BUROCRACIA E CRIATIVIDADE: DUELO OU DUETO? Normas, carimbos, tramitações, protocolos e seus irmãos, gêmeos ou não, constituem, como todos sabem, a numerosa e infernal família burocrática. Não só o serviço público, mas organizações privadas e não governamentais se deixam, com frequência, fascinar pelo emaranhado de papéis, documentos, rotinas e atitudes que, criados para disciplinar, terminam sendo provedores do caos e da perda de um tempo valioso. Que remédio ou antídoto para minimizar esse mal aparentemente indispensável? De olho no século 21 e no advento da Era Pós-industrial, o sociólogo e consultor italiano Domenico De Masi responde com uma só palavra: criatividade. Como profeta é quem vê o óbvio (nas palavras de Nelson Rodrigues), De Masi prevê que ética e estética caminharão juntas no próximo século, fazendo desmoronar o bolorento edifício da burocracia (pelo menos, tal como ele nos é conhecido). Segundo o sociólogo, as novas tecnologias vêm permitindo que o homem desfrute (ou que possa desfrutar) de ócio, de tempo livre, justamente o tempo em que as boas ideias acontecem. Porque as ideias criativas não têm lugar nem hora para ocorrer. Eis uma das faces do duelo que a criatividade trava com a burocracia bem-comportada. É preciso que, desde já, eduquemo-nos para o tempo livre e que, consequentemente, o ócio criador seja estimulado. Eis um paradoxo a ser equacionado pelas organizações: perder tempo para ganhar tempo, uma vez que, através da criatividade, geram-se ideias, projetos inovadores, conhecimento. Como que para provar sua tese, De Masi e sua equipe lançaram o livro A Emoção e a Regra: os Grupos Criativos na Europa de 1850 a 1950, no qual analisam o sucesso de equipes e organizações famosas, a exemplo do Instituto Pasteur, da Escola de Biologia de Cambridge, da Bauhaus, do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt. Em todos, como sintetiza o título da obra, a criatividade e a disciplina, ao contrário de travarem um duelo mortal, aliaram-se institucional e espontaneamente. Além de interdisciplinaridade, houve complementaridade, sem falar no papel-chave de um líder fundador na condução da equipe. No Recife, houve uma experiência semelhante, com a criação, há exatos cinquenta anos, do Instituto Joaquim Nabuco. A figura de líder criativo de Gilberto Freyre, reunindo em si mesmo "a fantasia e a realização", como diria De Masi, formou um grupo inovador e realizador de pesquisas pioneiras. Foi um triunfo da aventura sobre a rotina. Mas é preciso que todos estejam de olho no processo degenerativo a que conduz o excesso de burocracia. É preciso o sal da criatividade para se mover num mundo que muda velozmente. A cada dia, lembra o sociólogo e consultor italiano, a sociedade já vem premiando os criativos: os cientistas, os artistas, os escritores. São estes que (mais felizes, como escreveu Bertrand Russell) fazem avançar o processo. Porque, segundo De Masi, "o burocrata vê os limites, ao passo que o criativo vê as oportunidades". No século 21, na Era Pós-industrial, ou os burocratas compõem um dueto ou o duelo lhes será fatal.
Escrito por Paulo Gustavo às 18h41
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
ENFIM, ALGUMA ATITUDE SOBRE A DERROTA RÉGIA Brinquedos causam polêmica em festa Publicado em 04.11.2009 no portal JC (www.jc.com.br)
Organizadores do evento, que homenageia Roberto Burle Marx, permitiram colocação de brinquedos de grande porte nas calçadas da praça, no bairro de Casa Forte. O local foi projetado pelo paisagistaA 31ª edição da Festa da Vitória-régia, na Praça de Casa Forte, Zona Norte do Recife, presta homenagem ao centenário de nascimento de Roberto Burle Marx (1909-1994). Mas, em vez de conservar o jardim projetado pelo famoso paisagista, os organizadores do evento permitiram a colocação de brinquedos de grande porte nas calçadas da praça. “A montagem do parque de diversões provoca estragos no piso de pedra portuguesa do passeio”, alerta a arquiteta da Universidade Federal de Pernambuco Ana Rita Sá Carneiro. Ela participou de reunião ontem à tarde, para discutir a instalação dos brinquedos, com representantes da Prefeitura do Recife e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), com organizadores da festa e representantes da empresa responsável pelo parque infantil. Durante o encontro, o Iphan elaborou um termo de ajustamento de conduta (TAC), com regras que devem ser respeitadas, para diminuir os impactos no local. “A maior homenagem ao paisagista seria a preservação dos jardins que ele criou”, destaca a coordenadora do Laboratório da Paisagem da UFPE, Ana Rita, estudiosa da obra de Burle Marx e uma das autoras do pedido de tombamento de seis das praças projetadas pelo paisagista no Recife. O processo está sendo analisado no Iphan. A festa começa sexta-feira e se estende até o próximo domingo. O superintendente local do Iphan, Frederico Almeida, informa que o objetivo do TAC é disciplinar a festa. Ficou acertado com os organizadores que não será permitida a colocação de gambiarras ou elementos decorativos nas árvores. E, além disso, a poda da vegetação atingida pelos brinquedos de grande porte só poderá ser feita pela Empresa de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb). De acordo com o TAC, o público não poderá circular no interior dos jardins. Para isso, as áreas serão protegidas com gradil ou tela. “Os brinquedos ficarão restritos ao primeiro jardim da praça, no trecho mais próximo da Avenida 17 de Agosto, sem causar danos à pavimentação de pedra portuguesa da calçada”, diz Frederico Almeida. Os organizadores da festa estão cientes do TAC e aceitaram as normas. “Uma cláusula futura prevê a relocação do parque de diversões para outras ruas próximas da praça, como a Estrada das Ubaias, a partir de 2010”, diz ele. O Laboratório da Paisagem e a prefeitura deverão vistoriar o jardim, ao término do evento. Ana Rita lembra que o assunto tinha sido discutido em audiência no Ministério Público de Pernambuco, em julho deste ano.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h39
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
A DERROTA RÉGIA MAIS UMA VEZ! A despeito do bom senso, o pároco de Casa Forte insiste em fazer todos os anos, no início de novembro, a Festa da Vitória-Régia na Praça de Casa Forte, que, como se sabe, é uma das obras paisagísticas de Burle Marx no Recife. A filantropia paroquial custa caro à praça que não tem escala para o evento. Venho igualmente, todos os anos, denunciando neste blog a aberração desta festa amarga para a natureza. E mais: repito que é um milagre que ainda não tenha havido uma tragédia, dada a exigüidade do espaço — aliás grande, mas não para uma festa em que se comprime uma multidão — e a falta de segurança para a instalação do parque de diversões. Parque de terceira categoria, no qual o encanto das crianças e dos provincianos de plantão encontram uma despreocupada diversão. Enfim, com a cumplicidade dos poderes públicos e de muitos paroquianos, instala-se um simulacro de festa. A praça sofre anualmente uma humilhação sem par em nome da melhor filantropia. Tortura-se um ambiente aprazível em nome de um capricho e sem qualquer necessidade imperiosa. Põem-se em risco as crianças e os desavisados. Flagelam-se as copas das árvores e os gramados. A barbárie avança em nome da caridade! Ora, há muito já foi sugerido outro local para a festa no próprio âmbito do bairro. Desse modo, o pároco cutuca o diabo com vara curta, desconhecendo que a Praça de Casa Forte vale uma missa!
Escrito por Paulo Gustavo às 11h49
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|