O GÊNIO DA GARRAFA O álcool desce redondo nas cabeças quadradas. À falta de neurônios mais vigorosos e criativos, as pessoas escolhem a rápida euforia do álcool. Dão a impressão de que não se alimentaram de leite materno, mas de generosas doses de bebida alcoólica. Sem moderação, os brasileiros não apreciam mais que o engano do tédio mortal que os aflige. A bebida torna-se um fim em si mesmo. O teor das conversas, ao contrário do teor alcoólico, é muito baixo e nada tem de sedutor. Toca-se a vida como uma enfermidade a ser tratada. Dir-se-ia que a realidade é dura e dramática. E é. Dir-se-ia que ninguém aguenta viver sem o bálsamo do álcool. Dir-se-ia que o álcool é uma metáfora. Que o álcool é uma lente para ver o mundo ou outro mundo. E é. O que não é ou não deveria ser é essa aderência absoluta a uma verdade simples como um gole ou um brinde: já que não tenho espírito, vou procurá-lo no álcool, como se uma garrafa aprisionasse um gênio que diverte e afugenta os males da vida. Vive-se, enfim, aos pés de uma mitologia, cuja cabeça, sabemos, está em outra parte.
Escrito por Paulo Gustavo às 12h15
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PÓS-CARNAVAL Para os católicos, cinzas; para os pagãos, vírus. Vírus e cinzas lembram que voltaremos ao pó. É claro que ninguém tem pressa. Médicos e padres fazem o que podem, depois de ouvirem nossas confissões tão conhecidas quanto impublicáveis. Também no pós-carnaval nos deparamos com o pó da rotina que tem suas delícias e seu ópio. Por mais que nos espanemos, lá está o pó do cotidiano muito bem assentado sobre corações e mentes. O pior nunca é o pó, é a poeira, ou seja, o pó em movimento que nos impede de ver a estrada. Da mesma forma, os vírus, que nos espreitam espertamente para se aninharem com melhor gosto em nossos frágeis corpos. Um vírus bem assentado é mais tenaz que um sem-terra em sua ânsia revolucionária. Um vírus faminto e guloso, pulverizando o seu veneno, é um inimigo íntimo, pior do que a TV aberta. Enfim, a saúde é nua, mas a doença é sempre mascarada, ou seja, entende de carnaval.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h12
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