DOIS POEMAS DE NATAL
Meu Natal é uma infinita tristeza.
Não tem árvore nem raiz
Nem ouro
Nem incenso,
Apenas o que penso
E guardo
Entre uma palavra e outra
- Silêncio de tantas bocas
Caladas na dura neve.
Meu Natal, para que serve?
Recife, dezembro de 2006
NATAL NÃO É HOJE
Ficou só a palavra
A boiar incompleta
No uísque e na raiva
Na espuma da festa.
Apagou-se a estrela
Entre a neve e a nuvem
O que era vereda
Já não toca nem punge.
Nos teus lábios molhados
Há um seco murmúrio.
Entre a fauna e o fauno
É tão curto o futuro.
Com uma gula errática
Peregrinas na noite,
Nessa noite tão clara.
Mas Natal não é hoje!
Recife, dezembro de 2006
Escrito por Paulo Gustavo às 11h03
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CARLA BRUNI NO BRASIL
Num país sensível ao gozo dos sentidos como o nosso, não causa surpresa o fato de que hoje, precisamente hoje, esteja "brunificado" por Carla Bruni, cuja beleza, não custa lembrar, não vem propriamente da França, mas da Itália. Quem se importa com Sarkozy se ele próprio parece desejar (e usar) a bela para abrir as "portas da esperança"? Ao contrário do que comumente se imagina, a beleza não é só uma chave para o gozo estético e físico. Que o digam os novos estudos sobre a mente humana! De nada adianta o ciúme e a inveja de outras mulheres e o torcer de nariz de feministas mais ouriçadas. Querendo ou não, a coisa mental funciona assim, e a beleza tem prerrogativas imediatistas, tem impactos rapidamente transformadores. É claro que na conta de Carla deve-se reconhecer que outros atributos se somam à sua beleza: o status de primeira-dama, a carreira artística, a vida impelida pela sensualidade, a simpatia, etc.,etc. Tudo isso são temperos à sua beleza natural, ao fulgor dos seus olhos e do seu sorriso. Além disso, o quadro do casal se configura típico, convencional, mas nem por isso menos impactante. Convenha-se que Sarkozy, sendo quem é e como é, ressalta o estereótipo, quer seja o do guerreiro com seu troféu, o do macho humano triunfante com a fêmea cobiçada por todos, quer seja o do príncipe que aumenta o seu poder político pelo poder de sedução, como aliás costuma acontecer com os príncipes! Estereótipos à parte ou não (!), o imaginário faz a sua festa, a curiosidade faz outra, e nós, brasileiros, fazemos o resto. Com muito gosto, evidentemente! Parabéns, Carla Bruni! O Ano da França no Brasil já começou, e há muito talvez faltasse um novo e belo rosto para a França. Merci, Sarkozy! O Brasil, Carla, conta com seus mágicos poderes! Mas, por contraditório que pareça, não venha só na próxima viagem!
Escrito por Paulo Gustavo às 13h18
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BOAS-VINDAS A CARLA BRUNI
Neste instante, Sarkozy,
O Brasil, num só suspiro,
Tem grande inveja de ti.
Sabes a que me refiro
Ou precisas que eu te diga?
É que trouxeste do lado
Aquela nossa amiga
Que nos deixa enciumados.
O Brasil se rende à Gália
E com ela se reúne,
Mas o olhar, este se espalha
Sobre a bela Carla Bruni!
Escrito por Paulo Gustavo às 12h44
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ASSOMBRAÇÕES DE FIM DE ANO:
É O NATAL, ESTÚPIDO!
É um pouco como se fosse o fim dos tempos. O fim do ano aqui e ali nos traz assombrações. Como de tumbas lacradas pelo tempo, levantam personagens que há muito haviam saído do campo visual e mental. Saem desses túmulos invisíveis para reatar os fios dispersos do tempo. Ressuscitam carentes de uma palavra de reconhecimento, de uma palavra amiga, de um voto de boas-festas. Provocam nossa reação num auto-engano que favorece a auto-estima.
Não pensávamos em encontrar esses "fantasmas". E eles geralmente são desagradáveis, têm uma espécie de mofo da memória. Invocam, com orgulho, a caridade cristã de um gesto e de uma palavra para novamente existirem. São "espíritos" que vêm acompanhados do "espírito natalino". Após esse ritual um tanto fúnebre, voltam para suas covas rasas, quietos e aplacados.
Só resta dizermos para nós mesmos: "É o Natal, estúpido!".
Escrito por Paulo Gustavo às 12h14
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AS BELAS E AS FERAS
Entre a juventude a cena é freqüente: as belas amam as feras, doam-se, entregam-se, criam carinhos, fazem beicinho, derretem-se amanteigadas, exalam inebriantes perfumes, deslumbram com praias selvagens e secretas, ofegam como desprotegidas felinas, acenam exuberâncias de fêmeas noturnas, arrumam e desarrumam os cabelos, sorriem do nada e para o nada. As feras, por sua vez, desagradáveis, têm a imbecilidade eterna na cara e na voz, os olhos rasos como pires de cristal, o orgulho nem sempre disfarçado, a negligência mental digna dos sapos dos contos de fada, serão os próprios sapos a dizer em silêncio: "- Sou príncipe, sou príncipe", repetindo para se livrarem do pântano e chegarem aonde Eros os transforma em cavaleiros radiantes e onde a beleza das belas é uma trêmula e inquieta flâmula.
Escrito por Paulo Gustavo às 10h03
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