CRUZES!
“Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão.” Lula, o presidente Lula, em mais um dos seus arroubos metafóricos incontroláveis, sugere a reescrita dos Evangelhos. Num país cristão como o Brasil, o presidente pisa na bola (aliás, já um tanto esfolada!). Diz o que os políticos pensam, poderiam dizer, mas não dizem. Com isso, não defendo o presidente, apenas acuso o modo de se fazer política no Brasil. O presidente pisa na bola menos pelo sentido da metáfora do que por ter invocado personagens relativos à religião de milhões de brasileiros. Não se brinca impunemente com essas coisas. Lula pode ser crucificado — e com justiça!
Escrito por Paulo Gustavo às 20h05
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SOU EU! (Conto) Durante muito tempo, nossa turma de engenharia procurou Enemerso. Ele se formara e sumira no mundo. Todos os anos em que comemorávamos o aniversário da turma, Enemerso emergia como assunto inevitável. Entre goles de uísque e de cerveja, de repente alguém perguntava: “E Enemerso?” A pergunta, como incômoda espuma de chope, se derramava sobre nossas cabeças. Um ar de inquietação perpassava nas fisionomias e, logo em seguida, quase em uníssono, dizíamos: “Nunca mais ninguém o viu”. Por alguns instantes, recordávamos a lânguida e tímida figura de nosso convívio universitário. Recordavam-se os traços marcantes de Enemerso. Uns se recordavam que ele fora um bom aluno: teria sido até muito bom em mecânica ou teria sido muito bom em elétrica. Outros lembravam seus gestos contidos como se vivesse a calcular equações mesmo na prosaica vida cotidiana. No ano seguinte, porque nossos encontros eram anuais, com todos os ex-colegas reunidos, o ritual se repetia: “E Enemerso?”. Ainda hoje, passados tantos anos, ainda ouço o eco daquele nome como um selo verbal da inquietação humana. Teria Enemerso morrido? Moraria noutro país? Teria sido capturado pelos órgãos de repressão da ditadura militar? O nome de Enemerso era um grande vazio onde nós, engenheiros formados há tantos anos, jogávamos as fichas vazias de uma memória quase em branco. “Com um nome desse — dizia um dos mais gaiatos ex-colegas —, o camarada tem tudo pra desaparecer, imerso, enemerso ou submerso!”. Bem, preciso dizer que naquele tempo não havia o Google. Não podíamos sequer dar um Google em Enemerso! E não podíamos lutar contra a realidade factual (logo nós, engenheiros!, imaginem!): Enemerso era um caso sem esperança. Qual não foi nossa surpresa quando, numa daquelas comemorações, em conhecido restaurante da cidade, com a pergunta elegíaca e provocadora se repetindo — “E Enemerso?” —, levantou-se, na mesa vizinha, um velhinho magro, de olhos vivos como qualquer velhinho lúcido, nos dizendo como se soterrasse todos os anos de curiosa ausência: “Enemerso? Enemerso sou eu! Me desculpem, mas não há outro!”.
Escrito por Paulo Gustavo às 19h41
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À PORTA DO ELEVADOR — O elevador está parado neste andar? — Parece que não. — É porque estou seguindo a plaquinha “Verifique se o mesmo está parado...”. — Entendi. — Não entendeu, não! — ? — Se ele estivesse parado, estaria funcionando? — Claro. — Nada claro, parado pode ser que esteja parado e quebrado. — Mas pode ser que esteja funcionando. Esse elevador quebra pouco. — Então, posso entrar sem medo se ele estiver aí parado? — Pode abrir a porta. — Mas sem entrar não me adianta nada. — Claro. — Nada claro. O senhor não sabe aonde vou nem de onde vim. — ? — O fato é que preciso tomar o elevador, mas nem a placa nem o senhor me oferecem qualquer segurança. — Se o elevador chegar, o senhor pode entrar, é simples. — Nada simples. — ? — Se ele chegar é porque não está parado, concorda? Logo, não posso tomar o elevador. Também não posso entrar num elevador parado. — ? — Não é fácil andar de elevador, sobretudo se essas placas confundem a gente. — É uma lei. — Uma lei que para os elevadores. Me diga outra coisa, por favor: “o mesmo” e o elevador são o mesmo mesmo? — Claro. — Nada claro! Há crianças que pensam que “o mesmo” é outro. É outra lógica! — Lógico! — Nada lógico! O fato de haver outra lógica não é nada lógico, pois a lógica deve ser uma só. Essa placa aí confunde a lógica. — O elevador chegou. — Para mim, é como se estivesse quebrado. — Pode abrir a porta! Ele está funcionando. Esqueça essa placa. — O que o senhor quer: me jogar no poço? Percebi ao chegar que o senhor tem cara de elevador. Por isso, fica aí parado e tem uma conversa que não leva a lugar nenhum. — ? O senhor vai perder o elevador! — Perder coisa nenhuma! Não entro nesta merda. Por que o senhor não entra? — Antes de o senhor chegar, eu ia descer pela escada. — E a escada está parada neste andar? — Não, vive quebrada.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h48
