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POR FALAR EM MULHER... No Rio de Janeiro, uma lei que acaba de entrar em vigor — pretensamente moralizadora — proíbe mulheres de biquíni nos cartões postais da cidade. As esculturais cariocas estão banidas — cretinamente banidas — de oferecerem aos turistas essa visão do paraíso tropical. É mais um acesso de hipocrisia nacional. E os postais de praia como ficarão — desertos? Que será de Copacabana? De Ipanema? E as garotas de Ipanema, que, para nosso alento e nossa crença na vida, exibem suas graças? Haverá postais clandestinos, vendidos por traficantes a preço de ouro? Essa rude “lei seca” haverá de pegar? Ah, sim, é preciso defender a imagem do Brasil. Enfim, abaixo os biquínis, como queria Jânio Quadros, nas cabeças despidas de bom senso e de inteligência, nuas de massa cinzenta.
Escrito por Paulo Gustavo às 13h04
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BERLUSCONI É UM PÂNDEGO EPICURISTA O primeiro ministro Berlusconi é divertido e dionisíaco. Agora mesmo publicaram-se fotos em que aparece com várias mulheres peladonas numa casa de campo. E saiu-se com esta: “E quem toma banho de gravata e paletó?”. Bingo pra Berlusconi, que está mais rijo e ousado que a máfia. Poderia mudar o nome para: berluscome! Até aí tudo bem, o que não dá é reclamar da mídia e da invasão de privacidade. Isso é coisa antiga, que não combina com um homem moderno e disposto como o primeiro ministro. Nos lembra até aquele velho político que disse um dia para certo interlocutor: “Meu filho, sou tão antigo que no meu tempo calcinha era roupa íntima!”. Na verdade, quem invade intimidades — e ao que parece com sucesso (fármaco ou não) — é o próprio Berlusconi, aliás com bom gosto até onde podemos ver essas intimidades... Parodiando outro italiano — o Domenico De Masi —, talvez possamos chamar a coisa toda de “ócio recreativo”. Afinal, ninguém é de ferro e a tecnologia ainda não inventou nada igual! Enfim, a inveja é uma merda, aliás como dizem que é o governo Berlusconi...
Escrito por Paulo Gustavo às 12h24
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SUSAN BOYLE Susan Boyle, diz a mídia, deixou a clínica psiquiátrica. Sim, mas continua louca para ser cantora. Disse seu irmão que “ela está melhor, mais parecida com ela própria.”. Observação enigmática. E acrescentou não menos enigmaticamente que deseja “que se respeite a sua privacidade”. Enfim, a arrepiante Boyle que arrepiou o mundo não sabe o que quer nem como quer. É uma voz à procura de uma carreira e é certo que quer tirar o pé da lama. Ao que parece, la Boyle não junta lé com cré, com exceção dos momentos em que canta para uma multidão surpresa. La Boyle não é de fazer escalas nem de pagar pedágio, e isso mexe com sua cabeça ou sua cabeça mexe com isso, não se sabe ao certo. Quanto a mim, não estou certo de que La Boyle existe de fato, se existe de se pegar como se diz. Existindo ou não, penso que logo estará esquecida. Talvez prefira ser cantada a continuar cantando. Assim são os súbitos destinos digitais para consolo do tédio infinito dos internautas.
Escrito por Paulo Gustavo às 12h02
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“Paulo querido, sugiro que os tubarões amestrados do litoral nordestino auxiliem nossas forças de busca na caça aos destroços do boeing da Air France. Penso que será mais econômico e mais produtivo. Frei José de Lorena, O.S. M.” freijosédelorena@ordeemdosssacanasmenores.com
Escrito por Paulo Gustavo às 11h40
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A TRAGÉDIA DA AMAZÔNIA Era uma vez a floresta amazônica. Vamos legalizar o ilegal. A idéia é simples e eficaz. A Amazônia, meu filho, é infinita e dá para todos: grileiros, posseiros, madeireiros. Vamos legalizar as quadrilhas que a exploram. Agora é tudo no papel, no papel passado e assinado. Assim fica melhor de ver que tudo que falam não passa de exagero dos nervosos ambientalistas. Depois, pode-se dar uma mão de tinta verde por cima das clareiras. O verde é cor que descansa a vista e haverá de descansar essas más línguas que andam por aí. Vamos pintar de verde essas clareiras gigantescas. Pintar de verde essa terra árida. Ninguém desconfiará de nada. Até os índios vão ficar à vontade nesse verde profundo que só a tecnologia proporciona. Vovô viu o verde, você verá ainda mais verde e sem os óculos antigos do vovô. Enfim, a lei é dura, mas é lei.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h16
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TRAGÉDIAS E TRAPALHADAS À BRASILEIRA Nada como uma boa tragédia para que as autoridades brasileiras dêem seu show de trapalhadas em série. O mínimo que poderiam fazer era ficaram calados ou, falando de forma mais polida, serem parcimoniosos e sóbrios em suas declarações. A imagem que fica é que o Brasil não amadureceu e que os serviços, em situações emergenciais, fazem jus ao que já são costumeiramente os nossos serviços e as nossas instituições: muito fracos. Por um momento, ingenuamente, acreditamos que “dessa vez” vai ser diferente. Qual o quê? Do mais alto escalão ao mais baixo, o que se vê é um espetáculo de improvisações, de falas que mais confundem do que esclarecem, de orgulho provinciano, de desorganização generalizada. O que reflete tão somente a desarticulação estrutural e cotidiana, a má gestão, as ambições pessoais, os estrelismos dispensáveis, a superficialidade dos poderosos do dia. A turma não aprende. É a ponta do iceberg da incompetência mostrando o seu tosco brilho. Não é o farol que sinaliza a salvação, é apenas fogo-fátuo numa atmosfera já saturada de emocionalismo vazio. Não se pode, infelizmente, se esperar mais do que isso. A cada tragédia, só respondemos com o vazio. Resta-nos o luto, que logo será dissipado por um bom pagode e uma roda de samba.
