AUSTRO-COSTA EM REVISTA Com um nome já definitivamente inscrito na história social e literária do Recife, o poeta e jornalista Austro-Costa, falecido em 1953, estaria completando 110 anos neste mês de maio. Se, às novas gerações, seu nome ecoa distante ou simplesmente desconhecido, vale assinalar que, por outro lado, não houve, nas primeiras décadas do século 20 em Pernambuco nome tão exposto à mídia impressa de então, fazendo com que alcançasse uma rara popularidade para um homem de letras no Nordeste. Nas revistas, nos jornais e até mesmo em páginas volantes e copiadas por admiradores, Austro-Costa era o poeta mais querido e festejado. Hoje, tantas décadas depois, poderíamos dizer que foi, sem qualquer exagero, o mais emblemático do seu tempo, daí talvez sua sobrevivência na memória popular, memória tantas vezes refratária a estrelismos de momento e para a qual tantos astros logo voltam à completa escuridão. Imigrante pobre da vizinha Limoeiro, vem a propósito dizer que “fez do limão uma limonada” pela magia do seu talento verbal. Fez-se jornalista, cronista social, repórter e poeta de uma época de transição de costumes, na qual celebrou em versos não só “Mulheres e Rosas” (título do seu primeiro livro) como acontecimentos sociais e políticos, contando, para estes últimos, com a verve e o humor que Deus lhe deu. Dessa forma, oscilou entre uma dicção romântica e uma sátira tão comunicativa quanto contundente. Foi cronista em prosa e cronista em verso e, como já afirmei noutras passagens, um misto de homem de letras e de cantador, a exemplo de um Gregório de Matos na visão crítica de Nelson Werneck Sodré. Espírito dionisíaco e a seu modo epicurista, o poeta dispersou-se em milhares de versos nas páginas de jornais e revistas, dentre os quais muitos vazados nas formas fixas que amava — como o soneto, as trovas, as baladas, os vilancetes, os madrigais, os rondéis — e vários embebidos das primeiras liberdades do nascente Modernismo, movimento a que momentaneamente aderiu por influência do jornalista Joaquim Inojosa e no qual pôde exprimir-se com a habitual ênfase dos convertidos, rompendo, por algum tempo, com as amarras das rimas e ampliando seus temas e seus motivos líricos. Nuns e noutros, deixou obras de mérito como os sonetos “Último Porto”, “Salomé Toda de Verde”, “Tartufo-mor”, “Moças de São José”, “O Jardineiro Louco”, o poema “Capibaribe, meu Rio...”, “Fábrica Tacaruna”, “O Recife da Madrugada é um Poema Futurista”, dentre muitos que se tornaram antológicos e apreciados pela crítica. Mais que nos livros (apenas dois publicados em vida, provavelmente por falta de recursos!, e um póstumo — “De Monóculo” — organizado por Luiz Delgado numa iniciativa do hoje ministro Marcos Vilaça), foi nos jornais e nas revistas que o poeta se fez presente numa produção que, se totalmente publicada, daria um alentado volume, como agora mesmo vem atestar o trabalho empreendido pelas documentalistas Lúcia Gaspar e Virgínia Barbosa, ao prepararem, com base no acervo de periódicos da Fundação Joaquim Nabuco, uma rica, inédita — enfatize-se esse pioneirismo! — e extensa bibliografia do escritor. De fato, em revistas recifenses da época, como “A Pilhéria”, “Pra Você”, “Presente de Natal”, “Revista da Cidade” e “Rua Nova”, tantas outras, Austro-Costa, aos 110 anos, acaba de ressurgir por inteiro em prosa e verso, disposto a inspirar pesquisadores e o público em geral no portal da Fundação: www.fundaj.gov.br/biblioteca. Parabéns à iniciativa da Fundaj e às suas especialistas que, dessa forma, trazem o poeta e o jornalista de volta à vida, “desarquivando arquivos” como diria o nosso saudoso Mauro Mota.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h09
