A AMBULÂNCIA Imagine uma ambulância. Talvez vá rápido como costumam ir as ambulâncias. Talvez tenha as sirenes ligadas. Salvará uma vida, talvez mais de uma. É branca como pintam a pomba da paz. O trânsito se agita para lhe dar passagem. Ela avança triunfal em sua luta contra a morte e a dor. É preciso correr contra o relógio. Crianças a olham embevecidas como se olhassem para um grande brinquedo. No ar em torno, muitos respiram o mesmo ar de solidariedade, como numa torcida secreta em favor da saúde. A ambulância avança como uma nave luminosa na escuridão do espaço. É preciso vencer o mal, a falta de saúde, o perigo da morte, aliviar a agonia dos enfermos. Mas em Serra Talhada, Pernambuco, recentemente, uma ambulância da prefeitura foi interceptada pela polícia. Sua alvura e toda a sua imagem de salvação escondiam um verdadeiro arsenal, tal um cavalo de tróia, tal um túmulo caiado de branco. A ambulância, ela própria, estava doente, vitimada pela violência endêmica e pela insegurança pública. Era uma enfermeira do crime.
Escrito por Paulo Gustavo às 08h24
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O POLITICAMENTE CORRETO APAGA A HISTÓRIA? Se radicalizarmos, se continuarmos na velocidade do chamado “politicamente correto”, terminaremos por apagar a própria história. E quem disse que a história é ou deve ser a história do “bem”? Ora, a história parece antes o contrário, senão apenas o embate nem sempre discernível do bem e do mal. Agora mesmo um projeto de um político do Sul quer mudar os nomes de rodovias que homenageiam políticos hoje tidos como “incorretos”. Como se, pela magia dos nomes, fosse possível tirá-los literalmente de circulação. A propósito, em sua coluna de hoje, Elio Gaspari pergunta o que faríamos, por exemplo, com Getúlio Vargas — nome que por todo o país batiza ruas, prédios, instituições, etc. No entanto, querem logo expulsar Castelo Branco, o autoritário envergonhado da “ditadura envergonhada” — para usar a expressão de Gaspari. Não é fácil se expulsar a história do “mal” se ela é parte indissociada da pretensa história do “bem”. No fundo, como se sabe, uma época mal compreende outra, uma geração mal compreende outra e assim por diante. Como expulsar a barbárie da História, de toda a História? O que disso ressuma é apenas pretensão e arrogância, quando não puro e simples revanchismo. Sim, abominamos tudo isso que é uma espécie de sucessão de “defeitos”, mas como expulsar nossos próprios defeitos se, por vias travessas, eles também escoram nossas possíveis virtudes? O que está por trás do “politicamente correto” não é outra coisa senão pura mitologia. O bom selvagem de Rousseau, essa utopia retrospectiva, é hoje sabidamente um engano. Basta saber o que a neurociência está fazendo. O que se vê em marcha é tão somente mais uma fantasia da mente, uma equivocada fantasia, tão distante da realidade, tão perto das chamas do inferno.
Escrito por Paulo Gustavo às 10h02
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E COMO O MUNDO SE SUSTENTA? E como o mundo se sustenta? Perguntaria o próprio céu, Não fosse eu a longa nuvem Que se assombra com a luz! Sobre que pilares invisíveis Se assenta o espetáculo, o turbilhão das vozes, A sucessão das faces que despertam sobre o mar? Que outro nome tem o Sol Para que a montanha o retenha no vale? Como se sustenta o mundo? Onde está sua raiz? Os mortos o sabem, mas não dizem! O mar o canta e não o traduz! Mesmo os anjos têm de procurar! Como se sustenta o mundo? Pergunta a argila dos meus ossos que definham. Perguntam os olhos que levantam os muros da insônia, Pergunta a própria insônia dos astros E a cruz de Cristo emudecida nos altares. Recife, 2006
Poema recentemente publicado na revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional
Escrito por Paulo Gustavo às 10h29
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