pouco se teme o seu mal-estar e as suas exigências radicais. Ninguém de fato vê a onda violenta que atravessa os corpos já cansados.
Cada um tem sua velhice. Uns ficam se repetindo indefinidamente. Outros se fecham, impermeáveis às correntes dos ventos da vida. Outros se infantilizam. Outros adoecem, sucumbindo a velhos e poderosos parasitas. Muitos escolhem a morte para não ver a velhice no espelho dos dias. Poucos conservam nos olhos o brilho das grandes e triunfais manhãs. Muitos e muitos abrem cofres que já ninguém mais ousaria roubar. Vários se entregam totalmente à estupidez que traziam em si como o grande e esquecido órgão da sensibilidade. Alguns se apegam a círculos imaginários que os tornam indiferentes ao mundo: rezam, conversam com as flores, voltam a antigas e tépidas ilusões. Uns invocam espíritos de luz, outros invocam demônios; uns têm febre pela manhã, outros à noite, essa febre que, em seu calor, é como uma última carícia da vida.
Escrito por Paulo Gustavo às 12h31
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KADARÉ E A LITERATURA
“A literatura é mais importante do que a vida”. A frase é do escritor — do grande escritor albanês — Ismail Kadaré, na entrevista que deu recentemente à Folha de S.Paulo. É uma frase-símbolo, típica dos grandes artistas da palavra que não compactuam com uma literatura menor, para a qual parece não haver mais exigências que a de chamar-se a si própria de “literatura”. Kadaré sabe que a grande arte não faz concessões às facilidades contemporâneas. Acredita ainda que a literatura tem sua autonomia artística, indo de encontro à “festa” de equívocos que sob a palavra “literatura” vem enganando os leitores de todas as partes do mundo. Parece nos dizer que a literatura é resistência e que só assim será resistente à fúria do tempo. Com certeza, a literatura, como arte, é exigente e requer sacrifícios pessoais de seus fiéis. Sacrifícios e muito trabalho. Foi o que, dentre tantos outros grandes escritores, também percebeu Proust ao erguer a “catedral” da Recherche na solidão do seu quarto silencioso e silenciado pelas paredes cobertas de cortiça. Até a amizade não escapou ao olhar de Proust como algo que roubava um tempo precioso à construção artística. Por isso, para o escritor — como diria um teórico da literatura — é ociosa (para não dizer cretina) a questão da função da literatura, e justamente porque, como nos lembra Kadaré com sua frase, por ser ela própria, a literatura, a própria vida ou “maior” do que a vida.
Escrito por Paulo Gustavo às 10h19
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2009: ANO DA RESSACA?
Pelo andar da carruagem — e a carruagem, com a crise financeira global, vai ter de ir mais devagar —, ninguém sabe ao certo como o presidente Lula e seu governo desembarcarão em 2010. As recentes eleições parecem ter provado que, apesar da sua alta popularidade, Lula não está emplacando o lulismo como alguns chegaram a pensar. Os ventos a favor do cenário internacional estão ficando para trás e, pela frente, só há incerteza à vista. O eleitor está ficando como São Tomé: quer tocar para ver, e tocar de preferência no próprio bolso, seu órgão sabidamente mais sensível. O lulismo pelo jeito é apenas o próprio Lula, com seu carisma, suas metáforas, sua comunicação direta com as massas, com sua aura de símbolo. O próximo ano, 2009, será decisivo para continuidades ou rupturas. Se 2008 foi de fato o anunciado “ano das compras”, o que será 2009 com a crise e seus efeitos já instalados? Provavelmente, uma grande ressaca. Oxalá não chegue a tanto!
Escrito por Paulo Gustavo às 09h45
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VERSO E PROSA CREPUSCULARES
Fazer versos na juventude é até certo ponto uma fase normal: entende-se a proximidade da poesia lírica com as fortes emoções da adolescência. Melhor fazer versos do que se drogar. Os versos ajudam a refletir sobre o mundo e seus impactos. Os versos são terapêuticos. Assim como a prosa juvenil dos diários — e agora dos blogs. Nada contra confissões adolescentes, sobretudo se se deixam tomar por lânguidas expressões ou por desilusões fulminantes, para as quais os hormônios têm seus antídotos. Se disso tudo resultam livros, estes são pecados passageiros da juventude. O cara começa a viver, trabalhar, ganhar dinheiro, e o lirismo se estiola.
Outra coisa bem diferente e mais pecaminosa é o lirismo elegíaco e vulgar, quase sempre saudosista, dos que vão entrando na hoje chamada terceira idade. São versos e prosa crepusculares com o grave defeito da falta de amadurecimento em plena idade madura ou pra lá de madura. No fundo, muitas vezes, são estertores de má consciência, tecido num discurso superficial e acrítico. São resmungos da velhice que chega, com o agravante de uma veleidade que insiste em ser paradoxalmente inovadora. São mesmices como resíduos de uma sensibilidade superficial. É a literatice da velhice, com mais um agravante: o de tornar-se mau exemplo e o de valer-se de uma posição social já pacificada. Compreende-se o fervor da juventude, mas não se pode desculpar essa febre “alta” e lírica que a vaidade, num gesto derradeiro, faz brotar no amor-próprio de quem se propõe a ser autor depois de tantas vezes ter traído a poesia...
Escrito por Paulo Gustavo às 09h35
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