POR QUE NÃO DIZER “NÃO”?

Numa de suas entrevistas, Fernando Dourado, consultor pernambucano radicado em São Paulo, especialista em negociação com culturas estrangeiras, afirma que, aos olhos do mundo, nós, brasileiros, temos grande dificuldade em dizer “não”. De fato, se observarmos atentamente, vamos encontrar, em nosso cotidiano e à nossa volta, um grande sacrifício, senão constrangimento, em dizer simplesmente “não”. Talvez isso seja fruto — para recordar Nelson Rodrigues — do nosso velho “complexo de vira-lata”, em que estão implícitos e carimbados uma humildade (incômoda, é verdade) e um receio de confrontação. No mais, como bons latinos e ibéricos, não dissociamos da honra pessoal o que deveria ficar apenas no campo das idéias e da objetividade.

 

E no lugar do “não”, o que é que pomos? Silêncios, circunlóquios ou aceites que, mais adiante, vão nos deixar completamente embaraçados. Nosso “sim” e suas variedades se irmanam ao imediatismo de nossa cultura, a uma cordialidade que supomos inevitável e instrumental. Entra em cena o “jeitinho” que nos acomoda provisoriamente a suas soluções. Com isso, pela falta de um “não” claro, sincero e até cordial, muita gente se vê às voltas com encargos insuportáveis que se tornam fonte de angústia e de futuros constrangimentos.

 

O fato é que precisamos, os brasileiros, aprender a dizer “não” de uma forma clássica, direta, sem falsos e infundados remorsos e sem achar que temos a obrigação de dizer “sim” eternamente. Dizer “não” com clareza e para que, dialeticamente, também se valorize o nosso “sim”. Tanto no campo pessoal quanto no campo profissional, esse aprendizado passa por um lento desaprendizado. Um desaprendizado libertador, que, ao fim e ao cabo, nos garante assertividade sem arrogância e densidade sem o peso negativo de uma cultura que, sem maiores ganhos, nos vexa e nos prejudica.

 

Por que não dizer simplesmente “não”? E isso com a calma da verdade e de uma predisposição igualmente cordial. Até hoje o nosso “sim” tem mais nos trazido problemas do que soluções, mais complicações do que a vida deve comportar. Mas esse “não” não precisa necessariamente ter a secura do que é árido e estéril, há de estar bem fundamentado e previamente bem acordado com nossas convicções. Afinal de contas, nossa cordialidade não precisa ser “canina” e sair por aí abanando o rabo sempre afirmativamente. Sequer precisaremos de coragem para vencer a ‘fatalidade” do “sim’, precisaremos somente ser honestos, práticos e éticos, e isso será suficiente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 Escrito por Paulo Gustavo às 11h16 [   ] [ envie esta mensagem ]




ENQUANTO ISSO NO RECIFE

 O “FAROESTE” CONTINUA

 

Os assaltos à mão armada no Recife intensificaram-se nos últimos dias. O medo e a insegurança continuam apavorando a sociedade. Ricos, poderosos e governantes seguem blindados, e a população que se dane em meio à selva dos bandidos. De moto, de bicicleta, isolados ou em grupos, os assaltantes fazem uma festa macabra: matando e roubando à luz do sol tropical. Os meliantes sequer se ocultam nas sombras da noite, avançam impune e despreocupadamente à luz diurna. À noite, certamente vão comemorar nos bares, na boemia. Recife — é triste e lamentável dizer — hoje significa risco de morte, de tetraplegia, paraplegia, de inferno tropical. Mata-se e mutila-se alegremente. O horror não chega a sensibilizar para qualquer providência mais efetiva. Faz de conta que temos polícia, faz de conta que temos uma sociedade normal. Faz de conta que a segurança do cidadão é uma garantia constitucional. Faz de conta que vivemos em paz. Faz de conta que não temos medo!



