Não precisa sermos urbanistas para observar, em várias grandes cidades do Brasil, que a rua separou-se radicalmente da casa. Os altos muros — para não falar de verdadeiras muralhas — criaram ruas que são corredores de concreto. Entre os muros, corre o nosso medo e o desrespeito dos poderes públicos. Mas o medo, como escreveu o poeta pernambucano Alberto Cunha Melo, “aumenta o perigo e diminui os homens”. Não temos mais o rosto das casas em franco diálogo com a via pública. Temos apenas muros cegos e a dureza da pedra em longo monólogo paranóico. Assim, desaparecem as casas e, de certa forma, desaparecem as ruas. Perdemos o que João do Rio, em belo título, chamou de “a alma encantadora das ruas”. Infelizmente, as ruas, agora desencantadas, são apenas túneis, tristes túneis sem qualquer encanto. Quando começaremos a demolir esses muros soturnos e sinistros?
Escrito por Paulo Gustavo às 10h39
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DIA DE FINADOS E O LUTO QUE VIROU UMA LUTA A moda — e isso já faz um bom tempo — é, em face da morte de um ente (supostamente) querido, não deixar ninguém sofrer. Não chore, distraia-se, caia na gandaia, namore, vá ao cinema, experimente esse novo iogurte, o tempo não para, olha a depressão, tome uma cerveja. O “cristão” se vê cercado de conselhos febris. Em vão luta para ter o seu luto e mergulhar na rocha desolada da tristeza. Os velhos lenços desapareceram. A missa de sétimo dia é um bailinho. Com os olhos mais áridos que o sertão nordestino, os figurantes optam por óculos escuros. É isso, o velório vira uma praia de óculos escuros — a tristeza é falsa como a coroa de flores. Cada óculos que é uma beleza. Assim, em cima do nariz cabe toda a dor pelo finado. O velório é uma eternidade à parte: demora muito, quem sabe poderia ser pela Web. Vamos alegrar a família, a vida continua. Veja só aquela criatura ali: chorou muito, então é suspeita. Suspeitíssima: era amante ou deve ser anormal, talvez apenas antiga, arcaica. “Arcaica” arrasa qualquer um.
Escrito por Paulo Gustavo às 13h07
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DA SÉRIE DIÁLOGOS MUITO RÁPIDOS — O Niemeyer disse que a “vida é um sopro”! — A dele é um soprão! — E “Lula, o filho do Brasil”? — E nós, somos filhos de quem? — Ele tem o rei na barriga. — Não só o rei, um tabuleiro de xadrez! — Aquele Prof. Dr. não tem ética nenhuma. — Mas é todo “honoris causa”. — Quem ele pensa que é? — Ele não pensa! — Notou que os intelectuais não usam mais o termo “penetrante”? — Estão com complexo de castração! — Por que os psicanalistas têm um olhar recuado? — É a visão freudiana das coisas. — A filha dele é uma uva. — A mulher, um abacaxi! — Ele sofreu muito no regime militar... — Torturado pela dor de corno!
Escrito por Paulo Gustavo às 12h45
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NO DIA DE FINADOS No dia de Finados perguntarei aos túmulos o que podem me ensinar. Talvez a concisão dos epitáfios, A trôpega ortografia das datas, Os vastos nomes em ruínas. Perguntarei por teu rosto claro sob o véu do mármore. No dia de Finados sorrirei como os mortos sabem sorrir Por trás de nossos vultos ensolarados. Perguntarei às sombras pela luz apagada, Pois é simples saber que estamos em todos os túmulos, Ainda tímidos nas entranhas da terra, Pouco convencidos do grande mérito da morte, Da fabulosa arquitetura que transformamos em mistério.
Escrito por Paulo Gustavo às 10h29
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O LIRISMO DA VELHICE
Numa de seus contos, Guimarães Rosa sugere que morrer talvez seja voltar para a poesia. Penso que é antes da morte, durante a velhice ou do seu começo, que o sujeito se volta para a poesia. Poesia, bem entendido, como lirismo e sem julgamento de valor literário. É o que tenho observado. Passadas as pressões da juventude e da idade madura, vencidos ou perdidos os desafios da existência, o sujeito envereda, ainda que trôpego, com ou sem uísque, pelo lirismo. Mais relaxado, temeroso do tempo que se afunila, saudoso do tempo que passou, envereda, repito, pelas trilhas do saudosismo e da percepção lírica do mundo. Não por acaso o mesmo Guimarães Rosa nos advertiu que ser poeta já é estar metido numa espécie de velhice. A velhice, com seu tempo teoricamente mais livre e mais desimpedido, agravada pelas desilusões ou pelas conquistas, faz com que certos homens passem a poetizar a existência. Então, recorda-se o tempo, revive-se o tempo e percebe-se mais densamente o próprio tempo. Menos arrogantes que os da juventude, os “poetas” da velhice nadam em águas mais tranqüilas e cada braçada é uma vitória vital. Não se importam de aqui e ali engolirem a água turva da adversidade. O lirismo é assim terapêutico e balsâmico e é nele que lêem o texto que escreveram ou deixaram de escrever. Nada de literatura, toda a literatura. Por que não?
Escrito por Paulo Gustavo às 09h33
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