SARAMAGO E O PORTUGUÊS BRASILEIRO
Em visita ao Brasil, onde está recebendo uma série de homenagens, José Saramago esteve na Academia Brasileira de Letras. Ali, na casa de Machado de Assis, passou o seu “recado” às autoridades e aos intelectuais brasileiros: usando - talvez para dissimular, diplomaticamente, uma confrontação - a primeira pessoa do plural, disse com todas as letras que “falamos e usamos muito mal o português”. No que toca ao Brasil, não há dúvida de que isso é verdade. O tema, recorrente no cidadão Saramago, põe o dedo na ferida: o português e seu ensino viraram uma esculhambação. Embora a língua não precise de “donos” e seja soberana em sua dinâmica, como apontam os lingüistas, é preciso que observar que a chamada “norma culta” no Brasil vem sendo continuamente aviltada pela ausência de uma política de governo para a língua. Nesse sentido, sem embargo da criatividade de nossa língua, nota-se, sem muito esforço, que o português brasileiro vem sendo, nas últimas décadas, continuamente desprezado. Resultado: ensino péssimo, literatura medíocre, leituras equivocadas, comunicação deficiente, enfim “cegueira” sem qualquer “ensaio”...
P. S.: Para a minha divertida surpresa, o corretor ortográfico me sugeriu trocar o termo "esculhambação", acima utilizado, por "desmoralizações" ou "desordens"! Prefiro "esculhambação" mesmo, mais forte em todos os sentidos, apesar das sugestões terem tudo a ver...
Escrito por Paulo Gustavo às 11h09
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Espírito de porco
Tenha cuidado, um espírito de porco legítimo tem a capacidade de, mesmo a distância, transformar sua praia num chiqueiro. É de sua natureza baixar em sessões onde não é invocado. É um espírito com queixo de cavalo e em assombrosa harmonia. Quem está preparado para tal monstro? No fundo, ele quer sugar sua adrenalina como um vampiro das trevas. É um espírito que se espalha pelo ambiente, contagia os incautos e tagarela como um papagaio. Quando você está mais distraído, ele subitamente encarna, utilizando-se de mil recursos e artimanhas. Mas não o exorcize com as mesmas táticas, deixe a poeira ou a lama baixar. Se possível, não respire, não arregale os olhos, não faça movimentos bruscos, pois essa temível entidade se agrada de sua agitação. Proteja seus poros, já que também por aí ele pode escorregar para a sua corrente sangüínea. O maior espírito de porco é como o menor mosquito da dengue: difícil de combater no dia-a-dia, quando se vale das nossas distrações e de seu tato apurado para transmitir as dores de cabeça e as febres suínas que vão nos consumir. Como se sabe, não há vacina: nem para um nem para outro.
Escrito por Paulo Gustavo às 12h59
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DRUMMOND: OS ÓCULOS “TÃO FATIGADOS”!
Pela sexta vez, a estátua sedestre do poeta Carlos Drummond de Andrade, na praia de Copacabana, foi vítima do vandalismo pátrio. Um maníaco talvez, “desses que vivem na sombra”, resolveu cismar com as “retinas tão fatigadas” do poeta, ou melhor, com seu par de óculos, instrumento quase tão constitutivo do escritor como seus lábios retilíneos. Sempre os óculos. Sempre a mesma psicopatologia. Por certo, o maníaco — sempre invejoso do olhar privilegiado do poeta desde quando este era vivo — agora, com a “facilidade de a vítima estar morta” ou ser, como o é uma estátua, inerte, não perdoa que aqueles óculos — típicos, mágicos, faróis dos quais se iluminava a sociedade brasileira e a cultura estética — continuem ali como se ainda vivessem e brilhassem os olhos azuis do poeta. Não tendo conseguido seu intento em vida do autor, esse presumível maníaco não perde tempo. Furtivo como um voyeur, invisível como costumam ser os psicopatas, agride simbolicamente os óculos — o que faz enxergar melhor! — e não exatamente os olhos, aliás mais difíceis ou impossíveis de cegar numa estátua...
Escrito por Paulo Gustavo às 09h48
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