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SUÍNA — DO PORCO À PORCARIA Mudaram às pressas o nome da gripe, agora bem mais pomposo e científico: A H1N1. O que há numa gripe? O que há num nome de gripe? Nada como a ciência para dar este ar de neutralidade e agir como magistrada suprema! O melhor é que os porcos saem de cena, os simpáticos porcos, animais que, segundo um amigo zootécnico que com eles trabalhava, são seres de muito espírito e não apenas ingredientes de feijoada. Sim, amigos, os porcos têm alma, são inteligentes, são, para dizer tudo, criaturas de Deus, não a Ele tementes, mas, claro, tementes a nós outros, porcos de outra espécie, que ainda trazemos no focinho as digitais do próprio demo... Passando do porco à porcaria, ou seja, ao vírus que assombra o mundo, não há dúvida de que a globalização há de trazer com freqüência esse tipo de transtorno. Cada vez, teremos menos saídas e rotas de fuga. O “porco humano” já sujou o mundo todo e seu rebanho se espalha por toda a Terra. Uma coisa é óbvia e não mudou: os pobres continuarão a ser as maiores vítimas. O que mudou é que os pobres estarão, como no Brasil há muito acontece!, cada vez mais junto dos ricos. Disso ou resultará uma porcaria maior ou, haja esperança, um mundo menos desigual...
Escrito por Paulo Gustavo às 12h06
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UM OLHAR DE MARCEL PROUST SOBRE OS POLÍTICOS
“É preciso ter visto o político que passa por ser o mais íntegro, o mais intransigente, o mais inabordável desde que está no poder, é preciso te-lo visto, no tempo da desgraça, mendigar timidamente, com um sorriso radiante de amoroso, a saudação altiva de um jornalista qualquer, é preciso ter visto o reeguimento de Cottard (que seus novos clientes tomavam por um homem de aço), e saber de que despeitos amorosos, de que fracassos de esnobismo eram feitos a aparente altivez, o antiesnobismo geralmente admitidos da princesa Sherbatoff, para compreender que na humanidade a regra — que comporta exceções naturalmente — é que os duros são débeis rechaçados e que os fortes, sem se preocupar que os queiram ou não, são os únicos que têm essa doçura que o vulgo toma por fraqueza.” Em busca do tempo perdido, Sodoma e Gomorra
Escrito por Paulo Gustavo às 11h07
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TODOROV VAI DIRETO AO PONTO O teórico e crítico búlgaro, radicado na França há muitos anos, vai ao ponto em seu livro A Literatura em Perigo, recentemente publicado no Brasil. Critica o abuso de formalismo, de métodos como fins em si mesmos, na abordagem e no ensino da literatura na França. Lembra que a crítica atual exclui de saída muitos textos que seriam interessantes de ser considerados. Lembra que a desconstrução só vê em negativo e que autores como professores embarcam numa visão de literatura solipsista e desesperada, que está sempre a repetir que não fala de nada a não ser da própria literatura!!! O rei está nu, e Todorov o aponta com meridiana clareza e de um lugar, por ser quem é, completamente insuspeito. A ser verdade uma tal concepção negativa de literatura e há muito — diz Todorov — a própria literatura teria deixado de existir. Nada, claro, contra métodos (é bom usá-los “sem terno e gravata”, como diz o nosso Machado de Assis), o que importa é não sobrepô-los às obras em si mesmas que existem para a fruição de autores e leitores e para se conhecer e se ampliar uma visão do homem e da sociedade. Seria de se perguntar — como eu próprio já o fiz em algumas palestras — a quem serve essa concepção que torna a literatura inevitavelmente um gueto? Nem tanto ao mar nem tanto a terra é o que diz com sua autoridade o nosso bom Todorov, atirando à cara das instituições o óbvio que tantos calam por conveniência ou por medo de parecerem antigos ou despreparados.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h40
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