NESTE NATAL, um demônio apagou as flores de minha casa. À luz do dia, sem temer a gloriosa fúria de Deus que sopra no fim da primavera. Todo o jardim chorava: as abelhas, os pássaros, as formigas, as helicônias com seus estandartes inflamados, as orquídeas com seus fios de prata, as palmeiras com seu aéreo desalento, a terra escura e úmida, o humilde lençol de musgo que acaricia as pedras. Todos pareciam se perguntar a razão do brusco acontecimento, daquela queda em meio ao éden, da súbita escuridão, como se os nervos do vento estivessem congelados. E de fato sentia-se no ar a putrefação dos grandes eventos trágicos. De fato, sentia-se que um demônio estava ali instalado em seu conforto egoísta e triste. Viera, escuro, sem aviso, sem mensagem prévia, sem qualquer sinal. Estava crispado como um ouriço das profundezas desconhecidas. Crispado e flácido ao mesmo tempo, desafiando a lógica com seu longo e invisível queixo. E resmungava sem articular palavra. Com dois galhos miúdos que apanhei do chão fiz uma cruz para suportar o insuportável. Uma cruz, como um farol no deserto, mesmo sabendo que os oásis não nascem de nossas lágrimas.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h48
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ELES ESTÃO ENTRE NÓS!
Salvo melhor análise, a divulgação científica, no que toca a males psiquiátricos, ainda é escassa no Brasil. Sofrem as famílias e a sociedade, sobretudo quando o mal, por assim dizer, é invisibilizado. Nesse sentido, motivos não faltam, mas por certo a ignorância talvez seja o pior deles.
Com o livro Mentes Perigosas: o psicopata mora ao lado, a médica psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva presta à sociedade um ótimo serviço, trazendo à luz - numa linguagem intencionalmente pouco técnica, mas cientificamente rigorosa - os principais traços que identificam o psicopata, desmistificando a figura convencional de alguém aparentemente casmurro, isolado, estranho e assassino, cuja fisionomia de malvado está à vista de todos. Na vida real, como demonstra a autora, tais "vilões" sabem muito bem como dissimular sua patologia e sua inata vocação para o mal, escondendo sua frieza, seu calculismo e seu desprezo pelas regras éticas e sociais. Como o título do livro já sugere, eles estão entre nós, parecem conosco, mas as semelhanças ficam na superfície. Geralmente, não matam - como se crê - mas de fato maltratam, tão gelados quanto icebergs ambulantes sob a falsa indumentária de uma vida normal e de uma sedução que termina por esmagar as suas vítimas. Estão aí por toda parte e de alto abaixo na escala social. Saber identificá-los é o primeiro passo para não cair nas suas manhas e nas suas tramas, geralmente tão sutis quanto inteligentes.
Escrito por Paulo Gustavo às 12h00
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DE SUBSTANTIVO A ADJETIVO
Se você não quer ficar por fora, deve saber que a palavra cidadania, desde alguns anos, está em cartaz. Seu esposo, o cidadão, também. Idem a sua irmã cidadã. Agora, a recente novidade é que de substantivos estão virando adjetivos. Aí você fica lendo com reverência cidadã um artigo sobre ética cidadã ou algo equivalente. Li há pouco que até o Mercosul está virando cidadão. Logo, as artes virarão cidadãs, também a arquitetura, etc. O fato é que a política já tem algum tempo é cidadã.
O novo adjetivo vem enobrecendo os discursos mais plebeus. Que tal escrever uma tese de doutorado cidadã? E escrever uma peça cidadã? Ou criar um anúncio cidadão? Isso provará por a+b que você está plugado nas ultraarrojadas hiperpolíticas públicas cidadãs, que você não deve nada a ninguém em termos de sintonia social e cultural, que você é de fato um cidadão de uma comunidade cidadã. Você logo verá que é o máximo. A palavra é forte, tônica, é um banho de inteligência política sobre o seu interlocutor. Terá ele, o seu interlocutor, uma inteligência cidadã como a sua? Não tem? Pobre criatura, pária lingüístico e social! Você escreve? Dê um toque cidadão ao seu estilo e logo ele será claro, compreensível e generoso. Significa que você não está preocupado com o próprio umbigo, embora, aqui pra nós, nossos umbigos continuem no seu lugar, ciosos dos seus direitos e dos seus caprichos. Tudo, menos cidadania para o umbigo!...
