TELEFONEMA

Marina sai. Marina entra. Troca o “T” pelo “V”. Meu amigo Frei José de Lorena, da Ordem dos Sacanas Menores, está apaixonado por Marina. Frei José me diz, em particular, que na sua reserva tem muito pau grosso para ela. Para ele, “Marina é uma couve-flor a quem falta apenas o meu abençoado azeite”. Não vê a hora de uma “comunhão carnal” com aquela “freira da floresta onde o cupuaçu abunda”. “Marina — diz ele — é tão religiosa como eu e, por isso, podemos pecar juntos. Ela ama zonas como eu”. Depois desse trocadilho infame, pergunto-lhe se Marina não estaria mais para alface do que para couve-flor, já que estamos no verde domínio vegetal. Frei José se irrita: “Pra mim, ela entra em qualquer salada, é gostosa mesmo. Marina entende de clima como poucas. Você não pode imaginar a Marina num ato secreto!”. E bate o telefone na minha cara.

 



 Escrito por Paulo Gustavo às 11h01 [   ] [ envie esta mensagem ]




DEFEITOS

O que é da pessoa e o que é do tempo — da fase existencial que se atravessa? Proust observou muito bem que certos defeitos são menos da própria pessoa do que da quadra existencial que ela atravessa. A distinção é crucial. Por outro lado, é razoável pensar que, como cada quadra de tempo tem defeitos, também sempre teremos novos defeitos. É também instigante pensar que se temos um defeito similar ao da quadra do tempo teremos, nessa quadra, um defeito ainda maior, mais visível, mais incômodo, mais perturbador. O que é igualmente perturbador — e a Proust isso não escapou — é que os defeitos que temos, uma vez observados nos outros, também nos incomodam. Talvez por isso tenha ocorrido a Guimarães Rosa que “os defeitos dos outros são horríveis espelhos”!

 



 Escrito por Paulo Gustavo às 09h26 [   ] [ envie esta mensagem ]




A CARTOMANTE

Divulga-se na cidade que uma cartomante da Bahia resolve nossos problemas. Talvez nem seja “da Bahia”, mas o nome do estado por si só empresta uma aura de magia e sobrenatural. E então, a senhora pode me mostrar a identidade? — ???. Logo se vê: nada de Bahia. Não importa, valeu a intenção do marketing. Trouxe-lhe uma penca de problemas. A senhora sabe: problemas não faltam: familiares, de trabalho, financeiros, amorosos. Tenho até problemas matemáticos para a senhora, com sua intimidade com as cartas, examinar. Sei que as cartas não mentem (quem mente é a senhora, penso eu!). É sempre fascinante ver o destino surgir de velhas cartas (ou novas, tanto faz). Tanto faz? Talvez as cartas com o passar do tempo se tornem experientes como criaturas vivas. Vamos por partes, por seqüências. Em poucos segundos, ouvirei a voz do destino. Rouca? Velada? Insinuante? Categórica? A mulher me espreita: serpente a preparar o ataque. Quantos anos terá? Parece que um dia foi bastante desejável. Mas o trabalho do destino não é brincadeira, envelhece qualquer um. O destino dá lapadas, enruga a pele, embaça a vista, desaba duros seios. Ninguém escapa. Imagino que foi bela essa mulher que faz de sacerdotisa e hermeneuta. Bom, ela toma do baralho — bicho domesticado por sua mão. Parece trêmula e confiante. Fecho os olhos: que me importa o destino? Aqui está seu pagamento. Tudo já me parece mais claro. Com destreza e rapidez, ela absorve o dinheiro, aperta a minha mão. Até breve, diz ela, como se soubesse que um dia vou voltar.



 Escrito por Paulo Gustavo às 14h51 [   ] [ envie esta mensagem ]




IGREJAS ABERTAS

O novo arcebispo de Olinda e Recife, Dom Fernando Saburido, já tomou uma medida prática, simpática e, a seu modo, eficiente. Qual a medida? Deixar as igrejas abertas. Nada de portas fechadas. A medida vale por uma metáfora. Fica mais difícil se acender uma vela a Deus e outra ao diabo, como diz o ditado. Que se acenda apenas a vela de Deus! De resto, portas fechadas são anticonvidativas. O bom Saburido sabe o que está fazendo pelos fiéis num país em que cresce a cada dia o protestantismo e, pior, as novas igrejas e suas fabulosas e extorsivas imposturas. O Saburido sabe que os templos abertos — aliás os belos e barrocos templos do Recife e de Olinda — serão verdadeiros oásis (como sempre foram) para os atormentados e sofridos, isto é, para a maioria do povo. Dentro das igrejas, há o silêncio e a consciência, a fé e o mistério de um encontro especial, além do piedoso olhar dos santos e das asas dos anjos com sua sombra benfazeja. Bem-aventurados os que criam e recriam oásis!



