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IMUNIDADE PARLAMENTAR BLINDA TUDO? Imagine o leitor a seguinte cena: este blogueiro está no ambiente de uma instituição pública de Brasília, cercado de jornalistas e autoridades, furioso contra uma suposta (?) calúnia. Aos gritos, alto e bom som, em resposta a alguém que o contradiz, dispara: “Ministério Público é o caralho. Escrevam aí (para os jornalistas): o caralho. Decerto o leitor imaginará que este blogueiro sairá preso por desacato a autoridade, por quebra de decoro ou por qualquer outro motivo similar. Troque o blogueiro pelo deputado Ciro Gomes e terá a cena real. O nervoso Ciro parece julgar-se o rei da Pérsia. Mas talvez o rei Ciro não fosse tão nervoso e destemperado. Já o nosso Ciro, que aspira a ser rei do Brasil, não engole desaforo e cospe palavras duras (duras pra caralho, se poderia dizer!) para a imprensa e o público. Dirá o ingênuo e pacato eleitor: não há punição para tais destemperos públicos em que uma instituição importante como o Ministério Público se vê equiparada ao caralho? Não, caro e ingênuo eleitor, o Ciro tem imunidade! Fôssemos nós, que sufocamos nossos insultos a bem da paz social, estaríamos processados... Mas o Ciro, como tantos outros, é imune. Imagine se ele vira rei da nação! Aí, sim, o caralho — com perdão da palavra, mas sem demérito para o vibrante órgão — vai virar boné!...
Escrito por Paulo Gustavo às 12h35
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RETIRAR AS PALAVRAS: SERÁ POSSÍVEL? Retirar palavras — desdizer-se — é algo naturalmente simbólico nessa criatura sempre simbólica que é o ser humano. A palavra, a rigor, não se desdiz, fica como que reverberando nos que a ouviram e a testemunharam. Para os violentos, a metáfora é inevitável quando dizem: “Engula as palavras!” Mas as palavras resistem a de fato serem engolidas, a se desfazerem como se nunca tivessem sido pronunciadas. As palavras ditas “voam”, como diziam os antigos para sinalizarem que a palavra oral era viva e não morta como parece ser na escrita. O que fazer para apagar as palavras ditas? A rigor, nada. Simbolicamente, se retirar as palavras como se fossem cartas ou objetos recolhidos de uma mesa e que magicamente podem desaparecer. Dessa forma, falar “em juízo” é dispor as palavras de uma forma oficial, juridicamente aceita e ordenada. Por outro lado, há um falar “sem juízo”, simplesmente falar, com a qual se interage socialmente para determinado fim, mesmo ou sobretudo os mais fúteis. Sem se retirar as palavras, não há perdão possível, há um mal-estar que se prolonga no tempo e nas consciências, que se agrava e se torna indelével ou, como também se poderia dizer, sem fuga à etimologia, “indeletável”. Por sua vez, não retirar as palavras — intempestivas, insultuosas, inoportunas — é um duro exercício para quem as disse. A honra e o orgulho podem dizer que se deve mantê-las, a contragosto da razão, a qual dirá justamente o contrário, a bem da paz e da harmonia. A emergência da contradição, no nível social ou pessoal, subjetivo, parece mostrar, mais que um paradoxo, um desvio de expectativas na interação humana. Como quer que seja, abre-se uma fissura e, mais adiante, nasce uma cicatriz. Contemporiza-se, mas algo de venenoso continua a circular na atmosfera, sensível a circunstâncias de conflito, como um mal-estar latente que só o tempo, como faz com tudo o mais, poderá apagar ou minimizar. Ao contrário da escrita com suas revisões produtivas e autorais — como dizem os lingüistas —, a fala que se pretende “revisar” — retirando-se as palavras — tem, por assim dizer, uma imediata aderência à realidade, por mais que se deseje apagá-la. Voa e não volta, inscreve-se na memória e nas consciências. Os cuidados, de que se faria merecedora, passam ao largo, negligenciados... Não por acaso os tiranos sempre vigiaram e puniram não só a escrita como a fala, certos de que à fala, não sem razão, cabe uma dieta política talvez até mais rigorosa do que aquela dedicada à comunicação escrita. Para tanto, a força e o medo sempre foram corretivos “adequados” e estruturantes, indo além dos limites toleráveis pela sociedade. É na fala o campo das contradições em razão da sua proximidade com os impulsos emocionais e, por assim dizer, de sua fricção com o silêncio e com o que é calado. Os oradores devem assim ser mais temidos que os escritores — é o que parece estar inscrito na vida política, à qual os embates orais são inerentes por natureza e na qual os conflitos são mediados pela oralidade, muito mais que pela escrita. E isso é o que continua valendo nos dias que correm — para o bem e para o mal. Os mais hábeis — políticos ou não — naturalmente desenvolvem uma arte de medir as palavras (orais), de modo a dispô-las para que nunca precisem ser “retiradas” ou, o que dá quase no mesmo, pelo menos para que nunca precisem ser alvo de um pedido para retirá-las.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h19