 Escrito por Paulo Gustavo às 12h50 [   ] [ envie esta mensagem ]




ENQUANTO ISSO

 

NA PARÓQUIA DE CASA FORTE

 

A Festa da Vitória Régia (melhor seria chamá-la de Derrota Régia) na Praça de Casa Forte, no Recife, continua, em mais uma versão, a atentar contra o mais elementar bom senso. Como já disse, neste blog, em outros anos, a praça não tem escala para uma festa como a que se pretende. Os equipamentos — barracas, palcos, brinquedos, etc. — entulham-se, apertam-se uns contra os outros, põem em risco a segurança das pessoas. Trata-se, na minha opinião, da mais desagradável festa do Recife. A grande humilhada é a própria praça, constrangida que é a abrigar uma multidão que, curiosamente, parece encontrar ali um régio prazer. A grande e bela praça de Casa Forte — desenhada por Burle Marx — torna-se o palco da insensatez coletiva, dobrando-se aos caprichos de alguns poucos “donos” que insistem numa festa hoje nada paroquiana. A “grande” festa é fruto de uma mentalidade pequena, é uma espécie de missa campal sem qualquer comunhão possível. Uma missa diabólica, antiestética, antilitúrgica, antiecológica. Graças ao bom Deus, ao longo desses últimos anos, ainda não ocorreu uma tragédia. Mas certos anjos já me confidenciaram que Deus está cada dia mais impaciente. E com toda a razão. Até quando abusarão de Sua paciência?



 Escrito por Paulo Gustavo às 11h04 [   ] [ envie esta mensagem ]




ÔBA, HABEMUS OBAMA! – III

No rastro da África, do Quênia, também o Brasil se enlaça simbolicamente ao afro-descendente vitorioso. Nosso sangue negro se irmana, de alguma forma, ao presidente eleito. Americano, Obama é um transamericano, um mestiço como a grande maioria do povo brasileiro. Povo que, como lembrava Joaquim Nabuco, ganhou materialmente um país pela construção de uma infra-estrutura regada com o suor dos africanos. Um suor tantas vezes esquecido e inúmeras vezes traído pela ingratidão nacional. Como símbolo, Obama aponta para um futuro melhor. Por ora, só aponta. Oxalá possa trabalhar para criá-lo.

 

 

 

ÔBA, HABEMUS OBAMA! - II

 

A África, com a vitória de Obama, emerge simbolicamente na cena internacional. A África esquecida. A África relegada. O mundo, pela força da mídia e da vitória do democrata, descobre o Quênia, o pobre Quênia que vê, como por um milagre, um seu descendente chegar à presidência dos ricos Estados Unidos. Amanhã será feriado no Quênia. As aldeias dançarão, as preces subirão aos ares pedindo por Obama, as cores do Quênia se abrirão como as de um pavão, esperançosas de dias melhores.

 



 Escrito por Paulo Gustavo às 12h58 [   ] [ envie esta mensagem ]




ÔBA, HABEMUS OBAMA!

 

Com a vitória de Obama nos Estados Unidos, o mundo vive um dia de intensa esperança. Talvez nunca se tenha visto uma comemoração festiva em tantos países e continentes. Reflui, de certa forma, o sentimento antiamericano, sobretudo aquele gerado pelo famigerado presidente Bush. A crise interna americana acaba de parir, ao que tudo indica, um novo tempo, uma nova era — verdade que ainda por vir, sem cores e densidade ainda definidas. Mas, se nos limitamos ao dia, ao puro dia de hoje, o feito já é gigantesco, tremendamente simbólico. Há dias assim carregados de futuro, fecundados por uma energia coletiva, fundados nos alicerces leves, mas psiquicamente dinâmicos, da expectativa.

 

Num de seus primeiros discursos, Obama teria dito que sempre entrava em “jornadas improváveis”. Este parece ser o tom da sua vida e do seu perfil: amor aos desafios, vitórias sobre os obstáculos. E obstáculos, obviamente, não lhe faltarão. Assim, agora presidente, ou Obama já chegou ao seu limite — o que seria extremamente frustrante para os Estados Unidos e o mundo — ou está apenas começando, deixando para trás crises, preconceitos, guerras e frustrações. Bem, dispensável dizer que o mundo está torcendo por Obama. Oxalá, a mudança tenha de fato chegado.

