EPITÁFIO Para Bruno Ribeiro de Paiva Nesta pedra silente, onde o futuroJá não ousa tocar, Ainda pulsa, agreste, o meu tumulto Como um perdido mar. Se mergulhas um pouco Neste limo que cresce — antigo amar — Verás como o meu Sonho Ainda se recusa a se apagar. Assim, por um instante, preso aos ecos, No ardil da morte escuto O relógio do Amor — o Sempre Incerto — Tocar o meu tumulto.
[Extraído do meu livro O Poder da Noite, à venda na Livraria Cultura (www.livrariacultura.com.br)]
Escrito por Paulo Gustavo às 13h12
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ZELAYA E AS SOMBRAS SILENCIOSAS
Apesar das notícias sobre o que acontece em Honduras, ninguém sabe direito o que se passa em Tegucigalpa. De certo, tem-se apenas a atitude condenável do governo daquele país de asfixiar a embaixada brasileira. Por mais que se discorde de Zelaya, em sua sede de poder e talvez de sangue (sangue e poder ao longo da História sempre estão próximos ou misturados!), é intolerável a agressão que o Brasil está sofrendo por parte do novo governo hondurenho. O fato é que Zelaya não está agindo sozinho (é um truísmo, mas deve ser enfatizado) nem por qualquer impulso patriótico ou coisa parecida. Até aqui só vimos egoísmo por parte do pitoresco Zelaya. O caso é um bom teste para as cortes e fóruns internacionais, todos eles ainda tão frágeis diante dos velhos nacionalismos e das artimanhas políticas intestinas de cada país. Zelaya agudiza o impasse apoiado por sombras que, enquanto tais, não vocalizam o que de fato querem. O fato é que Zelaya está “no Brasil” e o nosso país precisa ser claro, bem mais claro, com relação a esse surpreendente (?) hóspede.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h42
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A OUTRA FACE DE PROUST O nome de Marcel Proust sempre evoca o tempo e a memória, em especial a memória involuntária, os retratos que escreveu e as artes que exaltou. Enfim, tudo o que remete a essa obra-prima que abre literariamente o século 20: Em busca do tempo perdido, em cuja multiplicidade de temas e significações encontramos a emergência de uma nova e poderosa sensibilidade, de uma outra e fascinante sabedoria. Desde então, ninguém o superou, quer pela criativa exuberância da forma, quer pela fecundidade da reflexão e da análise psicológica e social, quer pela polifônica orquestração de uma massa verbal que chega a mais de um milhão de palavras! Depois dele, somos todos proustianos, como se em sua obra antecipasse, a modo de um dramaturgo do futuro, as formas mediante as quais vivemos e nos expressamos. Não por acaso, aqui e ali, vemos as suas “digitais” no coração atordoado de nosso tempo. Mas Proust não se deteve apenas em arte e análise social, em sabedoria e metáforas estéticas ou em períodos que parecem buscar a última gota de uma metafísica do cotidiano, do ciúme e da subjetividade. Proust, em sua busca totalizante, como lembra Jean-Yves Tadié, “sempre vai mais além”. Homem talhado pelo progresso do século 19, fascinou-se e nos fascina com as invenções tecnológicas que viu nascer, a exemplo do automóvel, da eletricidade, da fotografia, do telefone, do avião, do Raio X, das descobertas da biologia, da termodinâmica, da geologia, da astronomia e da física. Além de cultura clássica, sua obra é plena de referências à ciência e à tecnologia. Esta é a sua face pouco explorada, embora tão rica e interessante como aquela outra mais visível e comentada. Proust não apenas faz referências à ciência, mas cria inovadoramente metáforas científicas que “esclarecem uma situação ou um sentimento, oferecendo uma imagem imediatamente interpretável”, como afirma o físico francês François Vannuchi em seu livro (ainda sem tradução no Brasil) Proust em busca das ciências, para quem o romancista é de fato “um disseminador da cultura científica”. É verdade — lembra Vannucci — que outros escritores se valeram de recurso similar, só que em Proust as metáforas científicas são mais numerosas e elaboradas, evidenciando um incomum conhecimento enciclopédico. Às abstrações da sensibilidade, ele confere, empregando a linguagem da ciência, uma invejável concretude e, dessa forma, novas e insuspeitadas correspondências. Dentre todas as conquistas tecnológicas organicamente incorporadas ao seu imenso romance, Proust destacará a fotografia. Sem ela, quem sabe?, talvez nem existisse sua obra-prima. Ou esta fosse menor e diferente, até porque os mitológicos e penetrantes olhos do escritor não tivessem ido mais além. Mas isso é uma outra história...
Escrito por Paulo Gustavo às 16h52
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