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DEPUTADOS DISCUTEM ESCÂNDALO DAS PASSAGENS AÉREAS(Transcrição enviada por Frei José de Lorena, da Ordem dos Sacanas Menores, e parlamentar nas horas vagas) — Vossa Excelência, como turista nesta egrégia Casa, não pode falar que voei demais. — Só quando dorme nas sessões! — Vossa Excelência só tem olhos abertos quando tem insônia... — Excelência, por que não comprar uma passagem de ida sem volta para as suas bases... — Vossa Excelência está fugindo do debate. Não use o passaporte da retórica, sempre gratuito, para tergiversar sobre o momentoso tema... — Só tenho um passaporte mesmo assim carimbado pra viagens a trabalho. — Excelência, data venia, todos aqui trabalham e, portanto, todos precisamos viajar. Não se trata de turismo, viajar é uma ferramenta do trabalho legislativo, tão legítima como qualquer outra. Uma ferramenta da democracia, o direito de ir e vir. (Um terceiro aparta) — Muito bem, Excelência! Sem passagens aéreas, ficaríamos presos aqui no Planalto Central. — E sem o calor humano das nossas bases, do nosso eleitorado. Ora, direis, Excelência, ouvir as estrelas cadentes da opinião pública. — A culpa é da imprensa, Excelência, que nos calunia. Querem cortar as asas do poder parlamentar. Mas temos asas, temos bico e queremos voar longe. Não somos patos nem galinhas. Nossas passagens são sagradas... (Outro aparte): — Excelência, elas são abençoadas!... A imprensa quer nos imprensar contra a opinião pública. É preciso dizer que o parlamento não é uma agência de turismo do Bolsa Viagem como querem fazer crer. Nossas viagens são um instrumento de paz social e, ouso dizer, de justiça social e, last but not least, de paz familiar... (Novo aparte) — É verdade, Excelência, a família é o pilar da sociedade, não pode ficar comprometida pela ação de meia dúzia de comentaristas radicais, numa armação para desmoralizar o parlamento pátrio. — É verdade, Excelência, nesta hora grave, senão gravíssima, esta Casa não pode ficar à mercê dos antidemocratas que sequer desconfiam que não temos, como se inculca à ignara massa, privilégios, e se os temos é para melhor servir ao país, à nação, ao povo hoje tão descrente... (Aparte raivoso das galerias): — E para melhor servir às sogras, às raparigas!...
Escrito por Paulo Gustavo às 17h35
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E O FERNANDO LUGO, HEIN?NINGUÉM SE QUEIXA DO BISPO? O BISPO VALE UMA MISSA? O ex-bispo Lugo, presidente do Paraguai, é o Adão do vizinho país. Com um olho na missa e outro no mulherio, o então bispo bispava à vontade. Pelo andar da carruagem — há uma terceira mulher na história a reivindicar paternidade para o filho —, Lugo acendia uma vela a Deus e outra ao diabo. Este, como se sabe, encapa, mas um dia desencapa. O fato é que Lugo, já desencapado das vestes sacerdotais, parece que era tão bom de cama quanto de missa, aplicando, com gosto e devoção, o preceito bíblico do crescei e multiplicai-vos. Bom, agora, as “viúvas” estão de olho na conta do presidente. E conta de presidente, como se sabe, é mais gorda do que a de bispo...
Escrito por Paulo Gustavo às 16h35
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CISNES Júlio Salusse* A vida, manso lago azul algumas Vezes, algumas vezes mar fremente, Tem sido para nós constantemente Um lago azul, sem ondas nem espumas. Bem cedo, quando desfazendo as brumas Matinais, rompe um sol vermelho e quente, Nós dois vogamos indolentemente, Como dois cisnes de alvacentas plumas. Um dia um cisne morrerá, por certo... Quando chegar esse momento incerto, No lago talvez a água se tisne, Que o cisne vivo cheio de saudade Nunca mais cante, nem sozinho nade, Nem nade nunca ao lado d’outro cisne. *Júlio Mário Salusse (1878-1948) Poeta e ficcionista brasileiro, nasceu em Bom Jardim no Rio Grande do Sul e faleceu no Rio de Janeiro. Foi promotor de justiça. Em Nova Friburgo, no Estado do Rio, escreveu o famoso soneto que publicamos.
Escrito por Paulo Gustavo às 10h47
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SERÁ O DEDO DO “GIGANTE”? Se, como diz o dito popular, pelo dedo se conhece o gigante, logo se verá que os recifenses não têm muito o que esperar da gestão do prefeito João da Costa. Os cem primeiros dias dão a impressão de que o nosso burgo está à deriva. Lixo, buracos, alagamentos... Nada ainda que mostre a “cara” da nova administração, ao que parece impactada pela pouca verba... Além de pouca verba, há pouco verbo. Enfim, o que é pior, parece menos do que a continuidade da gestão João Paulo, e antes fosse só a continuidade... Apáticas, tanto a oposição política quanto a opinião pública também não dão as caras. Nem caras nem bocas. E isso numa cidade problemática como o Recife, com desafios para verdadeiros gestores e para verdadeiros gigantes...
Escrito por Paulo Gustavo às 09h12
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CONGRESSO: SEIS POR MEIA DÚZIA? Parece que para Suas Excelências, “medidas moralizadoras” significam seis por meia dúzia. Dessa forma, trocam-se rubricas e palavras e, claro, fica tudo como está. Cortam-se as generosas passagens, mas, em compensação, aumenta-se o salário. Simples como uma equação de primeiro grau. O importante agora é “passar a manteiga no focinho do gato” já que o gato com rabo e tudo está exposto à opinião pública. Então, faz de conta que nós, mortais contribuintes, acreditamos em “medidas moralizadoras”, já que também com a nossa cumplicidade de eleitores não tomamos medida alguma. Enfim, alguma coisa tem de ser feita para tudo continuar na mesma no teatro de absurdos das instituições políticas nacionais.
Escrito por Paulo Gustavo às 08h53
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