CAPIM ROXO Para Ana e Felipe Ferreira da Silva Só me esperam as montanhas Com seu redondo silêncio — Graves monges que rezam Nas oficinas do tempo. E no verde que não cessa Com suas úmidas nuvens Pousam meus sonhos, floresta Onde a paz sempre ressurge. Aqui recrio o Gênese, Demiurgo, protomago, Pleno do que me pertence, Satisfeito e sempre ávido.
Escrito por Paulo Gustavo às 10h22
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DESPOLUINDO VISUALMENTE Oxalá seja pra valer a atual iniciativa da Prefeitura do Recife em despoluir visualmente as ruas da cidade. É preciso disciplinar a chamada “mídia exterior”. Até porque o que hoje se vê é uma completa saturação, cujo mau gosto ofende a beleza da cidade e subestima a sensibilidade da população. São letreiros, faixas, cartazes, outdoors e outros demônios que se amontoam uns sobre os outros numa luta fratricida, numa barbárie que nos cega esteticamente para qualquer apelo publicitário ou simples propaganda. O que vemos é puro lixo. A luxúria do lixo a proliferar sem termo, sem ponto final. Não mais temos olhos de ver. De resto, o efeito psicológico é péssimo, asfixiante. É como se a cidade estivesse com uma progressiva doença em sua pele. O espaço público virou terra de ninguém, terra arrasada de ninguém. Desfigure-se, pois, essa desfiguração. Devolva-se o bom olhar aos nossos transeuntes e ao nosso meio ambiente. Pacifique-se essa guerra sem vencedores.
Escrito por Paulo Gustavo às 10h13
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FRASES DE ENFEITE E DE EFEITO Outro dia, um amigo meu me perguntou se a expressão correta seria “frases de enfeite”, que chegou a ler num jornal de grande circulação, ou “frase de efeito”. A dúvida de meu amigo não era porque ele não conhecesse a expressão correta. Pelo contrário: sempre a conhecera. Mas a força da letra de forma o impelira à insegurança. Ops!... Embora quase se possa dizer que uma frase de efeito é uma frase de enfeite, a expressão correta, como se sabe, é “de efeito”, para fazer efeito, causar impacto. Naturalmente, pode ser da própria lavra do falante ou do redator, o que é mais raro, mas, com muito mais frequência, é uma frase feita, criada por algum autor ou simplesmente da tradição oral, à qual se recorre para ilustrar e enfatizar um tema, etc. Pelo jeito, o jornalista do periódico lido pelo meu amigo tinha ouvido “o galo cantar sem saber onde”. Em vez de “de efeito”, sapecou um “de enfeite”. Quem sabe esse anônimo jornalista — se é que já não ouviu ou leu de outro o “de enfeite” — não estará criando, sem saber, uma expressão nova — errada hoje, certíssima amanhã. Até porque muitas frases de efeito nada mais são que enfeites do texto...
Escrito por Paulo Gustavo às 11h51
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ASSOMBRAÇÕES ÉTICAS Diz a mídia que o presidente do Conselho de Ética do Senado mantém um funcionário fantasma. Pelo visto, naquela Casa política, ninguém teme assombração. O mundo sobrenatural convive com o cotidiano. Talvez, como se trata do Conselho de Ética, o fantasma apontado seja de Sócrates ou de Platão, ou de Spinoza ou quem sabe do santo papa João 23. O fato é que a cada dia descobrem-se riquezas (!) incalculáveis no Senado da República. Sarney não está sozinho. Pode-se até — aqueles dados às esquecidas Letras — parodiar John Donne: Nenhum Sarney é uma ilha! A menos que seja no sentido literal.
Escrito por Paulo Gustavo às 13h06
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VOLVER A LOS 17 Diz a Mídia que um casal de idosos, num asilo da Bolívia, foi proibido de manter um relacionamento amoroso. Ele tem 63 e ela, 73. Diz ela, a Irma, que se sente como uma adolescente desde que conheceu o seu Romeu. Como diria Proust, a idade não nos tira o desejo, mas eventualmente os meios de realizá-lo. E então? É grande ainda o preconceito contra o sexo e o amor na velhice. Mas — poderia se perguntar — que melhor remédio para os achaques da idade tanto os físicos quanto os psíquicos e morais? O amor é saúde, como sugeria Guimarães Rosa. Ilusão? Há ilusões que curam e realidades que adoecem. Nunca será difícil fazer tal escolha. E até a morte, como disse Cervantes pela voz do Quixote, tudo é vida.
Escrito por Paulo Gustavo às 10h28
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A SOMBRA INVULNERÁVEL Para P. Tua sombra e a minha São folhas escuras Nesta manhã tão clara, Uma mancha de bruma Na vertigem da vida, Uma nódoa da lua Na janela do dia, Neste dia tão claro. São folhas superpostas Tua sombra e a minha. Dir-se-ia que colas Em meu ser outra vida, Outra vida mais clara. Mas juntos somos sombra — Nem homem que se perde Nem cão que morde as coisas Ou ladra inutilmente —, Sombra que não se fere!
Escrito por Paulo Gustavo às 15h25
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ELEGIA DOS AMANTES Foi por este caminho que deixei A tua paz e a minha Entre desejos Impossíveis. Já não lembro quais. Eu e tu éramos formas, Aromas talvez entre desejos. Formas soltas no ar espesso Da vida ignorada. Era verde a relva? Pouco importa. O mar que nos amava, Mais que vôo, Quem sabe inda nos olha! Assim são os jovens Alheios aos caminhos E entre si mais fortes. Não escutam sinos Mas escutarão depois, Roubados ao tempo, Rasgados e roucos, Os sonhos que morreram.
Escrito por Paulo Gustavo às 14h47
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