ANO NOVO É "OUTRA COISA"!
Parece que foi anteontem o ano de 2008! O ano novo já começa no dia 2. Dia 1º não conta: é da Paz Universal, uma ficção em que ninguém acredita mesmo. "A Favorita" parece convencer muito mais. Além do mais, no dia 1º as pessoas dormem e pode-se dizer que não vivem esse dia. É o dia da Ressaca Universal. Enfim, todo ano novo começa no vermelho, isto é, no feriado "Jaz Universal", digo, Paz Universal. Só a TV não nos deixa em paz, imitando a vida, o que é um refinamento do tédio igualmente universal.
Como dizia, o ano começa no dia 2. E isso tem o seu encanto, embora seja estranho. Hoje, sexta, por exemplo, está com cara de segunda, só que amanhã é sábado, o que vem a ser uma semana praticamente ideal: a semana de um dia só! O fato é que a passagem do ano, sendo uma bobagem como é, tem repercussões complicadas em nossas pobres mentes. Talvez todo esse alarde seja inconscientemente por causa disso mesmo. Do contrário, a confusão seria maior. Imagine: nada de comemorações, nada de fogos, nada, nada, o ano passando imperceptivelmente, de uma prosaica quarta para uma também prosaica quinta... Tudo simples e sem precisar de vaga no estacionamento! Em compensação, quanta confusão!...
Mas, felizmente, badalamos esse rito de passagem. E de tal forma que até nos convencemos que tudo fica por assim dizer "diferente", mais ou menos como um dia de sábado ou de domingo, o que mostra como espaço e tempo de fato interagem criando - ficção ou não - uma outra coisa. Logo, por corolário, temos que o ano novo é "outra coisa"! Essa outra coisa pode até nem ser grande coisa mas é a coisa em que agora temos de viver. Então, feliz "outra coisa!" para todos!
Escrito por Paulo Gustavo às 10h12
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2009: ANO DE QUE MESMO?
Cito de memória uma frase atribuída a Paul Valéry: o futuro já não é o que costumava ser. Ela toca, numa só tacada, em nossa preocupação com o futuro - seja ele desejado, planejado ou simplesmente imaginado - e naquilo que no próprio futuro é esquivo, escorregadio e surpreendente.
Em sua ânsia de poder, o ser humano sabe que dominar o tempo é dominar muitas coisas, é investir na sua própria e imaginada segurança. Dessa forma, mal desponta um novo ano e o nosso lado futurologista entra em ação com os rótulos que fabrica.
Na verdade, falar no futuro tornou-se um lugar-comum, haja vista a sua recorrente aparição na publicidade, no planejamento e nos horóscopos cotidianos. Se o futuro já chegou, o futuro já está velho? Como sibilas, nos postamos diante de nossas bolas de cristal, tateando as luzes ou, melhor, as trevas que ali estão gravadas. Temos, em nossa civilização, a ânsia do futuro, e parece que já vão longe os tempos em que mais humildemente se dizia que "o futuro a Deus pertence", resignados com Seus desígnios. Nossa soberba - parece até que para ela é que fomos feitos - não se contenta com pouco: queremos com mil e uma razões que o futuro se materialize, que se encarne em coisas e conquistas. Paradoxalmente, ou por isso mesmo!, não queremos a velhice de estar no futuro, não queremos a "impureza" do passado, sobre a qual encontremos inerte o nosso tempo na Terra.
A vida, como observou uma personagem de Guimarães Rosa, parece estar toda no futuro. Não por acaso, os nascimentos não significam apenas que a vida continua, mas que há uma nova vida cheia de futuro. Futuro que nós, talvez um pouco míopes, vagamente invejamos em nosso desejo de imortalidade.
É assim com a proximidade do futuro que sentimos quase que materialmente a virada do ano, atribuindo metaforicamente ao tempo características que são exclusivamente nossas. É muito antiga a metáfora do tempo como uma criança... Não é menos misterioso o tempo que se vai, que ficou "velho" e que "passou", como se lê nas palavras de Guimarães Rosa: "Os dias passados vão indo em fila para o sertão", nas quais o tempo já "organizado" - "em fila" - caminha par uma região misteriosa, tão presente e movente quanto desconhecida.
Voltando aos rótulos, a que será dedicado o ano de 2009? A Crise é talvez a maior candidata, embora seja antipático e negativo, de saída, falar assim: "2009, Ano da Crise". Já li que 2009 será o Ano Euclides da Cunha, de quem transcorre o centenário de morte. Hoje li que será o Ano da Astronomia em homenagem a Galileu. Amanhã talvez leia coisas mais amenas, como Ano de Implementação do Acordo Ortográfico ou Ano das Focas de Circo ou Ano do Smartphone. O fato é que uns rótulos pegarão, outros não, e outros nos pegarão pelo caminho e outros ainda só quando tudo já tiver passado, muito bem passado.
Como quer que seja, desejo aos que têm a bondade de ler este blog que 2009 venha com o rótulo das melhores conquistas!
FELIZ ANO NOVO!
Escrito por Paulo Gustavo às 11h14
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SONETO DOS RELÓGIOS
Para Plínio Bezerra dos Santos Filho
Este relógio marca os desafios.
Este relógio assina uma sentença.
Este relógio assiste ao meu delírio.
Este relógio lembra as recompensas.
Este relógio é dor do que não tenho.
Este relógio aponta os dias idos.
Este relógio atrasa todo o tempo.
Este relógio inverte o meu caminho.
Este relógio ofega a cada instante.
Este relógio lembra a cor do sangue
Que derramei no tempo das angústias.
Este relógio avista um outro tempo.
Este relógio guarda o meu começo
E molha as minhas mãos como uma chuva.
Escrito por Paulo Gustavo às 18h05
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