O AMANTE Sou um dócil amante da Beleza. Cumpro suas ordens, desconheço-me, Corro entre muralhas para alcançá-la, Queimo os séculos que me alimentaram Para tocar seu vulto. Na noite insone, obsessiva, Visito os portos por onde passou, As trêmulas ondas que tocaram seus pés, O musgo frio do seu rastro obscuro. Ao lado do Dia, Busco no crepúsculo A permanente alvorada. Assim, espero o seu beijo — O que mais importa e o que mais tarda!
Escrito por Paulo Gustavo às 11h16
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Por vezes, a poesia é uma breve luz entre escuras paredes. Sente-se que só dela se poderia ter vivido. A alma se volta, mas já não há nada a não ser lembrança como no mito da caverna de Platão. Quem deterá tamanha solidão? Abandonado, o homem caminha sob o pesado céu. Até então, sorria; até então, passeava em todas as pátrias. Agora não há remédio para a saudade da luz, não há como sair da imensa ilha que a cada dia mais e mais se torna sombra e desapontada terra.
Escrito por Paulo Gustavo às 10h55
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HOJE É DIA DO BIBLIOTECÁRIO Em homenagem à data de nascimento do poeta, engenheiro e publicitário pernambucano Bastos Tigre, hoje é o Dia do Bibliotecário. Naturalmente, num país com poucas bibliotecas, poucas livrarias e poucos leitores, a data passa muito discretamente. Vale lembrar a coincidência: a multidisciplinaridade de Bastos Tigre já parecia antecipar, emblematicamente, as novas e surpreendentes funções dos profissionais dessa área na Era Digital.
Escrito por Paulo Gustavo às 12h05
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PARABÉNS, RECIFE! A cidade hoje completa 472 anos. Bela, histórica, banhada pelo mar e pelo Capibaribe e atravessada por seus muitos canais, é, como costumo dizer, uma cidade dilacerada por seus muitos contrastes. Amargos contrastes sociais. Daí não ser uma cidade fácil nos dias que correm sobre ruas e pontes. Faltam-lhe harmonia e preservação de seu patrimônio: há grandes poças de desamparo em sua estrutura urbana. O esplendor do barroco de suas igrejas deixou-se cercar pela falta de saneamento. Suas ilhas já não parecem flutuar, mas, enterradas na lama da maré vazante, lembram blocos urbanos deixados ao acaso, sem o necessário dom do acolhimento. Abandonado, seu centro tornou-se pouco hospitaleiro e degradado, ofuscando a riqueza dos seus monumentos públicos. Sua claridade tão nutritiva para os seus pintores mal esconde a escuridão dos problemas que se acumulam ao longo dos séculos. O boom imobiliário ergue sobre o cemitério das velhas casas um espírito pouco urbano como se construísse uma nova cidade — suspensa, excluidora e isolada das raízes. A memória e o esquecimento travam no Recife uma cruel batalha. Mas o Recife é cidade que surpreende. Sempre foi assim, com algo de soberbo e indomado, com algo pouco fácil de traduzir. Se não teme as águas e o mar, o que temerá? E disso sabem seus artistas, seus músicos e poetas, que testemunham como o Recife continua à frente de si mesma — forte e real, disposta a vencer sua vulnerabilidade de planície flúvio-marinha, detendo as dissolventes correntezas, os fantasmas que a assombram, os contrastes que a podem destruir. Como cidade singular, rochedo marinho, também é metamorfose e esperança. Parabéns!
Escrito por Paulo Gustavo às 10h40
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A COBRA INVISÍVEL A ignorância de assuntos e temas históricos é abissal. Talvez seja assim mundo afora. Entre nós, todas as faixas etárias flutuam, insustentáveis, na leveza enganadora do desconhecimento da História, poderia se dizer da História mais elementar. A História é uma cobra invisível a picar os incautos personagens do presente. Não é de admirar que arquivos e órgãos ligados à memória e à documentação sofram as conhecidas agruras financeiras que sofrem. São, estes órgãos, os “primos pobres” das demais instituições. Não há uma publicidade da memória e para a memória, o passado é uma velharia a ser descartada com a rapidez que for possível. Nas escolas, a obrigação burocrática dos alunos espanta qualquer empolgação possível. O futuro virou um fetiche e o presente, um atestado de alienação. Por outro lado, há a concorrência de temas e assuntos mais quentes, a exemplo do meio ambiente e do aquecimento global, que são naturalmente importantes. Entre nós, a História não é mais que sinônimo de ruína. Uma ruína vista com desdém, à qual já nada devemos do que somos.
Escrito por Paulo Gustavo às 10h31
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A LETRA QUE MATA “Deus só frequenta igreja vazia.” Nelson Rodrigues O arcebispo de Olinda e Recife, D. José Cardoso Sobrinho, teve seus quinze minutos de fama. Irascível e apegado às normas canônicas, Dom Dedé (como é conhecido entre nós, pernambucanos) foi rápido no gatilho e sacou a ex-comunhão como uma praga sobre os que defendiam o aborto da menina de nove anos precocemente engravidada por estupro de um padrasto pedófilo. Como um inquisidor medieval, ignorando o estupro e as circunstâncias que punham em risco a vida da vítima, o tão ágil quanto radical Dedé não enxergou mais que a letra da lei canônica em suas retinas já fatigadas. Esqueceu-se como cristão que a letra mata e o espírito vivifica. Penso que mais que atingir os descrentes, Dedé atingiu os crentes do seu próprio rebanho. O que espanta é essa linearidade mental em tempos complexos como os que vivemos.
Escrito por Paulo Gustavo às 08h56
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