Escrito por Paulo Gustavo às 10h17
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HORRORES DO NATAL
(artigo publicado ontem no Diario de Peranmbuco)
Clóvis Cavalcanti // Economista e pesquisador social
Cada vez mais, o período natalino revela-se a antítese do que seja o sentido do Natal. Muito já se escreveu sobre isso, mas não custa nada ressaltar que a grande festa cristã consiste hoje numa interminável estação de compras e de produção de enfeites exagerados. Com o advento dos Papais Noel infláveis, chegou-se ao cúmulo da mediocridade. Causa mal-estar, deveras, encontrar esses monstrengos instalados em tudo quanto é lugar. Um hospital da Avenida Agamenon Magalhães, no Recife, colocou um deles sobre a marquise de sua entrada principal. Verdadeiro horror de arte da pior qualidade. A mesma coisa se exibe em prédios comerciais, em casas, tabuleiros de vendedores ambulantes, telhados. A que nível chegou a descaracterização da comemoração do nascimento de Jesus! Vá lá que se tenha inventado Papai Noel. Mas transformá-lo em ícone da festa, passa dos limites da sensibilidade que se espera do mundo. O resultado não é só o esquecimento do sentido do Natal, mas o embrutecimento generalizado da sociedade, a qual não pensa em outra coisa que consumir sem freios o que a economia lhe oferece de necessário e, sobretudo, de inútil.
Na loja de fotografias do híper Wal-Mart de Casa Caiada, em outubro, puseram tiras de algodão simulando neve sobre os balcões de atendimento dos clientes (já as tiraram). Para quê isso? Uma agência de seguros no Rosarinho, que costuma primar pelo excesso de luzes no teto de seu escritório, resolveu cobri-lo, este ano, de uma espécie de tecido branco que se supõe ser neve. Além do mau gosto gratuito da iniciativa, fica a dúvida de por que se quer que haja neve nas comemorações natalinas dos trópicos. Jesus não nasceu debaixo de neve. Fazia muito frio na noite em que Ele veio ao mundo. Não nevava, porém. Neve, nesta época, há na Lapônia, no norte da Europa, Canadá, norte dos Estados Unidos, na Rússia, Tibete, Mongólia, etc. Em Portugal, de cuja cultura somos herdeiros, não existe neve no Natal (na serra da Estrela haverá, com certeza). Nosso símbolo é a manjedoura, a simplicidade das circunstâncias ao redor do nascimento de Jesus, a estrela de Belém, os magos, os pastores. A propósito, em matéria de estrelas, o excesso de luz artificial, infelizmente, nos rouba a visão do céu pontilhado dos astros que se espalham nas dimensões do infinito. Sobre excesso de luminosidade, a edição brasileira de novembro de 2008 da (boa) revista National Geographic traz pertinente artigo - com lindas fotos - ao longo de vinte páginas. É um trabalho que chama a atenção para a poluição luminosa que existe como produto da vida moderna, e não apenas, com mais intensidade, no Natal. A questão é que "somos criaturas diurnas, com olhos adaptados para viver sob a luz do Sol". Mostra a revista que esse é "um fato evolucionário básico, mesmo que as pessoas, em sua maioria, não se vejam assim, do mesmo jeito que também não costumamos nos pensar como primatas, mamíferos ou terráqueos". Igualmente, muitas outras formas de vida não estão programadas para viver sob a luz artificial, recurso que se usa nas granjas para acelerar o crescimento das aves, com efeitos cruéis sobre a sanidade dos bichos. Sabe-se, por outro lado, que toda vez que a luz artificial escapa pela natureza, algum aspecto da vida animal - migração, reprodução, alimentação - se vê afetado. Dessa forma, entristece notar como árvores são maltratadas pelas lâmpadas com que lhes amarram os troncos, em alguns casos de modo sufocante. Ou será que esses pontos luminosos (quentes) não causam malefício algum às plantas, aos bichos que nelas procuram abrigo ou alimento, à saúde do meio ambiente? Mais outro horror de um Natal que nada tem a ver com Jesus.
Escrito por Paulo Gustavo às 10h49
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