VELÓRIO — Olhe, ele gostava de viver. — Parece que está dormindo. — Descansou. — Sofreu muito. — Antes morrer do que ficar vegetando. — Chegou o dia. — Ontem ele estava tão bem. &&&&&&&&&&&&&&&&&& — Vivia da casa para o trabalho. — Mas falam que tinha uma amante. — Uma coisa não exclui a outra. — Será que ela está aí? — Por coincidência, tem a mesma profissão da esposa. — Ela está aqui ou não? — É aquela ali de óculos escuros. — Aquela mocréia? — Dizem que mandou uma coroa de flores. — Descarada! — É feiosa, mas tem uma certa graça. — Só se for graça espiritual! — Por falar em graça, ela está rindo, discretamente, mas está rindo. — Levava ele no ridículo. — Parece que ele gostava muito... — Do ridículo? — Não, dela. — Será que ele deixou alguma coisa pra ela? — Dívidas, ela bancava tudo. Ele estava arruinado. Veja o caixão. — Caixão de pobre. — E a mulher sabia de tudo. — É uma santa. — Santa do pau oco. Ela tem um amante onde trabalha. — Então, era um casamento de fachada. — Mas ela está muito chorosa. — Choro de alívio. As aparências enganam. &&&&&&&&&&&&&&&&&& — Fecharam o caixão. — Ele quase não coube no paletó de madeira. — Muitos amigos nem vieram. — Mas ele tinha poucos amigos. Só a gente. — Isso não faz diferença. — Ficou me devendo dois mil reais. — Bom, isso faz diferença. — Agora não vai fazer mais dívidas. — Sempre escapei de seus pedidos para ser fiador. — Ele tinha um lado frio. — Agora está todo frio. Vamos indo. — Vamos.
Escrito por Paulo Gustavo às 10h55
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