 Escrito por Paulo Gustavo às 08h20 [   ] [ envie esta mensagem ]




Parodiando Machado de Assis: por que não nasci eu um simples carioca? Do Rio de Janeiro tudo aprecio com requinte de amante. À cidade maravilhosa posso dizer como Neruda: nunca saio de ti quando me afasto. Afastado, é lá que também vivo, no ar e na montanha, no mar e nas ruas, nas velhas ruas, nas ruínas da capital, na capital que resiste a morrer de todo. O Rio é a minha eterna ilusão: não passa em minha vida, está sempre presente e, sendo ilusão, não dói, não é um retrato na parede. É lá que me sinto feliz, se é possível se ser feliz neste mundo. E não é que eu não veja as feridas da cidade — as feridas de São Sebastião, as feridas de seu povo alegre e hospitaleiro, as feridas sociais de sua paisagem de sonho. À noite, sem a insônia dos amantes traídos, o Rio vem habitar meus sonhos com o veludo que só os sonhos sabem ter, com as revelações que só os sonhos amorosos podem revelar. Estou no Rio; respiro diesel e brisa marinha, vejo chegar a corte de Dom João e o samba ganhar a avenida, vejo os arcos da Lapa e o bondinho suspenso no tempo, posso tomar um chope em qualquer esquina, posso ver meu filho jogando bola no Maracanã, posso não ir à praia, mas ver o mar com sua cadência de músico, com seu apetite sexual para deflorar as mulheres mais lindas em seu jardim aquático e botânico, todas elas flores exuberantes que fingem se vestir para melhor provocar nosso desejo. Ah toda carioca é uma cidade de mel e de espuma, de beleza negra e claridade oportuna.

 

 

 

 

 

 

 



 Escrito por Paulo Gustavo às 12h36 [   ] [ envie esta mensagem ]




EIS A QUESTÃO

A mãe do PAC a cada dia se enrosca mais pelo caminho minado da candidatura à presidência da República. São Luiz, seu santo protetor, faz o que pode. Os anjos e arcanjos também ajudam. O espaço celeste aqui e ali volta a ter nuvens carregadas. E chuvas de meteoros. Um meteoro pode ser grande, nunca se sabe, todo cuidado é pouco. A culpa deve ser do clima do planalto, que, além de central, tem o ar muito seco. Será possível que de clima só a Marina entenda? A esperança será realmente verde como se pinta? Entre o céu e a terra, há mais coisas do que sonha a filosofia política. Eis a questão — não para poetas, mas para homens práticos e influentes.

 



 Escrito por Paulo Gustavo às 10h31 [   ] [ envie esta mensagem ]




MARINA E A MOTOSSERRA

 

Ainda é cedo para se apreciar em toda a sua extensão o Fator Marina Meio Ambiente da Silva. O importante é que o ecodesenvolvimento entre na agenda do País. A verdade é que, além do seu selo verde de classe internacional, pouco se conhece de Marina. Supõe-se que ela saiba que uma campanha presidencial é uma pesada e mortal motosserra. Aguardemos os próximos lances.



 Escrito por Paulo Gustavo às 09h29 [   ] [ envie esta mensagem ]




NOTÍCIA DE SANTA TERESA, RIO DE JANEIRO

Leio, com espanto, em minha manhã tropical e provinciana, que um lírico bondinho de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, causou a morte de uma jovem e feriu nove. Diz a notícia que o bonde colidiu com um táxi. Como estava numa ladeira, teria deslizado para trás e se chocado com um ônibus, momento em que imprensou a moça, matando-a.

 

Até tu, lírico e cotidiano bondinho, aderiste à violência? Ou tudo foi simples e inexplicável fatalidade? Mudaram os bondinhos? Mudou Santa Teresa? Sei como é difícil a convivência de bondes e carros nas ruas daquele bairro. E também entre bondes e ônibus. De repente, quando o bonde para numa curva parece um animal assustado e que se imobiliza para enganar um predador. O predador, geralmente, é um motorista mal-educado. Imóvel e silente, o bonde espera com a paciência de quem vive preso aos trilhos. Quantos acidentes não terão sido evitados nos últimos tempos? Turistas e moradores compreendem a austeridade dos bondes. Mas será que percebem a luta surda e diária que se trava entre o bonde e “os outros” nas ladeiras de Santa Teresa? A comunidade do bairro deve ficar alerta ao patrimônio turístico e histórico para que este não saia dos trilhos.



 Escrito por Paulo Gustavo às 08h38 [   ] [ envie esta mensagem ]


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