 



 Escrito por Paulo Gustavo às 10h20 [   ] [ envie esta mensagem ]




LOUCOS EM SERVIÇO

 

Carlos Drummond de Andrade escreveu certa vez que a literatura nacional devia muito ao serviço público, e isto pelo ócio criativo. Não custa lembrar que muitos escritores, inclusive o próprio Drummond, foram servidores públicos. Inclusive Machado, o bruxo este ano tão celebrado. Muitos, como Machado e Guimarães Rosa, foram exemplares, outros apenas sofríveis. Sem entrar no mérito dessa espécie de “felicidade clandestina” para usar a expressão de Clarice Lispector, há que se procurar — aliás, não precisa se procurar muito — outra categoria beneficiada: a dos doidos mansos.

 

Malgrado os testes psicológicos, malgrado os chamados estágios probatórios, o serviço público mal consegue esconder os seus loucos. Entram, se instalam e às vezes até dão as cartas no jogo real do cotidiano, quando, é bem verdade, sanidade e insanidade dançam juntas a valsa lenta do tempo burocrático. Mansos e às vezes nem tanto, tiram também o juízo dos outros, contagiando o ambiente, criando problemas, fantasiando, falando alto, misturando seus dramas ao drama público e patético das circunstâncias institucionais. Mansos, não movem uma palha ou movem todas as palhas para queimá-las na sua fogueira sempre fumegante. Mansos, mas nem sempre, erguem suas cristas rubras como galos que ciscam e põem em polvorosa o galinheiro. Loquazes, parecem dispostos a tudo menos ao próprio trabalho — esse abismo onde por vezes espelham e espalham suas íntimas agonias e épicas neuroses.



 Escrito por Paulo Gustavo às 12h00 [   ] [ envie esta mensagem ]




OS CEMITÉRIOS SOMOS NÓS!

 

O culto aos mortos associado a um local específico — os túmulos — é milenar. Deixo aos antropólogos os fundamentos necessários e aqui dispensáveis. Aí estão as pirâmides, os mausoléus e as necrópoles em geral. O ser humano faz da morte uma continuação material da vida. Uma continuação sensorial. Imagine-se a força espiritual dos túmulos dos mártires e dos grandes heróis.

 

Grandezas e antropologia à parte, o verdadeiro dia de finados se passa dentro de nós. Os cemitérios somos nós. Em poema famoso, Drummond lembrou que andava meio de banda porque levava seus mortos queridos. Os mortos, com ou sem a nossa gratidão, estão dentro de nós. E aqui e ali ressuscitam num gesto ou numa palavra, num conceito ou num simples tique nervoso. Espiam a vida por nossos olhos, flertam com o tempo em nossa memória. O fato é que nossos cemitérios íntimos são menos floridos, apesar de neles sermos o sacerdote e a própria terra que nos aguarda.



 Escrito por Paulo Gustavo às 12h08 [   ] [ envie esta mensagem ]




FLIPORTO: MESA SOBRE GUIMARÃES ROSA

No próximo sábado, 8/11, às 16h30, estarei na Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas – Fliporto (Ipojuca-PE), coordenando a mesa-redonda que homenageia os 100 anos de Guimarães Rosa e cujas estrelas serão as professoras Sandra Vasconcelos (IEB/USP) e Ana Luiza Martins, da UFRJ.

 

Clássico contemporâneo, senhor de uma fortuna crítica que não pára de crescer, Guimarães Rosa, apesar de não vender mal, é, na prática, um ilustre fantasma para a maior parte dos brasileiros. Considerado por muitos um escritor para escritores, lido com devoção e muitas vezes com indiferença e superficialidade, o nosso maior autor do 20 é o que costumo chamar de uma literatura à parte em nossa literatura nacional. Sozinho, genial nas suas inovações lingüísticas, criou uma obra que desafia a mediocridade pátria, fazendo o brasileiro refletir sobre as suas forças culturais quase sempre tão ociosas quanto magníficas.

 

 

 

 



 Escrito por Paulo Gustavo às 10h17 [   ] [ envie esta mensagem ]


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