DECORO E PRONOME DE TRATAMENTO Quem viu e ouviu ontem pela televisão o bate-boca entre os senadores Tasso e Renan pôde testemunhar um fato novo. Lingüístico. A certa altura, no calor dos insultos, suas excelências deixaram de se tratar justamente por “excelências”, passaram a se tratar por “você”. Enfim, o velho e carcomido decoro parlamentar ficou de fato em frangalhos. Até então, os parlamentares haviam chegado apenas ao pitoresco de algo como “V. Exa. é canalha!”, tão ridículo quanto emblemático do nível dos nossos políticos. A coisa ficava apenas nos predicativos. Com a digamos súbita queda do pronome solene e a prosaica entrada em cena do popular “você”, chega-se às profundidades do pré-sal, às labaredas de pimentas selvagens. A “liturgia do cargo”, tão do gosto de Sarney, foi posta de joelhos debaixo de seus vastos bigodes. Sugestão cidadã: Senhores, adotem logo o “você” para sempre, mais condizente com a voz e os costumes do povo. Mais condizente numa casa de tolerância democrática.
Escrito por Paulo Gustavo às 14h30
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
OS 60 ANOS DA FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO Num país cujas instituições costumam ser frágeis e transitórias, os longevos sessenta anos da Fundação Joaquim Nabuco devem ser mesmo bastante comemorados. Em tempos em que a palavra cultura praticamente virou sinônimo de entretenimento, numa emblemática mutação, é bom que se assinale a importância do trabalho da instituição criada por Gilberto Freyre. Criada e concebida. Sonhada e lapidada, certamente menos como algo burocrático do que como uma manifestação do espírito e da inteligência de Pernambuco. Digo “de Pernambuco” porque a Fundaj foi e é sobretudo uma construção coletiva. Nem Freyre era uma ilha nem a Fundaj o é. O tempo agregou-lhe forças e visões, deu-lhe proustianamente a memória que permanece e o caráter que possui. Tornou-se fecunda e diversa sem perder a seiva primordial, encarnando e reencarnando sob formas que fazem de sua história um triunfo do labor intelectual e científico numa região periférica do País. Pouco importam as convulsões burocráticas e passageiras, os espasmos de governos e de políticas de circunstância. Todo pernambucano sabe ou percebe que a Fundaj é patrimônio seu e que, nesse sentido, é mais que um órgão federal na várzea do Capibaribe. Aos sessenta anos, a Fundaj é uma espécie de moça em flor aberta ao mundo, sensível ao Norte e ao Nordeste e multiplamente presente em Pernambuco. Inova e renova-se, sonha com o futuro e seus desafios. Sonha acordada para os problemas do presente. Pesquisa, documenta, incentiva, promove. Conhece todos os verbos da ação cultural. Sabe mostrar o que guarda e preparar o que, um dia, mostrará. Como poucas instituições do País, sabe reinventar-se e ignorar incompreensões, pois tem a democrática consciência de que pertence a todos e de que, para todos, trabalha. Orgulhar-se da Fundaj não é um estéril ufanismo, como os mais apressados podem supor. Pelo contrário, é compreender um esforço coletivo, valorizar uma casa em que se espelham os maiores valores de nosso povo e onde a cidadania é uma permanente bandeira. Nela, não se perde tempo: trabalha-se com dedicação e amor. E, nesse capítulo do amor — chamemos assim —, seus servidores teriam muito o que contar em tantos anos de lida e de vida, sem saudosismos que nublariam o presente, mas com a consciência do dever cumprido. Cumprido, ou seja, materializado em centenas de pesquisas, de livros, de aquisições de acervo histórico e social, de filmes, de cursos, de seminários, de eventos artísticos e culturais. E tudo isso, sem favor algum, honra a memória do seu patrono, Joaquim Nabuco, do seu criador, Gilberto Freyre, e de quantos contribuíram e vêm contribuindo para que, aos sessenta anos, a Instituição continue viva, moça e renovada.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h18
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
A VEIA QUE SALTA “A cada novo e violento desgosto, sentimos intumescer-se mais uma veia, cuja sinuosidade mortal nos corre nas têmporas e sob os olhos.” Marcel Proust Tem desgostos você que me lê? Observe como ele repercute no seu corpo. Na veia, na pele, no ritmo cardíaco, no estômago, na gordura que se acumula. Há desgostos que devoram os ossos, outros que assassinam a visão, outros que estrangulam a garganta. Há desgostos que descem à raiz dos cabelos, resseca-os, provocam-lhe uma implacável queda, embranquecem os fios, os lindos fios que um dia floriram como um triunfo da vida. Julgamos que os desgostos passam, que os depositamos no éter. Puro engano. Eles chegam, criaturas selvagens e mudas, para se incorporar à vida. Pintam uma mancha, enrugam os beijos, envenenam o ar da montanha para onde subimos, alteram a nossa caligrafia. E onde está escrito que seríamos imune aos desgostos? Quem sugeriu tal ilusão? É preciso crer com Nietzsche que o mal que não nos abate nos torna mais fortes.
Escrito por Paulo Gustavo às 08h23
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
SAÍDA HONROSA — O Lula disse que não votou no Sarney. — Besteira, eu também não! Quem votou no Sarney? — Não sei, mas eu também não. Aliás, o voto é secreto. — Um ato secreto? — E tem repercussões públicas. — E privadas! — Parece que dá certo nas privadas. — O Sarney vai sair? — Sair pra onde? — Sair de cena! Parece que estão encontrando uma “saída honrosa”. — Sim, sim, nossa arquitetura política sempre constrói saídas honrosas nos prédios públicos. Sem portas, sem maçanetas, ficam na parte de cima. — Quer dizer que o cara sai por cima? — Exatamente, e como se nunca tivesse entrado! Não tem aperto. O cara sai de crista alta... — No caso, de bigodes altos! — Dono da situação! — Dono do mar! — Já ouvi essa expressão e não me lembro onde. É muito inspirada.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h45
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|