BUROCRACIA A burocracia se encanta consigo própria. Olha-se no espelho e diz: “Haverá algo mais simples do que eu?”. Nem sequer espera a resposta. Velha centopéia, multiplica-se em birôs e CPUs, arrasta-se com múltiplas caras e carimba-se com muitos carimbos. Em seu umbigo cabem os homens, a Terra e todos os astros: é nele que afundam normas, portarias, impedimentos, processos e todas as edições de ilegíveis manuais. Moderna, nos faz saltar de hiperlink em hiperlink sem que nunca cheguemos ao sonhado sítio dos resultados. Risonha, tece um fio de ironias insondáveis. Lúdica, joga com as cartas de um baralho surpreendente e sádico. Ortográfica, pinga pingos nos ii e exubera-se em reticências. Felina, tem sete fôlegos para zombar de nossa paciência. Em sua teia, toda nudez é castigada; todo avanço, subtraído. O próprio diabo, o demo em pessoa, beija-lhe os pezinhos de unhas pintadas.
Escrito por Paulo Gustavo às 12h47
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A RAINHA LOUCA Dona Maria I, mãe de D. João VI, na fuga da família real para o Brasil, teria dito algo como “Calma, pessoal, se não vão pensar que estamos fugindo”! A frase, digna de Ionesco, o criador do Teatro do Absurdo, mostra como a loucura, muitas vezes mais que a sanidade, está atenta à realidade (aliás, motivo recorrente na literatura). Sem se dar conta, a piedosa rainha beirava o real, desmontava as aparências. É bom de vez em quando que uma rainha louca dentro de nós fale por nós. Também nós vamos fugindo sem conjugar o verbo. Também nos colocam num teatro que não armamos, numa narrativa que mal conhecemos. Mas no terremoto da loucura há pedras que não se movem.
Escrito por Paulo Gustavo às 10h36
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DEMOCRACIA É DIFÍCIL MESMO No fundo de nossos sonhos, queremos facilidades: paraísos terreais, desejos satisfeitos, ouvidos que digam “sim” às nossas opiniões. Nada de arestas, confrontos. As tentações autocráticas e totalitárias, mesmo em nome dos mais elevados ideais, se alimentam desse primitivismo psíquico. Toda ditadura é um retorno à barbárie que se oculta sob o verniz dos mais “nobres” objetivos. Toda ditadura se encanta com o próprio poder — é sua fortaleza e seu calcanhar de aquiles. Toda ditadura é fácil, difícil é a democracia com suas contradições e seus embates. Seus contratempos, suas contracorrentes, sua pluralidade. O escritor André Malraux, ao visitar Brasília, disse a Juscelino Kubitschek que obras como a capital só eram possíveis numa ditadura, admirado que ficou de Brasília ter sido construída em pleno regime democrático... Justamente por ser bem mais fácil. A observação do francês expressa muito bem como é difícil e exigente ser democrata, sobretudo para quem está no poder e cercado das seduções que só o poder permite e proporciona. Fácil é prender, calar e matar os adversários, acusando-os do “crime” de pensar diferente. Como sintetizou Millor Fernandes com sua habitual ironia: “Democracia é quando eu mando em você. Ditadura é quando você manda em mim”. O pior é que ainda há muita gente, por ignorância ou índole, pensando dessa forma. E muito pior ainda é quando convencem ou querem convencer os demais de que estão no caminho certo...
Escrito por Paulo Gustavo às 09h49
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ENTRE LOBO E CÃO, UM BISPO Juscelino Kubitschek era prefeito de Belo Horizonte. Encomendara a Portinari o painel que ficaria por trás do altar da igreja de São Francisco, no conjunto arquitetônico da Pampulha. O grande pintor saiu-se muito bem na empreitada e fizera o santo ser acompanhado de um vira-lata em vez de um legendário lobo europeu, como proclamava a tradição do santo de Assis. Convidado por JK para conhecer o arquitetonicamente revolucionário templo, saído, como se sabe da prancheta de Niemeyer, o então bispo de Belo Horizonte, Dom Antonio Cabral, foi se maravilhando com tudo o que via até que — pobre bispo de espírito ou pobre espírito de bispo! — viu o cão no lugar do ortodoxo lobo. Ficou aterrado, achou um escárnio à santa Igreja Católica. Não quis mais conversa com o prefeito conversador e com o templo de Niemeyer. O pobre cãozinho, aos olhos do bispo, mais pareceu o próprio cão, afrontando a santidade logo de quem... E, assim, por esse fatal encontro, a igrejinha da Pampulha foi por um tempo apenas uma pulha, passando quase duas décadas sem padre, sem bênção. Tudo por causa do singelo vira-lata do grande Portinari.
Escrito por Paulo Gustavo às 11h28
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REDONDO E QUADRADO
Montado impavidamente na sua popularidade e na aprovação popular ao seu governo, Lula traz à garupa a noviça Dilma, talvez uma futura amazona. Por ora, graças à mídia e ao seu cabo eleitoral, “a” Dilma cresce nas pesquisas de intenção de voto. É evidente que a candidata está inflada com um gás artificial que, como bom gás, é invisível... Mas nem tanto. Esconde-se a imensa rejeição a Dilma em grandes setores da sociedade e mesmo entre aqueles que votariam em Lula para um terceiro mandato. Votar em Dilma será assinar um cheque em branco. Criador e criatura têm perfis e histórias muito diferentes. Lula é “redondo”, Dilma é “quadrada” e suas arestas estão à mostra para quem quiser ver, com isenção e objetividade, a realidade. Mas, como se sabe, política é sobretudo emoção. É o que dizia Bertrand Russell, é o que agora confirma o lingüista e cientista cognitivo George Lakoff. É nesse terreno que os estrategistas de Serra devem ficar atentos. Por isso, Serra tem deixado de crescer. Não se pode “vender” ou “comprar” (embora o discurso de campanha vá fazer isso) o governador de São Paulo como um anti-Lula. Por ora, o presidente está, salvo alguma improvável reviravolta, no domínio do excepcional. Serra tem de ir atrás dos buracos do “queijo”. Que não são poucos. E acenar com um novo discurso e novas metáforas. Oxalá seja redondo!
Escrito por Paulo Gustavo às 11h19
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O BRUXO E O RABUGENTO Francófilo, humanista, dono de um estilo em que não faltam clareza e ironia, o cientista político e professor Luciano Oliveira, da UFPE, é, sem qualquer favor, um dos melhores ensaístas de sua geração brasileira. Seu flerte com a literatura tem lhe rendido uma percepção bastante rara nestes tempos em que o estilo dos pesquisadores sociais, por excesso talvez de leituras técnicas, tem se tornado uma grosseira pasta de chavões acadêmicos. Ao contrário dos seus confrades, nosso amigo pensa por si próprio, como desejava Schopenhauer para aqueles que podem e devem escrever. Enfim, a erudição não o sufoca, mas areja-lhe o ímpeto criador e o espírito crítico. É este bom Luciano que, no próximo dia 30 de março, às 19 h, na Livraria Cultura, do Recife, estará lançando mais um ensaio, dessa vez sobre Machado de Assis e Graciliano Ramos e que intitulou de O Bruxo e o Rabugento. Parodiando Oswald de Andrade, posso dizer que não li, mas já gostei.
Escrito por Paulo Gustavo às 09h32
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