MACHADO NÃO ERA BRASILEIRO!
Para mim pessoalmente, o maior elogio feito a Machado de Assis saiu da pena - no caso, sem galhofa - de Carlos Drummond de Andrade. Logo no início do poema A um bruxo, com amor, o poeta sintetiza: "Outros leram da vida um capítulo, / tu leste o livro inteiro". A metáfora, se peca por excesso, bem diz o quanto Drummond admirava a obra machadiana e o bruxo do Cosme Velho.
Nada, por assim dizer, no Brasil, prenuncia o surgimento de Machado de Assis. Embora não sendo uma ilha, ele é único e verdadeiramente extraordinário. Com ele, o país faz grande literatura pela primeira vez. Nesse sentido, é incomparável, sobretudo se pensarmos na síntese que faz do paroquial e do universal em sua obra, do espírito carioca e do espírito literário do mundo de seu tempo.
Seus traços biográficos formam uma espécie de antiexemplo do brasileiro típico. Equilibra-se num caráter excepcional, alheio aos ímpetos dionisíacos e superficiais dos contemporâneos e do brasileiro em geral. Observa e trabalha, vê em perspectiva mais ampla o que outros só vêem quando na ponta do nariz. É um apolíneo, um honesto consigo mesmo e com os outros, um trabalhador intelectual, um racionalista, um esteta inteiramente confiado ao poder transformador da arte. É um antípoda do seu personagem Braz Cubas no qual o crítico Roberto Schwartz destacou a "volubilidade" de caráter. No mais, não fez do esnobismo, como muitos que ascendem socialmente, uma arma de luta e um modo de ser desfrutável. Não fez da origem humilde uma âncora do passado, soube projetar-se pelo próprio mérito. Nada de cotas de facilidade, e sim trabalho, trabalho, trabalho. O gênio é paciência - já escreveu um autor -, e Machado soube esperar estoicamente pela emergência do seu gênio. Do mau destino, vingou-se elegantemente pela arte. Uma arte a cada dia mais atual e inimitável.
Machado não era brasileiro. Mas, me entendam, não no sentido de ser estrangeirado ou de ter sofrido influências literárias extrabrasileiras. Não era o brasileiro abarrocado e tagarela, não era o volúvel, não era o superficial, não era uma caricatura, não buscou o dia, mas a eternidade. Com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, contribuiu para o brasileiro se ver melhor e até tornar-se um novo brasileiro, e isso sem embargo de uma elaborada forma lingüística. Forma que reflete seu equilíbrio interior, sua compreensão da vida, sua polida presença humana. Forma concisa que espelha o sábio alheio ao tumulto dos modismos e à embriaguez vertiginosa dos "macunaímas" do seu tempo e do nosso tempo: preguiçosos, espertos e sem caráter definido, heróis e celebridades sem consistência, logo esquecidos nos desvãos da história.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h20
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ESTE CIÚME DO CÃO!
Agora é científico: cães sentem ciúme e inveja. O “melhor amigo do homem” também sofre dessas duas marcas de humanidade. Nós todos já sabíamos, mas agora, repito, é científico! Precisamos urgentemente de um Shakespeare e de um Proust para se debruçarem sobre os corações caninos, cujo sangue acaba de se tingir desses dolorosos sentimentos humanos. O estudo recentemente publicado não nos fala sobre o ciúme do cão em relação aos humanos. E por que não? Quem sabe se na docilidade canina não se esconde uma profundo ciúme de nós, humanos. Pobres animais! Falsos animais! Por trás do abanar do rabo dissimulam a inveja do que somos, sem ao menos desconfiarem que somos de fato uns míseros coitados, ansiosos de dinheiro, poder, sexo e tantos outros alvos que só fazem confundir as coisas, fazendo desabar infernos sobre nossas rudes cabeças. Como bons invejosos e ciumentos, não sabem o que fazem! Um conselho de amigo para amigo: contentem-se com seu osso, que deve ser menos duro de roer do que os nossos sonhos, os nossos ciúmes e as nossas invejas.
Escrito por Paulo Gustavo às 12h21
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A VILENI GARCIA in memoriam
Na última vez, a vi redonda como a primeira lua
Tão certa era a vitória
Sobre a morte.
Podia falar alto no alto de seu sorriso,
Deixando para trás
A etiqueta dos enfermos.
Agora, meu Deus,
Viu-se o engano das palavras.
A invisível lógica da morte
Deu-lhe outro céu que não sabemos
E para o qual olhamos sem sermos fortes.
Escrito por Paulo Gustavo às 21h45
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