Escrito por Paulo Gustavo às 08h29
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LULA SOBE, MAS (APARENTEMENTE) FURA O BALÃO DO TERCEIRO MANDATO Lula vai muito bem nas pesquisas. Consolida-se como fenômeno de massa. Está feliz com o apoio da sociedade ao seu governo, mas descarta o casuísmo que seria o terceiro mandado consecutivo. Aparentemente está vacinado da grande tentação dos líderes de se sentirem insubstituíveis. Assim, enquanto se fura o balão do terceiro mandato, o balão junino de Dilma sobe, movido pela mídia e pela divulgação de sua doença. Mas esse balão tem muitas fogueiras a saltar, além dos problemas de saúde. Falta a Dilma a densidade necessária a uma candidatura à presidência da República. Falta ela mostrar a que veio. A fogueira da campanha propriamente dita, que só começará a queimar em 2010, revelará então se Dilma estará realmente preparada para o jogo pesado da sucessão, não só do ponto de vista técnico quanto político e emocional. Por seu turno, como noticiou domingo passado o Estadão, os tucanos se mexem, com a contratação de especialistas, para acender as emoções do eleitorado — o que, com José Serra, será um trabalho e tanto, malgrado o inegável preparo do Governador de São Paulo. É óbvio que política é emoção, e Lula, como poucos, sabe disso. De onde virá a emoção? — é a pergunta que não quer calar. Por ora, só vem do próprio Lula. Sem emoção, teremos uma campanha medíocre ou, na melhor hipótese, apenas preenchida de frios dados técnicos, números, estatísticas, etc. O fato é que PT e PSDB, como já o apontou o Prof. Hélio Jaguaribe, tem programas bastantes semelhantes. As diferenças, estas nós sabemos quais são!...
Escrito por Paulo Gustavo às 10h08
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ACIDENTE AÉREO: O QUE NÃO DIZEM AS NOTÍCIAS A celebridade póstuma, ainda que momentânea, das mortes de avião foi tema de poema de Drummond. De memória, lembro que o poeta fala em cair verticalmente e se transformar em notícia. Mas, garantem técnicos, certos aviões (como este agora do acidente da Air France) não caem... Talvez se possa dizer que explodem, mas não caem!... Enfim, são monstros tão seguros da própria grandeza que não caem, apunhalam-se com o enlouquecimento dos seus computadores. Desintegram-se como uma nuvem mortal. Em seu bojo, como pequenas vidas desamparadas, nossos corpos e nossas almas logo nada mais serão do que fogos de artifício num céu distante e para sempre perdido. Não há tempo para rituais nem preces (as preces são muito longas para a pressa da morte!). Cá embaixo, em terra, olhamos comovidos para esse nada, para essa luz apagada como uma lágrima seca. Mas, não obstante a dor, como diria Vinicius, para isso fomos feitos: para ver a face da morte. Um avião é um detalhe que voa.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h22
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ÁGUA BENTA No Brasil, pelo que se vê, não há políticos convincentemente ateus e materialistas. Nossas igrejas e nossos cultos estão cheios de fervorosos crentes. Cai bem uma bênção dos céus. Cai bem uma oração popular. Não fica mal uma promessa. Sempre é bem católico ter um padre amigo a benzer os eflúvios dos maus espíritos. Orixás também são convocados com freqüência, afinal somos todos ou quase todos afro-brasileiros. Enfim, o além com suas forças ocultas, mas sempre poderosas, podem dar uma mãozinha, aquele empurrãozinho que falta para o desejo ser alcançado. Se há situações extremas, como uma doença grave, há pajelanças de várias formas. Aliás, a forma não importa, pois Deus é grande e a Ele se chega apesar das intrigas da oposição e dos engarrafamentos das grandes cidades. E quem, meu amigo, gostaria de chocar o eleitorado, dizendo-se ateu, cético, materialista? E, havendo a morte, quem não tema a escuridão do Outro Lado? Há quem, como Machado de Assis, dispense padres à beira do leito de morte — os raros. Mas há, sobretudo, quem, como João Cabral, aceite, na hora extrema, as boas graças da Igreja. A propósito, conta-se que velha raposa mineira, a quem chamaram um padre na hora final, instado a louvar Cristo e Nossa Senhora, louvou, naquela liturgia de repetição tão bem conhecida dos católicos. Porém, instado a exorcizar o demônio, manteve-se, para espanto do sacerdote, mudo como um coco. O padre, então, insistiu, temendo que o moribundo não tivesse ouvido. Nada. Insistiu uma vez mais, e o velho político, já na barca de Caronte, saiu-se com esta: “Padre, não é melhor não mexer com quem está quieto?”.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h05
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