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ERA UM NOME TÃO BONITO! — Meu nome? É complicado. — Preciso do seu nome todo. — Estou avisando que é difícil. — Mas tem de falar para eu preencher o formulário; — Só tem consoante. — Como assim só tem consoante? — Foi minha mãe que... — Engoliu as vogais? — Foi. Ela não gostava de vogais. Dizia que as letras mais bonitas eram as consoantes. — E seu pai? — Meu pai teve que engolir. — E o escrivão? — O escrivão escreveu letra por letra. — Então, o senhor deve ter um nome e o chamam por outro! Sem vogal é que não dá! — É por aí. — Então, vamos lá. Pode me dizer agora o nome? — Não. O senhor não entendeu. Meu nome é impronunciável. Só posso dizer como me chamam. — Não serve. — Me dê um documento qualquer que tenha o seu nome para eu copiar. — Mas estou justamente querendo tirar um documento. O original eu perdi. — Afinal, como é que chamam o senhor? — WC. — WC, meu amigo, é toalete, banheiro... — Mas são as iniciais do meu nome. Pelo menos, sou um WC limpo. — Ainda bem. Então, WC, vou dar um jeitinho. Com um nome desse, você pelo menos é um sujeito útil. Não lhe faltará trabalho. Nem dinheiro nem bons amigos. Um WC é bem-vindo em qualquer lugar. — E que jeito o senhor vai dar? — Vou oficializar o WC. — É, do jeito que está estou informal. — Pois vamos formalizar. Nada que três carimbos não resolvam. Esqueça o impronunciável. — Isso é que me dói. Era um nome tão bonito.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h01
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CASA-GRANDE DA TEORIA E SENZALA DA PRÁTICA Os males e problemas brasileiros, ao que parece, já estão bem diagnosticados pelos próprios brasileiros. Formulamos planos, projetos e análises com relativa abundância e muito pouco eficácia. Deles, as prateleiras e as gavetas estão cheias. Formam uma espécie de “casa-grande” do nosso habitual discurso, seja em mesas de bar, seja nas bancas universitárias, seja nas empresas e instituições. São importantes, são válidos, mas não bastam para o enfrentamento das adversidades e dos problemas. Dentre tantas heranças malditas da formação brasileira, aí incluída a cicatriz da escravatura — aliás tão bem estudada por Nabuco, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque, para ficar apenas nesses três autores —, nos restou também o pouco apetite para pôr em prática, com obstinação, o que sonhamos fazer ou deveríamos fazer. Às teorias não correspondem à ação. As primeiras seguem na frente, maciças como casas-grandes, ao passo que a segunda segue a inércia de Macunaíma. Mas não é só preguiça, antes parece ser uma fuga do trabalho no que este tem de esforço e de embate com a realidade. Ninguém se anima, na hora decisiva, a “carregar o piano”, contentamo-nos em ouvir suas melodias, em criticar ou apreciar seus acordes. “Carregar o piano” é sempre com ou para outrem, ficando o sacrifício da ação propriamente dita para terceiros. Mas o sacrifício, como escreveu Michelet, é o pilar do mundo, sem ele desaba a realidade. Chega-se, assim, no caso nacional, à curiosa constatação de que a realidade, ora, a realidade pouco parece interessar!... A “casa-grande” — a teoria — manda, a “senzala” obedece e faz ou, paradoxalmente, não faz e não conversa com as abstrações intelectuais. A “senzala” desaparece, a “casa-grande” brilha e manda. Receio que nesse ponto, Gilberto Freyre, mais que ter traçado a nossa história social, tenha, sem o querer, diagnosticado um estado permanente do brasileiro, um modo mental em que, de certa forma, a “casa-grande” da teoria não se mistura à “senzala” da prática, não se olham, dão-se as costas. Não por acaso terá surgido a conhecida expressão segundo a qual “na prática, a teoria é outra” como a mostrar o hiato dessa mentalidade. Expressão a que poderia ser somadas mais estas: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”; “Faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço”, com as quais nos deparamos aqui e ali, mas sobretudo, internamente, na nossa inércia mental, tão infensa à união de prática e teoria e tão avessa a “carregar pianos” como se a ação fosse algo pouco inteligente e pouco digno de nós mesmos. Mudar essa mentalidade conservadora — tão “ancien régime” — é um dos desafios postos ao brasileiro neste início de século. Seus outros nomes — é bom lembrar — são “atraso”, “ineficiência”, “ausência de empreendedorismo”, “autoritarismo”, “desigualdade social”, “injustiça”. Nomes que freqüentam a vida pública e a privada, dividindo e apagando discursos tão bonitos quanto estéreis, desconstruindo sonhos e idealismos de fachada.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h38
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